Quando o racismo entra na guerra

Conflito entre Ucrânia e Rússia explicita interesses coloniais opostos, enquanto análises escancaram discurso de supremacia branca Por Vitória Regina e Norberto Liberator Arte por Adrian Albuquerque e Guilherme Correia https://youtu.be/HEWb2acEnGA O conflito militar travado entre a Rússia e a Ucrânia, que eclodiu no último dia 24 de fevereiro, não pode ser compreendido apenas se analisarmos as semanas que o antecederam. Para tentarmos entender o que está acontecendo no Leste Europeu, é necessário voltar, no mínimo, uma década. O presidente russo, Vladimir Putin, diante de um aceno entre a Ucrânia — país que compartilha 1.200 milhas (ca. 1.931 km) de fronteira com a Rússia — e as forças euro-atlânticas (EUA, Otan, UE), com seu poderio militar herdado da antiga União Soviética, demonstrou que a guerra nada mais é do que a continuação da política por outros meios. Putin, ao observar o poder político e bélico estadunidense se estendendo na Ucrânia — e no Leste —, afirmou que interviria militarmente no país caso as negociações de incorporação à Otan continuassem. O avanço da influência dos Estados Unidos na Ucrânia é uma ameaça direta à segurança da Rússia. O presidente russo exigiu uma postura neutra do país vizinho e que o mesmo abandonasse a ideia de se tornar membro da Otan. Diferentemente do que narra a mídia ocidental pró-Estados Unidos, a Rússia e a Ucrânia não são nações rivais. Durante a Segunda Guerra Mundial, os dois países eram parte da União Soviética e perderam mais de 27 milhões de pessoas que lutaram e resistiram contra a invasão nazista em seus territórios. Em 1991, após o fim da URSS e a dissolução do bloco soviético, foi tensionada uma hostilidade entre os países que até outrora eram considerados irmãos. Posteriormente, com o que imaginávamos ser o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos dão início a uma tentativa de estabelecer alianças militares com ex-países da URSS. No dia da invasão russa à Ucrânia, Putin declarou que não pretendia ocupar o território ucraniano, mas sim realizar uma ”desmilitarização” e ”desnazificação” do país. Essas colocações não devem ser o bastante para sair em defesa de Putin, considerando que há milícias neonazistas também do lado russo e que a política de Putin na Rússia é conservadora e reacionária. Neste sentido, não há possibilidade de ver no presidente russo uma figura anti-imperialista. A propaganda de guerra que narra o conflito coloca, diante de nossos olhos, a obrigação de escolher um lado. No Ocidente, aqueles que ”prezam pela democracia e pela liberdade” — e ignoram a História — defendem a solidariedade à Ucrânia e o apoio às forças euro-atlânticas. Em contrapartida, há quem veja na figura do antissoviético Putin e na atual Rússia uma alternativa anti-imperialista. Todavia, o que acontece não é uma batalha entre uma potência imperialista contra uma anti-imperialista, mas sim um conflito interimperialista. É possível ser contrário à expansão da Otan e ver na Rússia uma potência econômica que almeja disputar o mercado internacional. Contudo, a violência da guerra não se restringe somente à questão militar. Com o avanço das tropas russas, milhares de pessoas começaram a sair do território de conflito buscando segurança em outros países. No entanto, a comoção foi seletiva e a solidariedade não abarcou todas as pessoas. Inúmeras pessoas negras e não-brancas relataram dificuldades em sair da Ucrânia, expondo o racismo, a intolerância e a xenofobia. Desde o início do conflito, vemos um show de horrores exibido em jornais ao redor do mundo. A comoção se limita às pessoas brancas, loiras e de olhos azuis, como disse — não em tom de crítica — o político ucraniano David Sakvarelidze. Além disso, os europeus estão vendo como barbárie o que acontece diariamente no Oriente Médio e África. Racismo explícito na cobertura midiática Desde os primeiros dias do conflito, veículos de imprensa — em reportagens sobre o conflito ou nas figuras de “analistas” convidados — têm abordado a guerra na Ucrânia a partir de uma solidariedade e comoção seletivas. Em alguns casos, a atitude se deu de forma explícita. Para além do fato de o Jornal Nacional dedicar todos os blocos de sua grade à cobertura da guerra no Leste Europeu, ou da postura anti-profissional de Jorge Pontual, que chegou a interromper e insultar o historiador Rodrigo Ianhez para defender sua torcida