O Brasil é uma máquina de moer gente

Ao contrário de narrativas que apontam que “não há presidente”, país tem sido governado. Seus comandantes optaram por ações que ceifaram centenas de milhares de vidas; seja por infecção, fome ou por tiro. Não é acidente, é projeto Por Vitória Regina Colaboraram Leopoldo Neto e Norberto Liberator O primeiro caso de infecção registrado pelo novo coronavírus aconteceu no dia 1º de dezembro de 2019, em Wuhan, China. 30 dias depois, o país alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre uma possível epidemia. Desde então, foram registradas mais de três milhões de mortes no mundo, o que corresponde à metade do número – oficial – de judeus assassinados durante o genocídio nazista. Quando os primeiros casos foram registrados na Itália, o lado ocidental entrou em choque. Parecia o fim. O medo de viver um evento histórico – uma pandemia – aflorou o individualismo de nossa época e milhares de pessoas foram aos supermercados estocar comida, bebida e, claro, papel higiênico. Além disso, o preço de itens básicos de proteção – como álcool em gel e máscaras – explodiram, o que é esperado quando se vive em um modo de produção onde o lucro está acima da vida. Nesse sentido, embora a grande mídia tenha tentado vender a ideia de que estávamos todos no “mesmo barco”, a realidade fez questão de escancarar que não. Em São Paulo, os bairros periféricos têm três vezes mais mortes do que as regiões ricas. Até março de 2021, a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes em bairros como Jardim Paulista, Pinheiros e Perdizes não passava de 61; no entanto, Iguatemi, Brás e Guaianases, o número se aproximava de 193. Ademais, evidenciando novamente que não estávamos no mesmo barco, a taxa de infecção e de morte por covid-19 é superior em pessoas pretas, sendo 250 óbitos por covid-19 a cada 100 mil habitantes e 157 entre pessoas brancas. Todavia, o número de pessoas brancas vacinadas é duas vezes mais do que pessoas pretas. No Brasil, o primeiro caso aconteceu em 26 de fevereiro de 2020 e desde então não paramos de enterrar pessoas. O excelentíssimo presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (sem partido), que costumava dizer que ‘’sua especialidade era matar’’, provou a todos que estava certo. Desde o início, o chefe de Estado brasileiro ignorou a seriedade da doença e fez diferentes piadas, estas que custaram a vida de centenas de milhares de brasileiros. Bolsonaro, além de proferir atrocidades ao dizer que o vírus seria como uma ‘’gripezinha’’, também reproduziu um discurso eugenista ao dizer que o vírus só mataria ‘’fracos, doentes e idosos’’. Além disso, ele trabalhou contra a saúde pública ao promover aglomerações e incentivar a desconfiança da população no uso da vacina, ignorando que emergências mundiais costumam acelerar processos. O presidente também rechaçou a ideia de lockdown – por mais que a eficácia da medida seja comprovada, prometendo até utilizar as Forças Armadas contra a ‘’covardia do lockdown’’. Não à toa o Brasil é considerado o pior país no combate à pandemia Em agosto, a empresa farmacêutica Pfizer ofereceu ao Brasil o número expressivo de 70 milhões de doses, contudo, o Governo Federal não respondeu à proposta. Durante a CPI da Covid, uma carta da empresa datada de 12 de setembro de 2020 foi divulgada e afirma que a equipe da empresa no Brasil: […] se reuniu com representantes de seus Ministérios da Saúde e da Economia, bem como com a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Apresentamos uma proposta ao Ministério da Saúde do Brasil para fornecer nossa potencial vacina que poderia proteger milhões de brasileiros, mas até o momento não recebemos uma resposta. Sabendo que o tempo é essencial, minha equipe está interessada em acelerar as discussões sobre uma possível aquisição e pronta para se reunir com Vossa Excelência ou representantes do Governo Brasileiro o mais rápido possível. A realidade é implacável e não absolverá Jair Bolsonaro e todos àqueles que não se movimentaram para evitar essa tragédia no país. É fato que haverá uma tentativa de falsificação da história, mas nada retirará a culpa e responsabilidade dos ombros do capitão reformado. Bolsonaro, em diferentes momentos, chamou a vacina de ”Vachina” – explicita alusão à China, criando conflito com maior parceiro