“Eu não quero me tornar branca, quero ser cada vez mais indígena”

A antropóloga Tanaíra Sobrinho fala sobre as tensões de ser uma indígena terena em um meio acadêmico ainda predominantemente branco Por Aline Correia Antonini Colaborou Norberto Liberator O mito faz parte integrante da língua; é pela palavra que ele se nos dá a conhecer, ele provém do discurso. Se queremos perceber os caracteres específicos do pensamento mítico, devemos, pois, demonstrar que o mito está simultaneamente, na linguagem e além dela. (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 228) Na cosmologia umbandista, existe a crença de que uma cabocla com poucos meses de vida havia sido abandonada por sua mãe aos pés de uma árvore de jurema. Foi encontrada e adotada pelo poderoso guerreiro caboclo tupinambá, que a batizou com o nome de Jurema. Cresceu e tornou-se a primeira guerreira e cacique de seu povo. Era temida pelas tribos inimigas e jamais abaixava a cabeça. Destemida, corajosa, lutou por si e por sua tribo. Como entidade encantada da linha dos caboclos, é conhecida pelo furor do brado que anuncia sua manifestação em terra. Assim como o brado da cabocla filha de tupinambá, uma antropóloga indígena se anuncia com a voz carregada de força e orgulho: “Meu nome é Tanaíra Sobrinho. Pertenço ao povo Terena. Resido e resisto aqui em Campo Grande”. Aos 29 anos, a professora possui uma trajetória de luta, construída através da busca pela educação, ao mesmo tempo em que buscava conhecer a si mesma, a sua ancestralidade e as raízes do seu tronco familiar. Formou-se em Geografia, no ano de 2015, pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Seu trabalho de conclusão de curso “A desativação do terminal rodoviário Heitor Eduardo Laburu em Campo Grande (MS) e suas configurações socioespaciais” transitava pela temática dos estudos urbanos, habitacionais e impactos socioeconômicos. Em agosto de 2020, defendeu o seu título de mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS. Sua dissertação, com o título “Eu gosto mesmo é de mulher: afetos e desejos dissidentes entre mulheres indígenas em Mato Grosso do Sul”, voltou-se para as experiências de afeto e sexualidade entre mulheres indígenas, tema que se aproxima à descoberta da sua própria identidade. Os indígenas da etnia terena, família linguística aruak, habitam os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, desde o século XVIII. Segundo dados do censo do IBGE (2010), a população dos terena se aproxima dos 30 mil habitantes, sendo a quinta maior etnia em número de pessoas no Brasil e a segunda em MS, muitos desses vivendo fora e/ou longe de suas aldeias, assim como é o caso de Tanaíra, pertencente ao tronco familiar da terra indígena Taunay-Ipegue, entre os municípios sul-mato-grossenses de Aquidauana e Miranda. “Sempre morei e sou nascida aqui em Campo Grande. Mesmo não morando na aldeia, com o tempo fui descobrindo minha identidade de mulher indígena, mesmo com a pressão do racismo estrutural do nosso país, que tenta esconder nossas identidades”, afirma, sobre o apagamento das pessoas indígenas. Lecionando a disciplina de geografia na educação básica, fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos (EJA), observou que era uma das únicas professoras indígenas existentes neste sistema de ensino em Campo Grande. “É muito raro encontrar professores indígenas lecionando aqui”. No início de 2020, começou a lecionar na rede privada de educação, e notou que a ausência de professores é ainda maior, não apenas com indígenas, mas com pessoas racializadas, de forma geral. “Observar essa ausência me leva a pensar também em questão socioeconômica. Mesmo no ingresso de estudantes através do sistema de ações afirmativas, ainda é muito pouco, apesar de ter acontecido um avanço, principalmente pelas mulheres”. Desta forma, volto ao mito umbandista, pois, tal qual a Cabocla Jurema foi a primeira em guerrear e liderar sua tribo, a terena Tanaíra foi uma das educadoras precursoras na educação de base, nas redes pública e privada, na capital com maior população de terenas no país. Neste sentido, mito, linguagem, oralidade, conhecimento, tradições, identidade e trânsito entre espaço-tempo são os fios que tecem a rede em construção do ser, do saber e do pertencer. Como dizia Claude Lévi-Strauss: “isso é bom para pensar”! Carreira acadêmica e profissional Tanaíra explica que sua pesquisa acadêmica se deu pela necessidade de um estudo que se debruçasse sobre sexualidade dissidente, ou seja, não heteronormativa, entre mulheres dentro de aldeias indígenas. “Se existe uma invisibilidade e uma não abordagem sobre as relações e sexualidades entre os indígenas, de uma forma geral, entre as mulheres é ainda mais raro. Então, comecei o processo de pensar como funciona a questão das sexualidades dissidentes entre as mulheres indígenas, entre as aldeadas em sua maioria”. A antropóloga buscou recortes específicos de como essas mulheres se percebem e como são percebidas por suas próprias comunidades. “A pesquisa começou a se construir pensando em como elas se identificam enquanto mulheres que possuem experiências afetivas com outras mulheres; quais são os tipos étnicos e idades; quais os enfrentamentos dessas mulheres durante suas jornadas”. Ao pesquisar os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Tanaíra conta que notou o crescimento do número de indígenas no ensino superior, o que a surpreendeu positivamente. “A partir do momento em que a população indígena adentra a universidade, ela vai levar o retorno deste conhecimento de volta para a comunidade. Então é muito interessante pensar nisso”. O indígena urbano Durante a educação básica, Tanaíra estudou apenas em escolas não indígenas, além de nunca ter vivido em aldeia urbana. “É muito interessante pensar nisso, porque o indígena não é só aquele que vive na aldeia, o aldeado. Se formos pensar a respeito do aldeamento, temos aí uma questão histórica de confinamento, uma retórica colonial, entre outros. Eu costumo dizer que nós usamos e estamos em todos os espaços e todos eles são terras indígenas”, afirma. O apagamento de sua própria identidade foi outro problema com o qual teve de lidar. “Durante a minha vida no convívio com os não indígenas, eu sofri com estigmas e preconceito inúmeras vezes.