pelo lado ocidental do conflito, houve declarações sem o mínimo objetivo de implicitar o discurso de supremacia branca. O jornalista Charlie D’Agata, correspondente da rede estadunidense CBS, afirmou que a situação é problemática por Kiev ser uma cidade “relativamente civilizada, relativamente europeia”, ao contrário de lugares como Iraque e Afeganistão, segundo suas palavras. A fala de D’Agata, além de demonstrar o desprezo por vidas não brancas, deixa subentendido também o histórico preconceito contra povos eslavos, tidos como “bárbaros” pela Europa ocidental desde o Império Romano. O racismo contra europeus orientais se seguiu durante a Idade Média, sobretudo pelo “racha” entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, a partir do chamado Cisma do Oriente, que separou a instituição entre o comando de Roma e o de Constantinopla. Ao dizer que ucranianos são “relativamente” civilizados e europeus, D’Agata reforça que aquela população é “menos inferior”, ainda que também o seja — visão compartilhada com Adolf Hitler, que também considerava a “raça eslava” menos evoluída do que a “raça ariana”. O correspondente da CBS não está sozinho. Em entrevista à rede de televisão britânica BBC, o ex-procurador-geral ucraniano David Sakvarelidze afirmou que “é muito emotivo ver europeus de cabelos loiros e olhos azuis sendo mortos todos os dias com os mísseis de Putin, seus helicópteros e seus foguetes”. O apresentador da versão em inglês da rede catariana Al Jazeera, Peter Dobbie, talvez tenha se esquecido da origem do próprio veículo em que trabalha e afirmou que o “mais tocante, ao ver o modo como se vestem, é que é uma gente bem de vida, de classe média, não são evidentemente aqueles refugiados tentando sair de áreas do Oriente Médio, numa grande guerra; não é gente tentando sair de áreas no norte da África” e
A recepção de Jorge Amado na União Soviética

Jorge Amado foi bem recebido pela cultura soviética em todos os seus estilos; escritor brasileiro foi aclamado quando servia ao realismo socialista e acolhido quando resolveu abordar outros temas Por Vitória Regina Jorge Amado (1912-2001) é um dos autores mais consagrados do Brasil. O baiano está no topo de escritores mais traduzidos, além de liderar a lista de adaptação ao cinema, teatro e televisão. A popularidade internacional do romancista do povo não era comum aos escritores brasileiros — não naquele período. Inclusive, o escritor chegou a receber um certificado do Guinness World Records, em 1996, por publicar 32 romances em 48 idiomas e em 60 países. A popularidade da obra amadiana não respeitou os limites das fronteiras brasileiras e se estendeu até à União Soviética. Suspeita-se que Jorge tenha sido o escritor estrangeiro mais lido em todo o bloco soviético (1). Neste sentido, acabou tendo forte influência na cultura popular soviética e russa. O atual presidente do país, Vladimir Putin, afirma ter sido um capitão da areia (2), considerando que esse termo é utilizado na Rússia como sinônimo de criança de rua (SATO, 2019). Jorge foi acolhido e adorado pelos soviéticos, bem como foi modificado e lidou com diferentes problemas de tradução. Com a Revolução de Outubro de 1917, as obras literárias de cunho progressistas e socialistas ganharam maior espaço no país, principalmente após a década de 1930, quando as editoras privadas foram extintas e as publicações ficaram centralizadas em editoras estatais. No entanto, embora houvesse um incentivo às traduções de obras que se aproximassem da realidade do povo soviético, algumas obras acabaram sendo modificadas em razão do moralismo do tradutor, Iúri Kalúguin, ou por cunho ideológico. A aproximação de Jorge Amado com o movimento comunista, especialmente com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), assumiu forte influência sobre seus escritos. A exploração cotidiana — e o sofrimento dos trabalhadores do campo — ganharam forma bastante definida nos romances. O modelo do Realismo Socialista e a construção do que seria chamado “romance proletário” aceleraram sua popularidade no primeiro país a realizar uma revolução socialista (3). A recepção da obra amadiana foi tão impactante que o autor chegou a receber o Prêmio Stálin da Paz em 1951. O prêmio era entregue anualmente a pessoas que promovessem o fortalecimento da paz entre os povos, escolhidas por um Comitê Internacional. A literatura amadiana chegou à União Soviética ainda na