comercial do Brasil e atrasando o envio de insumo para produção de vacina. No dia 21 de outubro de 2020, Jair Bolsonaro cancelou a compra de 46 milhões de doses da vacina produzida pelo Instituto Butantan. Doze horas após anunciar a compra, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello gravou um vídeo com Jair dizendo que ”um manda e o outro obedece”. Em 9 de novembro de 2020, a Anvisa interrompeu os estudos clínicos (fase três) da Coronavac. Bolsonaro, em sua conta no Twitter, comemorou. ‘’Morte, invalidez, anomalia… Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha’’, escreveu o presidente. Com a aprovação e incentivo de Bolsonaro, a parte da população foi relaxando e ignorando a gravidade da pandemia. Os números de infectados passaram a aumentar a partir de abril de 2020 e um ano depois o Brasil chegou a registrar, em 24 horas, mais de quatro mil mortes. Diante da administração, o país passou a preocupar o mundo e diferentes países proibiram a entrada de brasileiros. Em contraste, Bolsonaro e seus aliados sentem-se orgulhosos do trabalho realizado nos últimos meses. As reações do presidente à maior crise sanitária da história do país dão asco a qualquer pessoa que se preocupe com a vida. Jair afirmou que a pandemia não seria “tudo isso” e que a mídia seria a responsável por instalar o caos na sociedade, bem como afirmou que não era coveiro ao ser questionado sobre o número de mortes no país. O presidente da 13ª potência econômica, além de não se preocupar com a gravidade da doença, também trabalhou para que a população não se preocupasse e apostou – muito influenciado por Donald Trump –
Entre mitos e resistências: uma conversa sobre a Coreia do Norte

Invasões, genocídio, revolução e especulações: o pesquisador Lucas Rubio falou à Badaró sobre a pouco conhecida história recente norte-coreana Entrevista por Vitória ReginaIntrodução e arte por Norberto Liberator Com justiça ou não, eleger heróis da pátria é direito dos que comandam uma nação. Douglas MacArthur, que liderou as tropas das Nações Unidas na Guerra da Coreia, é chamado de “general estadista” em seu país, os Estados Unidos da América. À parte de condecorações e outras honrarias, como o posto de herói nacional, MacArthur foi um criminoso de guerra responsável por um genocídio que, segundo seu comandado e também general Curtis LeMay, matou cerca de 20% da população da Coreia do Norte. A título de comparação, se considerarmos os 16,6 milhões de judeus que havia no mundo em 1939, o regime nazista matou cerca de 37% daquela população. Um leitor hipotético, condicionado a minimizar os crimes de guerra do imperialismo, poderia dizer: “mas é quase o dobro”. No entanto, a comoção não é só o dobro. Há dezenas de museus, centenas de obras cinematográficas e milhares de livros sobre as atrocidades nazistas, como não deveriam mesmo deixar de haver. Quantos sabiam, contudo, dos números sobre o massacre na Coreia? A memória coletiva norte-coreana, por motivos óbvios, nunca se esqueceu do holocausto praticado por aqueles que, menos de uma década antes, haviam se reunido para “solucionar conflitos através da diplomacia”. As tropas de MacArthur representavam não os Estados Unidos como nação, mas a ONU, afinal. Foram despejadas 635 mil toneladas de bomba em um território de 120,5 mil km². Uma média de 5,2 mil bombas por quilômetro quadrado. Dados do governo norte-coreano à época relatam a destruição de 5 mil escolas, mil hospitais e 600 mil residências. A República Popular Democrática da Coreia — conhecida por Coreia do Norte, Coreia Popular ou ainda pela sigla RPDC — também elegeu seus heróis. Kim Il Sung, que morreu em 1994, é o presidente eterno. A quantidade de estátuas e de outras prestações de homenagem estarrece a mídia hegemônica alinhada às potências ocidentais. Kim era um homem centralizador. O regime norte-coreano é altamente militarizado. Mas não há registro, nem mesmo desconfiança, de que os militares daquele país tenham ceifado as vidas de 20% da população de algum outro. Devemos reconhecer que há, sim, um regime no qual as crianças são doutrinadas desde cedo a declarar outros povos como inimigos e a exaltar aqueles que comandam seu país. Nas escolas, são obrigadas a jurar lealdade ao sistema político e econômico daquele lugar, que se declara representante de uma divindade