Grupo tem se apresentado pela cidade com equipe formada por travestis e pessoas trans
A arte travesti ocupa, provoca e transforma. É com esse gesto político e estético que nasceu, em Campo Grande, a ColetivA De Trans pra Frente, primeira companhia do Mato Grosso do Sul formada exclusivamente por pessoas trans e travestis. Criada pela multiartista, professora e diretora Emy Santos, o grupo vem consolidando um espaço inédito de criação e de protagonismo para corpos historicamente marginalizados.
Em 2024, a coletiva estreou seu primeiro espetáculo, O Culto das Travestis. A montagem voltou aos palcos em agosto de 2025, no Sesc Teatro Prosa, agora com um novo elenco. No próximo domingo (7), as artistas também sobem ao palco em participação especial no show da cantora Liniker, em Campo Grande — mais um marco de visibilidade para o grupo.
O trabalho da ColetivA De Trans pra Frente mistura dança, teatro e performance para refletir sobre os espaços que pessoas trans e travestis ocupam — ou dos quais são sistematicamente excluídas. Para a fundadora e diretora do grupo, a multiartista e professora Emy Santos, a criação surge de uma urgência social e política. “A ColetivA De Trans pra Frente nasce da necessidade de unir artistas trans e travestis no Mato Grosso do Sul, levando propostas artísticas, culturais e pedagógicas que envolvem protagonismo. Desenvolvemos ações, encontros, oficinas, espetáculos e eventos, sempre com a intenção de levantar questões ligadas a gênero, sexualidade, raça e contexto social”, afirma.
O principal trabalho da coletiva é O Culto das Travestis, que Emy define como mais que espetáculo: um rito de acolhimento e resistência. Criado a partir de pesquisas individuais e encontros coletivos, o projeto transforma vivências em arte e propõe novas formas de espiritualidade e sacralidade travesti. “Essa obra é um espaço de cuidado e escuta, porque justamente nos é negado esse espaço. Quando nos encontramos, conseguimos nos olhar, curar feridas e fortalecer nossos trabalhos. É uma resposta à violência e ao conservadorismo que tentam nos silenciar. Criamos arte para criar vida”, explica.
Segundo a diretora, a montagem rompe com imaginários que reduzem travestis à marginalidade. Ao incorporar referências religiosas e espirituais em sua estética, a peça afirma que identidades travestis também podem ser sagradas, profanas e livres.
O alcance do trabalho já ultrapassa as fronteiras nacionais. Com O Culto das Travestis, Emy Santos participou do Festival OFF Avignon, na França, levando ao cenário internacional a discussão sobre a arte trans contemporânea produzida em Mato Grosso do Sul. “O próprio nome do espetáculo é ousado e forte. Somos artistas que resistem, que transformam, e o nosso trabalho mistura performance, ativismo e cultura. Também criamos rodas de conversa e oficinas, espaços de cuidado para corpos historicamente marginalizados”, afirma.
A recepção do público tem sido intensa. Na reestreia realizada no Sesc Teatro Prosa, em Campo Grande, uma procissão pelas ruas abriu a apresentação, seguida pela partilha de chá com a plateia antes da entrada no teatro. “As pessoas cantaram conosco, tomaram chá e entraram no espaço de outra forma. Muitos se emocionaram, choraram. Foi muito especial ver pessoas idosas presentes. Isso mostra que conseguimos furar a bolha”, relembra Emy.
Mais que um grupo artístico, a ColetivA De Trans pra Frente se coloca como um ato de resistência. Entre palco e rua, suas ações reafirmam a presença e a potência de pessoas trans e travestis, não apenas em Campo Grande, mas em diferentes partes do mundo.