década de 1930. O autor defendia que, segundo um amigo soviético, a primeira publicação acontecera em 1933, com Cacau. Todavia, nada consta na Biblioteca Lênin e tampouco no acervo da Fundação Casa de Jorge Amado — pode ser que traduções independentes tenham sido realizadas. A primeira publicação de Amado a se popularizar na URSS foi São Jorge dos Ilhéus, em 1948. A rápida popularidade pode ser explicada se considerarmos que a obra seguia a estética do realismo socialista, além de assumir um papel político de crítica ao capital, ao imperialismo norte-americano e de escancarar a exploração e o sofrimento dos trabalhadores do campo. O modo como Jorge narrava o sofrimento dos trabalhadores foi fundamental na construção da identificação entre público e obra. Não há dados concretos sobre as tiragens de Amado na URSS. Entretanto, conforme pontua Darmaros (2016), a trilogia de Terras do sem-fim, Seara vermelha e São Jorge dos Ilhéus sai pela editora Urojai, de Kiev, com 200 mil exemplares, entre 1981 e 1984; e Tenda dos milagres, pela Raduga, de Moscou, com 300 mil cópias, em 1986. (p. 226). A qualidade das traduções de Kalúguin é questionável e as edições estão sendo revistas atualmente. Na época, por questão mercadológica, houve uma verdadeira batalha entre editoras para saber qual seria a primeira a publicar Jorge Amado. Os livros também foram modificados a bel-prazer do tradutor, que, além das já citadas alterações por moralismo e recortes ideológicos, também mudou significados de termos. Após a morte de Stálin, em 1953, iniciou-se a política de ”desestalinização” orquestrada por Nikita Khrushchev e que visava eliminar a influência de Stálin da esfera pública. O Degelo de Kruschev promoveu o fim do culto à personalidade e atribuiu diferentes crimes ao líder soviético. Após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Jorge Amado mudou o seu modelo de escrita e rompeu com o realismo socialista. No dia 11 de outubro de 1956, no jornal A Imprensa Popular (4), Jorge Amado assumiu arrependimento em ter guiado sua escrita — principalmente Os Subterrâneos da Liberdade — como uma atividade política. Posteriormente, desligou-se do PCB. No entanto, após romper com o Partidão, o escritor já era bastante popular na União Soviética e apesar de ter se distanciado do realismo socialista, as traduções de sua obra tornaram-se cada vez mais requisitadas. Arte: Norberto Liberator A mudança estética e literária é notada em Gabriela, Cravo e Canela, publicada na URSS em 1961. O livro marca o distanciamento de Amado da temática da exploração e do sofrimento dos trabalhadores e se aproxima do erotismo e da valorização da sensualidade feminina. Como supracitado, o principal tradutor do escritor alterou, motivado pelo moralismo e pela ideia de manutenção da tradição na literatura russa, trechos de erotismo. A distância entre a cultura brasileira e russa pode ser percebida na forma como estas consomem a carnalidade na literatura. À época, o que poderia ser considerado um erotismo leve para os brasileiros, para os russos seria interpretado como uma pornografia escandalosa. Um tropeço na tradução de Jorge Amado é relatado pelo atual tradutor Aleksandr Bogadanóvsk: Fico pensando o quão bom Jorge Amado era como escritor, já que conseguia angariar tanto amor do leitor russo mesmo que esse o recebesse de modo fortemente deturpado. E o problema não está só nos incontáveis erros. De um de seus livros, ”Gabriela, cravo e canela”, sai uma situação cômica. Na tradução, lê-se: ”Euforicos, o capitão e o doutor entraram no restaurante”. Em seguida, descreve-se a farra, e dela só saem o capitão e o doutor. O Euforicos, pelo visto, foi comido por eles. Mas, na verdade, ”eufóricos” é um adjetivo isolado
Marx sobre o suicídio e a privatização do sofrimento