na Terra. Ainda na fase de alfabetização, têm de fazer, com o braço esticado, uma promessa: “eu juro fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e ao que sua república representa; uma nação sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos”. Lucas Rubio, presidente do Centro de Estudos da Política Songun (Ceps), é um estudioso do processo revolucionário da Coreia do Norte, que traz outra perspectiva sobre o regime norte-coreano e a ideologia juche, a qual baseia a política do país. Você pode concordar ou não, pode achar que ele exagera ou não; de qualquer forma, vale a pena conhecer o outro lado da história e dar atenção a alguém que se dedica a estudar, com seriedade, uma realidade pouco conhecida, muito especulada e demasiado mistificada. Rubio, que esteve na Coreia Popular em 2018, fala sobre as invasões imperialistas na península coreana ao longo dos anos e sobre a Guerra da Coreia na década de 1950, bem como a reconstrução do país. A relação com a Coreia e outros países socialistas do Século XX também foi comentada, bem como temas que geram falsas polêmicas, como o mito da dinastia norte-coreana e o acesso à internet. Confira abaixo a entrevista na íntegra. Vitória Regina: Antes da ameaça imperialista norte-americana, a Coreia foi anexada pelo Império Japonês e teve sua língua e sua cultura deixada de lado. Fale um pouco sobre essa ocupação japonesa e os movimentos de guerrilhas que surgiram como resistência. Lucas Rubio: O Japão, com ânsia de se tornar uma potência regional e global, seguindo uma tendência de modernização interna, acabou por desenvolver desejos extremamente expansionistas na virada do século XIX para o XX. A Guerra Russo-Japonesa é um dos exemplos de como os japoneses ambicionavam se expandir na região. A Coreia foi o primeiro alvo de uma ação mais direta e prolongada. Em 1910, foi invadida por tropas do Japão que lá iniciaram um regime colonial cruel de exploração econômica e humana. Além de roubar os ricos recursos minerais e agrícolas para alimentar as suas indústrias, os japoneses rapidamente obrigaram milhões de coreanos a trabalharem em regime escravo, para não contar o sequestro de milhares de jovens coreanas que foram enviadas como escravas sexuais dos soldados japoneses. Outras áreas do país também foram afetadas, como a cultura e História. Os japoneses pisaram sobre toda a cultura coreana, inclusive proibindo o uso da língua coreana nas escolas e obrigando o povo a mudar os seus nomes para nomes japoneses. Diante desse cenário caótico de desastre nacional, surgiram vários movimentos de contestação, indo de mais moderados e liberais até movimentos revolucionários influenciados pelos comunistas russos. A família de Kim Il Sung, considerado hoje o fundador da Coreia moderna, estava inserida nisso. O seu pai, logo nos primeiros anos de fundação, havia organizado resistências contra os japoneses. Mas seria o próprio Kim Il Sung que daria um caráter mais bem articulado e efetivo para a luta anti-japonesa ao assumir um socialismo de caráter patriótico e adequado às características coreanas, o chamado Juche. Ele também delineou que a luta deveria ser armada contra o ocupante fascista japonês e organizou um exército de guerrilhas que operou por muitos anos nas inóspitas montanhas e florestas do norte do da Coreia, na divisa com a China. Em vários momentos, havia contato entre esse exército insurgente coreano e também os revolucionários chineses e o Exército Vermelho da URSS. Houve participação feminina no processo revolucionário? Sim, desde o começo. Os revolucionários de Kim Il Sung centravam
Isabê e o ato sensível de pintar ideias
Artista de Campo Grande falou sobre a arte ser utilizada como instrumento de luta, bem como a angústia ocasionada pela pandemia e o descaso pela natureza Por Vitória Regina Em entrevista realizada na primeira semana de dezembro, conversei com Isabela Abreu, ou simplesmente Isabê. Estudante do curso de graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Isabê tem conquistado e intrigado pessoas com suas pinturas. Durante a conversa, falamos sobre a arte ser utilizada como instrumento de luta, bem como a angústia ocasionada pela pandemia e o descaso pela natureza. Ademais, conversamos sobre processo criativo, os estigmas sobre a vida de quem vive de arte e os planos