Carismáticos vs. libertadores: a Igreja Católica em disputa

Em meio a cobranças por solidariedade a colega perseguido pela extrema-direita, padres midiáticos se omitem e expõem antiga tensão entre Teologia da Libertação e Renovação Carismática Por Norberto Liberator A tentativa do vereador paulistano de extrema-direita Rubinho Nunes (União), um dos fundadores do MBL, de instaurar uma CPI que mire o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo na Rua, tem causado comoção nas redes sociais e obrigado algumas figuras como o vereador Thammy Miranda (PL) a voltar atrás em suas posições. Para além das mobilizações nas ruas e nas redes sociais, ela evidencia também uma divisão histórica na Igreja Católica. A perseguição do MBL ao sacerdote, que coordena ações junto à população em situação de rua, não é nova. Em 2020, o agora ex-deputado estadual Arthur do Val – cassado em 2022 após áudio em que sugeria tirar proveito sexual de mulheres em zona de guerra – foi condenado pela Justiça Eleitoral a apagar conteúdos em que atacava o padre Júlio, além de ser impedido de produzir novas postagens com o mesmo cunho. No entanto, o que também chama atenção é o fato de padres de grande alcance midiático, como Fábio de Melo e Marcelo Rossi, se absterem de manifestar apoio público a seu colega perseguido pela extrema-direita. No caso de Fábio, após intensa pressão nas redes sociais, foi publicada uma postagem com print da nota da Arquidiocese de São Paulo. No texto, bastante discreto para os padrões do influencer católico, o sacerdote-galã afirma esperar “que tudo se esclareça”. A postagem de Melo não menciona o fato de Lancellotti sofrer perseguição por pôr em prática justamente os ensinamentos dos Evangelhos. Ao esperar que “tudo se esclareça”, Fábio de Melo valida as acusações sobre Júlio “lucrar com a miséria”, o que implica em acusar a Arquidiocese de São Paulo, à qual ele mesmo está submetido. Em relação a Marcelo Rossi, até o momento da publicação deste artigo, não houve qualquer posicionamento. O mesmo se aplica a Reginaldo Manzotti, João Carlos, Alessandro Campos e Antônio Maria. Há um motivo para a apatia dos padres ‘popstars’ em relação à perseguição sofrida por Júlio Lancellotti. Todos os sacerdotes aqui citados (menos Júlio) pertencem ao movimento autodenominado “Renovação Carismática Católica” (RCC). A origem da RCC é atribuída a um retiro espiritual realizado em 1967 em Pittsburgh, no estado estadunidense da Pensilvânia, como reação à perda de fiéis da Igreja Católica para o pentecostalismo. Por isso, ela incorpora à Igreja de Roma características pentecostais como a oração em “línguas estranhas”. Na prática, a RCC se consolidou como reação à Teologia da Libertação (TL), que traz uma interpretação à esquerda em relação às Escrituras, sobretudo ao Novo Testamento. A TL teve destaque sobretudo na América Latina, onde muitos de seus adeptos apoiaram e até participaram de revoluções, como em Cuba e na Nicarágua, ou prestaram suporte à resistência armada contra ditaduras militares-empresariais. Um dos casos mais famosos mundialmente foi a atuação do padre Óscar Romero (canonizado como São Romero durante o pontificado de Francisco I) na defesa dos camponeses durante a Guerra Civil de El Salvador, eternizada nos cinemas pelo filme “Romero” (1989, direção de John Duigan). A interpretação de Raúl Julia no papel do sacerdote que dá nome à obra é aclamada pela crítica. Embora Romero relutasse em fazer uma relação direta entre o marxismo e o cristianismo, afirmava ser adepto da TL “por Cristo, não por Marx”. Romero foi assassinado em março de 1980 enquanto celebrava uma missa. Tanto a TL quanto a RCC são expressões possibilitadas pelo Concílio Vaticano II, ocorrido durante o pontificado de João XXIII e que tornou a Igreja mais flexível permitindo, entre outras coisas, que as missas não fossem realizadas em latim. No entanto, ambas seguiram caminhos opostos entre si. A Teologia da Libertação no Brasil No Brasil, a TL teve forte influência sobre as pastorais católicas e as comunidades eclesiais de base, setores que viriam a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) junto às alas acadêmica, artística, camponesa e sindical. Dom Paulo Evaristo Arns (ex-arcebispo de São Paulo) e sua irmã Zilda Arns (fundadora da Pastoral da Criança), embora não tenham sido adeptos diretos da TL, orbitaram o universo dos “católicos vermelhos” em sua atuação religiosa e política. Das formações da TL surgiram alguns dos principais intelectuais e militantes brasileiros, como o sociólogo Betinho, o líder sindical e ambientalista Chico Mendes, a ambientalista e atual ministra Marina Silva, a deputada federal Luíza Erundina e o pedagogo Paulo Freire. Após a morte do arcebispo Dom Hélder Câmara em 1999, os dois nomes mais conhecidos da TL no Brasil são os do frei Betto e Leonardo Boff. O primeiro, frade dominicano e ex-assessor especial da Presidência da República para movimentos sociais, cuja atuação no suporte ao guerrilheiro Carlos Marighella resultou no livro “Batismo de Sangue” (primeira edição em 1982) e inspiraria o filme homônimo de Helvécio Ratton em 2006; o segundo, ex-frade franciscano que deixou a carreira eclesiástica para se casar. A freira Ivone Gebara, pioneira na discussão sobre saúde reprodutiva, também é uma figura de destaque na TL brasileira. Ao contrário do que sugerem várias buscas por seu nome na internet, Boff nunca foi excomungado pelo Vaticano. Em 1984, foi condenado a um “silêncio obsequioso” a pedido do então cardeal Joseph Ratzinger (que viria a ser o Papa Bento XVI), posto em prática pelo Papa João Paulo II. Tanto Bento XVI quanto João Paulo II eram adeptos de alas reacionárias da Igreja, tendo atuado para combater a influência da esquerda católica. Processo semelhante ao de Boff também foi imposto, na década de 1980, ao bispo Dom Pedro Casaldáliga. O sacerdote espanhol radicado no Brasil foi um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), respectivamente entidades que atuam na defesa de camponeses e povos indígenas. São a CPT e o Cimi que produzem, anualmente, relatórios utilizados em dados oficiais sobre violência no campo e contra populações originárias. Curiosamente, em Mato Grosso do Sul, deputados ruralistas instauraram a CPI do Cimi em 2016. A Teologia