”o suicídio não é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral” (MARX, 2006, p. 29) Por Vitória Regina Ilustração por Marina Duarte O modo de produção capitalista transforma, por razões ideológicas e estratégicas, questões sociais em tabu. Ao invisibilizar discussões a respeito de alguns temas, não debatemos sobre os possíveis sintomas, determinações e modo de enfrentamento, apenas individualizamos e responsabilizamos os sujeitos. Entre os temas considerados um tabu no capitalismo — na sociedade ocidental —, o suicídio está no topo da lista. O suicídio, em nossa sociedade, antes de ser considerado um assunto de esfera estritamente privada, é um ataque direto ao cristianismo. É um ataque à ordem secular de que um deus lhe deu a vida e ele — e somente ele — pode tirá-la. Diante da moralidade que ronda esse tema, perdemos a oportunidade de discutir de forma concreta os motivos que levam alguém a tirar a própria vida. Marx escancarou — e descortinou — as contradições presentes no modo de produção capitalista e na sociedade moderna. O artigo publicado no Gesellschaftsspiegel (1) em janeiro de 1846 é um ensaio bastante diferente da obra marxiana. Marx se interessa pela temática do suicídio após ter acesso ao Mémoires tirés des archives de la police de Paris, de Jacques Peuchet, publicado em 1838 (2). Neste sentido, comentou sobre quatro casos de suicídio — sendo três mulheres e um homem — que aconteceram em Paris. A escolha não foi à toa, já que em cada caso uma mazela da sociedade moderna foi analisada. No primeiro caso, é apontada a falsa moral da burguesia e sua materialização no patriarcado; no segundo, o ciúme e a monogamia; no terceiro, o desespero de uma mulher grávida e a intenção de abortar e no último caso o desemprego. A questão do suicídio é tratada por Marx — e por Peuchet, um monarquista — como um sintoma da sociedade capitalista. Inclusive, os dois confrontam a ideia de que o suicídio é antinatural, pois seria equivocado considerar ‘’antinatural um comportamento que se consuma com tanta frequência’’ (MARX, 2006, p. 25). O primeiro caso escolhido por Marx é sobre a história de uma mulher, filha de alfaiates, que no dia anterior ao seu casamento é convidada para jantar na casa dos futuros sogros. No entanto, por conta de algumas encomendas que deveriam ser entregues, os pais da noiva não puderam ir ao jantar. Durante a noite, os noivos se divertiram, beberam e cantaram. A jovem retornou para casa somente na manhã seguinte sendo recebida de um modo grosseiro e humilhante pelos pais. De acordo com Peuchet, os pais da noiva a ”irromperam furiosamente e cobriram-na com os mais vergonhosos nomes e impropérios”. Após a humilhação pública e o sentimento de vergonha que a invadiu, a jovem decidiu dar fim à própria vida no rio Sena. Posteriormente, Marx (2006) aponta que as pessoas intolerantes não perdem a oportunidade de lançar mão da autoridade de pessoas mais velhas. No segundo caso, uma jovem se casa com um dos homens mais ricos de Martinica. Um ano após o casamento, a mulher comete suicídio. Passado algumas semanas do ocorrido, o cunhado revelou o motivo ao afirmar que o que levou a jovem a tirar a própria vida foi o ciúmes e o controle do marido. Durante o casamento, o cônjuge contraiu uma doença degenerativa que afetou sua imagem e resolveu se isolar fora da cidade. O homem forçou a esposa a seguir o mesmo caminho, retirando-a de qualquer convívio social — além de sofrer com inúmeras cenas de ciúmes. Sem previsão de se livrar dessa situação de controle, a única alternativa encontrada pela jovem foi o suicídio. Como pontuou Engels (2019), no casamento monogâmico, o bem-estar dos homens se impõem pela dor e pela opressão das mulheres. Sobre esse caso, os autores escrevem que o sr. Von M… podia praticá-la apenas por estar amparado pelo Código Civil e pelo direito de propriedade, protegido por uma situação social que torna o amor independente dos livres sentimentos dos amantes e autoriza o marido ciumento a andar por aí com sua mulher acorrentada como o avarento com seu cofre, pois ela representa apenas uma parte de seu inventário (MARX, 2006, p. 37 – grifo nosso). O segundo caso também nos remete aos escritos de Engels sobre a monogamia e o antagonismo entre homem e a mulher na sociedade moderna. Engels (2019) afirma que o casamento monogâmico ”entra em cena como a subjugação de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, desconhecidos em toda a história pregressa” (p. 84) O terceiro caso é a descrição de um relato de tentativa de aborto por um médico a Peuchet. Uma jovem mulher procura um médico para comunicar o seu desejo de praticar o aborto, pois a criança seria fruto de uma infidelidade. Ao longo da conversa, a jovem sobrinha de um banqueiro parisiense relatou que se sentia desonrada e que não receberia o perdão de ninguém. Diante desse acontecimento, a mulher alertou que se não fosse possível interromper a gestação, optaria em colocar um fim à própria vida visando evitar um escândalo. Após a recusa do médico, a jovem cometeu