para o futuro. Como ocorreu seu primeiro contato e interesse pela arte? Considerando que estamos expostas diariamente às manifestações artísticas e culturais diversas, mas nem todas nos cativam e/ou prendem a nossa atenção. A primeira vez que eu me vi atraída pela arte como uma possibilidade de vida, a faísca mesmo, foi pelo teatro e pela música. Aos 13 anos, eu entrei em um grupo de teatro em Campo Grande (MS) chamado Grupo Casa. Foi transformador ver o ambiente cultural, toda a dinâmica do espaço e das pessoas se movimentando para que fosse possível acontecer tudo. Ali eu vi bastante arte. Legal. Você chegou a atuar em algum momento? Atuei sim. O que te fez sair da atuação e partir para pintura? Aproveitando, queria saber quais são suas referências e como elas se refletem em suas obras? Acho que foi só um caminho pras coisas acontecerem. Não sei se “saí” da atuação mesmo, acho que foi só uma complementação. Hoje eu consigo ver todas essas experiências refletidas em meus trabalhos, sejam elas do teatro, da música ou da arte visual. Aí entram as referências. Tudo serve como bagagem, em tempos em que nos é cobrado especialidade, visto uma necessidade do capitalismo, entender o ser como multifacetado e cheio de possibilidades é revolucionário. A arte é revolucionária, né?! Concordo, na minha opinião a arte deve ser utilizada como um instrumento de luta. Falando nisso, durante as queimadas no Pantanal, você produziu uma série de quadros expressando a angústia de observar a negligência com a natureza. Como as questões sociais atravessam o que você decide produzir? Penso ser impossível não ser atravessado. O próprio silêncio é uma resposta, seja de omissão ou de aceitação da realidade. Acreditar numa existência ativa, na arte como ação e, portanto, agente transformador é acreditar na potência do coletivo. Talvez um dos papéis do artista seja ver coisas acontecendo e trazer o olhar das pessoas para essas coisas. Sabe quando alguém tá andando na rua e vê uma cena bonita acontecendo e chama a atenção pra isso? “Olha que bonita aquela árvore”, Acho que esse é o papel do artista. É a pessoa que vê coisas acontecendo e faz as pessoas pararem um ‘tiquinho’ do tempo para ver também. Em 2019, você participou da 14ª Bienal de Curitiba. A participação ajudou na visibilidade do seu trabalho? Ah, foi um trabalho interessante. A visibilidade na internet é muito difícil de tangenciar, né?! A gente nunca sabe em que lugares o nosso trabalho tá chegando e nem de que forma ele chega para as pessoas. Mas a participação no evento me trouxe uma experiência muito legal, conheci muita gente interessante. (Foto: Giovanni Coletti; Pinturas: Isabê; Edição: Vitória Regina) Este ano você abriu o Ateliê Refazenda. Eu queria que você contasse um pouco de como está sendo a experiência de ter o próprio ateliê e, enquanto espaço cultural, o que você pretende realizar ali. Considero que “ateliê” mesmo é qualquer lugar que a gente destine a trabalhar e experimentar. É muito importante ter o espaço em várias esferas mas principalmente entender o tempo que o quadro ou o desenho precisam ficar “na gaveta”. Leva um tempo pra que a obra signifique algo e ter um espaço físico propicia muitas coisas que o meu quarto antes não permitia, o próprio tamanho dos trabalhos mesmo. Além disso, ter um lugar em que as pessoas podem entrar e sair, somar, criar, isso tudo é muito legal. Criação é troca e é maravilhoso ver o espaço sendo utilizado em conjunto. A princípio eu abri o espaço pensando nas aulas e oficinas de pintura, que aos poucos vão sendo retomadas, mas eu queria que fosse mesmo uma casa de cultura em que existisse um espaço expositivo para novos artistas, feirinhas, saraus. Vários planos pro ano que vem [risos]. Você tem algum ritual durante a construção de uma obra? Por exemplo, pintar em um determinado turno; ouvir determinado gênero musical, etc. Nossa, ótima pergunta. Eu adoro ficar sozinha. Quando a pintura vira trabalho você acaba tendo que pintar sempre e de qualquer jeito, com fome sem fome, feliz triste, de dia e de noite, com música ou sem. Mas algo que se mantém é o tempo de estar sozinha. Você costuma dar espaço entre o fim de uma pintura e o início de outra? Digo isso no sentido do “esvaziamento”, do processo criativo e das referências. Durante o processo de criação de uma série, por exemplo, a maior parte do tempo é utilizada para estudar e pesquisar técnicas, cores e materiais que me ajudam a chegar de uma melhor forma num objetivo visual. Desse jeito fica difícil pensar em um tempo entre o fim de uma pintura e o início de outra porque todas estão de alguma forma ligadas, seja pelas nuances da temática ou até mesmo partindo da lógica que uma leva a outra, ou seja, o quadro anterior permite a existência do próximo e assim vai. O que talvez vá se apresentando é a relação das antigas pinturas com as atuais, hoje vejo “fases” e momentos visuais que passei e hoje já trabalho de uma forma diferente. Mas ainda assim, cada trabalho conversa comigo então talvez por isso mesmo todos de alguma forma conversem entre si. Estamos vivenciando a pior pandemia dos últimos cem anos. Milhares de pessoas estão em
Rock alternativo em terra de sertanejo universitário
Estabelecimentos alternativos de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, lidam com dificuldades em permanecer abertos. A colunista Vitória Regina conversou com o vocalista da banda “Naufrágil”, João Benitez, sobre espaços alternativos, arte e música em cidade onde sertanejo universitário encontra solo fértil Por Vitoria Regina Colaborou Leopoldo Neto Em Campo Grande (MS), o sertanejo universitário faz sucesso entre o público da cidade. Os bares e as baladas sertanejas sempre funcionam tranquilamente, sem qualquer interrupção por parte dos órgãos responsáveis pela fiscalização de estabelecimentos. Em contrapartida, ambientes alternativos à cultura sertaneja vivem em constante situação de instabilidade. Antes da quarentena, tais locais lidavam constantemente com a interrupção da polícia em atividades culturais. Diante disso, resolvi bater um papo com João Benitez, vocalista da banda Naufrágil – e meu colega de curso de Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – sobre como é produzir e tentar ganhar espaço na terra dos Reis do Agronegócio, como diria Chico César. João, por que ‘Naufrágil’? Quando estávamos escolhendo nomes para banda eu pensei em “Naufrágio” porque queria algo de trágico pra combinar com nossos temas, nossa estética. Daí na hora o Higor Müller sugeriu o homofônico “Naufrágil” que traz a mesma ideia, mas além disso tem esse significante da fragilidade, que também é muito presente nas músicas. A banda, atualmente, é composta por quem? Atualmente somos só eu e o Alberto Warmling. Estamos à procura de guitarrista. Eu vi a banda se formando no curso de Psicologia e queria saber se há alguma influência dos anos em que passamos sentados na sala do bloco VI. Caso haja, queria que você falasse um pouco a respeito. Sem dúvidas, foi ali que tudo começou. Eu, o Alberto e o Higor trocando referências, batendo papo, ouvindo música. Se não fossem aqueles espaços entre aulas e, claro, as pausas pro cigarro (das quais minha entrevistadora era frequentadora assídua) acho que não teríamos a banda. Sem falar que o ambiente do curso de psicologia com certeza contribuiu para minha formação como um letrista interessado na condição humana. O primeiro single da banda, balada do homem ridículo, é sobre afeto ou sobre desilusão? Acho que é sobre os dois. Dá pra sentir que é o motor dela é a desilusão, o sentimento de não ter sido capaz de alcançar outra pessoa; mas ao mesmo tempo não tem aquela atitude de atribuição de culpa, típica dos ressentidos. É mais um reconhecimento da própria parcela de responsabilidade nesse fracasso e, posso estar errado, mas acho que isso também pode ser lido como um ato de amor. Como tem sido o processo criativo de vocês durante essa quarentena? Vocês têm produzido? Temos certa experiência em tocar nosso projeto mesmo sem poder ficar se encontrando, fizemos muito disso no começo da banda. Estamos trocando ideias, traçando os rumos, aperfeiçoando nosso material. Ou seja, fazendo tudo o que uma banda pode fazer que não seja tocar. Independente de decretos, só vamos fazer shows quando isso não for mais risco de vida. Como era, antes da pandemia, trabalhar com rock alternativo em uma cidade onde o sertanejo predomina? O underground é aquela coisa, quando você entra nessa já sabe que vai tocar para as moscas muitas vezes. Até aí tudo bem, faz parte. Acho que o que eu não esperava encontrar era tanta indisposição dos órgãos em geral