suicídio. Durante a descrição do relato, o médico afirmou que ”teria dado o melhor do seu sangue” para tirar a jovem dessa situação e que gostaria de ter evitado o suicídio e — em suas palavras — o assassinato. Teria feito de tudo, menos encarar o moralismo. Em nossa sociedade — assim como no conto bíblico de Adão e Eva — aquele que comete suicídio ou aborto deve estar preparado para lidar com as consequências da expulsão do Jardim do Éden. O último caso abordado no ensaio é sobre a história de um guarda afastado que, por uma questão de idade, não conseguiu incorporar-se às Forças Armadas. O despossuído tentou adentrar na área de administração civil, mas não obteve sucesso. Diante do desemprego e da dificuldade de manter a si e a sua família —
“O óbito é alta” e a mercantilização da saúde

Caso da Prevent Senior escancara que o genocídio em curso no Brasil está enchendo o bolso de muita gente; não se engane: chamá-los genocidas — embora o sejam — não os afeta Texto por Vitória ReginaArte por Norberto Liberator Caso determinadas acusações colhidas durante os depoimentos na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid sejam comprovadas, esperamos que aqueles que se omitiram — e lavaram suas mãos em uma bacia de sangue, como diria o dramaturgo alemão Bertolt Brecht — sejam responsabilizados. Afinal, a história não cobra nada. Resumidamente, a CPI da Covid foi instalada em abril de 2021, com o intuito de investigar as ações e omissões do Governo Federal durante a pandemia. Ou seja, para tentar proporcionar uma explicação para a tragédia sanitária e pelo descanso para com a vida humana orquestrado nos últimos dois anos. Não foi um mero acidente de percurso que nos fez enterrar mais de 600 mil brasileiros e brasileiras. Durante os meses de trabalho da CPI, o desprezo de Jair Bolsonaro e sua tropa de choque pela vida ficou cada vez mais escancarado — para quem não conhecia ou se recusou a investigar o passado do Capitão. A negligência pela vida; a disputa política e ideológica travada em torno da Coronavac; os empecilhos criados na aquisição de vacinas; as medidas anticientíficas e as recomendações de remédios sem eficácia; atraso no início da vacinação; a corrupção e as tentativas de desvio de dinheiro no caso da compra da vacina indiana Covaxin foram temas que ganharam destaque até o aparecimento da Prevent Senior. O caso Prevent Senior A empresa foi criada em abril de 1997 pelos irmãos Fernando e Eduardo Parrillo. Inclusive, após uma apuração feita pelo site Jornalistas Livres, foi divulgado que os irmãos e donos da Prevent Senior estão em uma banda de rock cujas letras manifestam adesão ao nazismo. Ademais, o nome da banda, Doctor Pheabes, é uma referência ao protagonista de dois filmes de terror: ‘’O abominável Dr. Phibes’’ e ‘’A câmara de horrores do Abominável Dr. Phibes’’. A Prevent Senior virou alvo da CPI após um dossiê, divulgado pela Globo News, o qual indicava que a empresa pressionou médicos a receitarem medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento da Covid-19, além de ter punido com demissão os profissionais que recusaram utilizar o chamado kit-Covid. Ademais, o dossiê também acusa a empresa de ter omitido mortes causadas pela doença e de ter submetido centenas de pacientes a tratamentos experimentais sem a autorização e o consentimento deles. No dia 28 de setembro, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) autuou a empresa por indícios de infrações relacionadas à falta de informação sobre os pacientes e sobre os medicamentos utilizados durante o tratamento. No dia 22 de setembro, o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, esteve na CPI e negou todas as acusações e garantiu que o dossiê mencionado é resultado de ”dados roubados e manipulados”. Durante o depoimento, o diretor-executivo afirmou que a empresa alterava os diagnósticos de Covid após um determinado período de internação. A CID (Classificação Internacional de Doenças) era alterada após 14 dias em pacientes que estiveram na enfermaria e/ou apartamento e modificada em pacientes que permaneceram por 21 dias na UTI e/ou leito híbrido. No decurso do depoimento, Pedro Batista saiu da condição de testemunha para investigado após ser acusado de mentir e de ter trabalhado em parceria com o dito gabinete paralelo do governo Bolsonaro. Os senadores exibiram vídeos, áudios e documentos enviados à Comissão contendo denúncias de