com a nossa cena. Cansamos de ver bares alternativos fechar em toda parte e por todos os motivos imagináveis. Tô falando de bares que enchiam toda semana, que tinham um público consumidor fiel e não conseguiram se manter. Já passamos por uma situação de a polícia entrar no estabelecimento e interromper nossa passagem de som às seis da tarde porque tinha vizinho reclamando da altura. É difícil. Mais do que ganhar espaço com sua qualidade musical aqui você tem que lutar pelo simples direito de tocar e ser ouvido. Por outro lado, é bom ver que tem muita gente do lado de cá. As bandas novas surgem, o público muitas vezes comparece, os bares insistem em deixar a gente tocar. Tem toda uma classe interessada em manter esse tipo de cultura viva aqui na cidade, por mais difícil que seja. Há algum plano concreto para o futuro? Lançar um EP. Você tem algum ritual na hora de compor? Sofrer é um ritual? Falo isso brincando, mas é pra dizer que é um processo lento e penoso mesmo. Compor pra mim não é fácil, é uma coisa bem artesanal, tenho que filtrar muita besteira antes de chegar em algo que considero verdadeiro. Eu vi uma entrevista da Leci Brandão em que ela se diz uma compositora intuitiva, que quando Deus manda uma música pra ela já manda inteira. Achei bonito aquilo. Nesse caso, sou um compositor contraintuitivo, tenho que achar a canção pedaço por pedaço. Por fim, quais são as influências musicais da banda? Cada um de nós tem as próprias referências que acabam respingando, eu sou louco por Nina Simone e o Alberto por Nick Cave. Mas acho que o som da banda é principalmente influenciado por Einstürzende Neubaten, Tom Waits, Bauhaus, The Antlers, Lou Reed. Isso pra citar alguns, toda semana descobrimos coisa nova. Mas essa galera aí já é uma trilha sonora digna de naufrágios (risos). João, gostaria de te agradecer pela disponibilidade e desejar sucesso, seja lá o que isso significa. Nós dois sabemos que Mato Grosso do Sul é um lugar inóspito para quem executa um projeto alternativo e/ou independente. Obrigada! Eu que agradeço o espaço. Admiro muito seu trabalho e desejo o mesmo pra você. Até a próxima! Instagram da banda Canal da banda no YouTube Spotify Vitória Regina Colunista Marxista e psicóloga em formação. Debate política, psicologia e cultura.
Vigotski entre disputas e filtros ideológicos
Não podemos manter a reprodução de obras que passaram por um filtro ideológico norte-americano e que transformaram o pensamento de Vigotski em uma colcha de retalhos Por Vitória Regina Colaborarou Leopoldo Neto e Norberto Liberator “(…) aliás, toda ciência seria supérflua se houvesse coincidência imediata entre a aparência e a essência das coisas (…)” (MARX, 2008, p. 1080). O interesse central deste texto é apresentar as distorções presentes nas obras de Lev Semionovitch Vigotski traduzidas para o Ocidente. A fim de exemplificar tal problemática, analisaremos duas de suas principais obras: A formação social da mente e a A construção do pensamento e da linguagem. Os dois livros serviram como porta de entrada para os educadores e psicólogos na produção teórica de Vigotski. Todavia, há de se questionar qual apropriação foi realizada. Neste sentido, para compreendermos o que foi retirado da obra, o que foi distorcido e o por qual razão, devemos estar a par de quem foi Vigotski, o que o autor defendia e o qual era o contexto político do momento em que essas traduções chegaram à América. Em meados da década de 1980, em plena Guerra Fria, o autor bielorrusso começou ser traduzido para o Ocidente. As obras que chegaram ao continente americano foram, de modo geral, traduzidas do russo para o inglês e do inglês para o português. Entretanto, no movimento de tradução inglês-português partes importantes das obras foram deixadas de lado. Essas ‘’partes importantes’’, como se pode imaginar, foram a censura e a retirada de menções a Marx, Engels, Lênin e ao marxismo de maneira geral. As obras publicadas nos Estados Unidos – e que, posteriormente, serviriam de base para as publicações no Brasil – foram exaustivamente modificadas. A terra do Tio Sam teve como finalidade a assepsia teórica, política e ideológica do autor. O projeto era basicamente desvincular Vigotski do materialismo histórico-dialético, do marxismo, do compromisso com a União Soviética e da construção de uma nova