médicos e pacientes sobre o kit de ”tratamento precoce”. Posteriormente, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou: — É possível ouvir um áudio de familiares de pacientes e corretores de plano de saúde mostrando que, para novos clientes da Prevent, o ‘kit-covid’ era enviado diretamente para a casa dos pacientes. Como eu disse, nós temos um elenco de provas e, a cada dia, chegam mais provas de que essa coisa infelizmente, lamentavelmente, existiu — disse Renan Calheiros; grifo nosso. Para tentar desviar das acusações, Pedro Batista disse que a Prevent Senior é vítima de uma espécie de conluio e de manipulações. O diretor-executivo chegou a descrever o dossiê como uma ”peça de horror” e que o crime cometido contra ”uma empresa idônea” precisa ser investigado. Na última terça-feira (28/09), a CPI ouviu a advogada Bruna Morato. A advogada é representante de 12 médicos que denunciaram em conjunto as ações tomadas pela Prevent Senior durante a pandemia — como impor a prescrição do ineficaz tratamento precoce e os tratamentos experimentais sem consentimento. O depoimento de Morato é, até o momento, um dos mais chocantes e macabros. A depoente tentou detalhar o modus operandi da Prevent Senior e o alinhamento com o Governo Federal — aproximação feita inicialmente com o Ministério da Economia e, posteriormente, com o Ministério da Saúde. Morato explica que a aproximação com o Ministério da Economia visava promover o kit-Covid e tinha como objetivo manter a economia girando, além de descartar qualquer possibilidade de lockdown. A empresa entrou em contato com o famoso gabinete paralelo e com negacionistas como Anthony Wong, Paolo Zanotto e Nise Yamaguchi. Alinhada ao Ministério da Economia, a parceria idealizou uma ”solução” para não prejudicar a economia. Segundo a advogada, pretendiam ”conceder esperança para que as pessoas saíssem às ruas sem medo, e essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina”. Embora Morato não tenha afirmado ouvir qualquer menção a Paulo Guedes, a parceria entre a empresa e o Ministério ‘’técnico’’ de Jair Bolsonaro ceifou milhares de vidas brasileiras em uma matança quase que em escala industrial. Os pacientes recebiam o kit-covid — composto por hidroxicloroquina e ivermectina — em casa mesmo antes de realizarem qualquer exame ou sinalização de uma possível internação. A advogada afirmou ser uma estratégia para reduzir custos, considerando que ”é mais barato disponibilizar medicamentos do que realizar internação em UTI”. A depoente disse, inclusive, que a distribuição do kit-covid era feita para pessoas com comorbidades e que exames preliminares não eram realizados. — Os médicos eram sim orientados à
Badaró entrevista José Dirceu

Em entrevista exclusiva, ex-ministro-chefe da Casa Civil falou sobre cenário político da América Latina, Bolsonaro, pandemia, perspectivas para 2022, Lula e erros do PT Por Leopoldo Neto, Norberto Liberator e Vitória ReginaColaborou Marina Duarte “— Mas ô, Dirceu, por que estás tão triste?Mas o que foi que te aconteceu?— Foi a Heloísa, que dedou a turmaFez bilhetinhos e a turma prendeu” Paródia da marchinha “A Jardineira”, de Orlando Silva, em ironia ao então líder estudantil José Dirceu (atribuída a militantes da Ação Popular) O semblante sereno, como de costume, poderia confundir. De barba e cabelos longos, José Dirceu, 22, presidente da União Estadual de Estudantes (UEE) de São Paulo, parecia tranquilo e até sorria dentro do carro que o levava à prisão no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), como mostram as fotos registradas naquele 12 de outubro de 1968. Internamente, é possível que lhe passasse um filme à cabeça. Os últimos meses haviam sido intensos para o jovem, cuja história viria a se confundir com a de pelo menos cinco décadas da esquerda brasileira. Em sintonia com Paris e outras grandes cidades do mundo, São Paulo vivia uma onda de radicalização do movimento estudantil. Em um período de aproximadamente quatro meses, houve a infiltração de uma informante da ditadura na vida afetiva de Dirceu, a “Batalha da Maria Antônia” e a prisão de mais de mil acadêmicos no congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, interior de São Paulo. A sequência de episódios tensos, enrascadas e reviravoltas fez do ano de 1968 uma tragédia grega para a militância de esquerda nas universidades e escolas. De grego, inclusive, eram as aulas que ocorriam na sala conhecida como “antro do Zé Dirceu”, no curso de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), onde o líder estudantil — que estudava Direito na PUC — costumava dormir para se proteger de possíveis ataques do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Foi naquela sala que Dirceu percebeu pela primeira vez um plano para capturá-lo, ao notar que a jovem Heloísa “Maçã Dourada”, com quem passava uma noite, desarmou com muita habilidade a pistola que ele deixava em sua cabeceira. Não demorou até a garota admitir que foi contratada pelo Dops para conseguir informações do militante, cujo “fraco” por mulheres era conhecido para além do ambiente universitário. Heloísa foi mantida em cárcere, por cinco dias, pelos acadêmicos que ocupavam o prédio do curso de filosofia da USP e liberada no dia 9 de junho, em evento que contou com coletiva de imprensa. A chamada “Batalha da Maria Antônia” ocorreu em outubro daquele ano. Na histórica rua paulistana, estudantes de esquerda e de direita protagonizaram um confronto físico direto. Embora se tenha propagado que a briga era entre acadêmicos da USP e da Mackenzie, Dirceu afirma que, na verdade, ela opôs de um lado militantes de esquerda que estavam na ocupação do prédio de filosofia e, do outro, membros do CCC. A foto do então dirigente estudantil com a camisa ensanguentada do secundarista José Guimarães, morto naquela ocasião, tornou-se emblemática. O famoso Congresso de Ibiúna ocorreu naquele mesmo outubro. O evento clandestino foi desmantelado pela Força Pública e pelo Dops, em cuja sede Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Pereira ficaram detidos. Os demais foram encaminhados para o presídio Tiradentes. Mas a primeira prisão do comandante duraria menos de um ano. Após militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestrarem, em setembro de 1969, o embaixador estadunidense Charles Elbrick e pedirem uma lista de presos políticos em troca, Dirceu embarcou no Hércules 56 rumo ao México. De lá, partiu para o exílio em Cuba. Antes mesmo da anistia, José Dirceu estava de volta ao Brasil, após cirurgias plásticas e usando identidade falsa, em 1975. Cinco anos depois, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que aglutinava setores marxistas, social-democratas, católicos ligados à Teologia da Libertação e lideranças sindicais. “Cérebro” da legenda, articulou a campanha que levou à eleição do primeiro operário brasileiro a ser presidente da República, em cujo governo foi o homem-forte por três anos, à frente da Casa Civil. Condenado em processos contestados, durante julgamentos do Mensalão e da Lava Jato, nunca se retirou da vida política. Na varanda da casa de suas filhas em Vinhedo (SP), Dirceu conversou com a Badaró por videoconferência. Trajando camisa do Corinthians, o ex-ministro falou sobre a política genocida de Jair Bolsonaro, rumos da esquerda na América Latina, frente ampla, estratégias para 2022, erros e acertos do PT, entre outros temas. Badaró: Para começar, gostaríamos de falar sobre o panorama da América Latina. Na sua opinião, a pandemia é o motivo das ruas não estarem tomadas no Brasil? Considerando países como Chile, Bolívia, que tiveram manifestações durante a pandemia e o Brasil não está tendo. O Peru, por exemplo, está tendo uma eleição e bastante mobilização, com máscaras, é claro. Mas você acha que a pandemia é o fator que impede de ter uma grande mobilização no país? [A entrevista foi realizada antes das mobilizações contra Bolsonaro que ocorreram em todo o Brasil] José Dirceu: Sim e não. Veja bem, o que aconteceu na América do Sul é um sinal de que o modelo que estão tentando implantar no Brasil não deu certo e não dará certo. Nós tivemos rebeliões muito noticiadas no Equador e no Chile; e tivemos a revolta popular e derrota dos golpistas em eleições históricas na Bolívia. Perderam na Câmara, no Senado e a Presidência da República, o MAS [Movimento ao Socialismo] fez maioria absoluta e a derrota do Macri na Argentina; e o empate no Uruguai. Agora um segundo turno muito disputado no Equador e esse resultado do Pedro Castillo no Peru. Na verdade, a rebelião na Colômbia foi a maior e mais demorada, mas a mídia escondeu muito pela importância da Colômbia, né?! A Colômbia é hoje praticamente o terceiro país da América Latina, depois do Brasil e do México e se equipara à Argentina. Esses são processos de falência do modelo neoliberal