sociedade. No entanto, antes de nos aprofundarmos sobre as problemáticas em nosso continente, é importante deixar registrado que Vigotski também teve alguns problemas na União Soviética. Algumas de suas obras só vieram a público décadas após sua morte, graças à troika – Alexander Romanovich Luria e Alexis Nikolaevich Leontiev – e por alguns outros alunos e alunas de Vigotski. Somente com a morte de Stalin, em 1953, com o degelo vagaroso e inseguro, A.N.Leontiev e A.R.Luria puderam empreender esforços para a publicação das obras adormecidas de seu colega. Segundo as recordações de René Zazzo, psicólogo francês, foi nesse período que A.N.Leontiev o procurou com a ideia de editar as obras de Vigotski no exterior. A.N.Leontiev partia do pressuposto de que os editores soviéticos poderiam seguir o exemplo e passar a editar as obras de seu conterrâneo, reabilitando assim o seu nome na psicologia soviética (PRESTES, 2010, p. 59). A intenção de Vigotski não era a de criar e de desenvolver mais uma abordagem dentre as centenas existentes no escopo da psicologia, mas construir uma psicologia geral que pudesse assumir seu caráter científico. A temática da crise na psicologia exposta por Vigotski, no entanto, não será abarcada neste texto. Quando trabalhamos com a teoria psicológica que Vigotski ajudou a construir, ou seja, a teoria histórico-cultural, devemos levar em consideração a importância da contextualização de toda e qualquer obra. Temos de considerar que as teorias são desenvolvidas conforme cada momento histórico permite, assim como compreender que o modo de produção e de reprodução da vida são importantes para a compreensão de tudo que é produzido. Sendo assim, para que possamos entender a totalidade teórica de Vigotski, temos de considerar que se trata de um pensador que viveu e que produziu intelectualmente em um modelo de sociedade calcado em um modo de produção e reprodução da vida que, por ora, não existe mais. Diferente do que se observa atualmente em alguns setores da psicologia, a teoria psicológica que Vigotski ajudou a desenvolver não tinha um caráter mercadológico, tampouco trabalhava para que os sujeitos se tornassem passivos ou se resumissem a uma deficiência, como pode ser lido neste texto publicado pela Revista Badaró sobre a Escola de Zagorsk e o trabalho dos psicólogos e educadores soviéticos em prol da emancipação humana. Vigotski foi, conforme também concorda Tuleski (2008), ‘’a expressão da luta dos homens para deixarem de ser o que são (p. 22)’’ Logo, qualquer tentativa de ‘’limpar’’ a teoria de Vigotski de suas posições político-ideológicas é vulgarizar o conhecimento e o arcabouço teórico-metodológico do autor. As traduções que chegaram ao Brasil até o final da década de 1990, são resultados de traduções realizadas diretamente de obras publicadas nos Estados Unidos e com toda fragmentação anteriormente mencionada. Contudo, algumas mudanças ocorreram a partir do início do século XXI, principalmente graças à Editora Martins Fontes, que passou a traduzir as obras diretamente do russo e em sua integralidade. Recentemente, a editora Expressão Popular também contribuiu para a disseminação de Vigotski, ao traduzir do russo a obra Imaginação e criação na infância. A obra vigotskiana passou a ser estudada nas universidades brasileiras entre as décadas de 1980 e 1990. Os livros A formação social da mente e Pensamento e Linguagem deram popularidade ao teórico nos cursos de Pedagogia e Psicologia. Entretanto, por motivos já expostos, o que se lê nessas primeiras publicações não são traduções literais, mas um apanhado das ideias centrais do autor. Diante das problemáticas envolvendo as traduções, bem como a popularização de Vigotski, compartilhamos do mesmo questionamento realizado por Tuleski (2008): O que de fato tem sido compreendido na teoria de Vygotski para estar tão em evidência na atualidade? Será que uma teoria, com base marxista e de cunho revolucionário, teria uma aceitação tão ampla, a ponto de institucionalizar-se nos currículos, se houvesse uma compreensão profunda do sentido histórico de seus conceitos? (TULESKI, 2008, p. 25). Os textos escritos pelo autor puderam ser lidos em português e na íntegra graças às traduções do espanhol e dos originais em russo. Sobre a retirada proposital de passagens ‘’polêmicas’’ ou menções
