‘Carne Viva’ aborda violência contra a mulher no Ateliê Cênico

Ato poético ocorre no dia 17 de outubro; ensaio aberto será realizado nos dias 18 e 19 Da redação O projeto SOBREVIVER, idealizado pela atriz e produtora cultural Estefânia Bueno, convida o público feminino de Campo Grande para um Ato Poético nesta sexta-feira (17), além de Ensaio Aberto no sábado e domingo (18 e 19 de outubro), no Ateliê Cênico (Rua Joaquim Murtinho, 2204 – Itanhangá Park). A ação integra o processo de criação da peça teatral “Carne Viva”, que aborda temas como opressão de gênero, feminicídio e as diversas formas de resistência das mulheres. O projeto busca transformar experiências reais em arte e diálogo. O ato poético é aberto para mulheres participarem, no dia 17 de outubro e para além, mulheres com interesse em somar a partir de suas próprias vivências e seu testemunho, verifique o link e preencha um formulário com questionário e relato pessoal sobre experiências de violência. Esses testemunhos serão ressignificados poeticamente e incorporados ao ato poético, trazendo memórias e vozes femininas. Nos dias 18 de outubro, às 19h30, e 19 de outubro, às 18h, o público poderá acompanhar o ensaio aberto de CARNE VIVA no Ateliê Cênico. Os ensaios abertos são um momento de troca, abrindo espaço para debate e reflexão sobre a construção cênica do espetáculo. O projeto propõe um debate sobre as insurgências femininas sob uma perspectiva poética, tragicômica e musical, em que o riso e a dor se entrelaçam como formas de resistência. O objetivo é provocar reflexão, empatia e diálogo sobre as urgências que atravessam o cotidiano das mulheres campo-grandenses. “SOBREVIVER” é um projeto que transforma dor em palavra, silêncio em presença e experiência em resistência. Através da arte, o projeto reafirma a importância de ouvir, acolher e dar visibilidade às histórias das mulheres que vivem e sobrevivem cotidianamente à violência. O projeto é contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc juntamente com a Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Espetáculo ‘Quem a mim nomeou o mundo?’ leva reflexões ao Sesc Teatro Prosa

Exibição será no dia 17 de outubro Da redação O Sesc Teatro Prosa recebe, nesta sexta-feira (17/10) o espetáculo “Quem a mim nomeou o mundo?”, uma produção que mergulha em questionamentos profundos sobre as normas de gênero e as violências que atravessam os corpos e as subjetividades. Com sessões às 16h e 19h, a peça promete instigar o público a refletir sobre as palavras e discursos que moldam identidades e perpetuam binarismos. A obra, atravessada por múltiplas vozes que aceitam, questionam e reagem às certezas impostas, propõe uma investigação coletiva: qual é a palavra que mata a coisa? Quais discursos reproduzem violências? E como nomear o mundo fora da lógica que determina quais corpos vivem e quais morrem? A partir de diferentes contextos e localidades, o espetáculo evoca perguntas que geram ainda mais indagações, desafiando normas e ironizando padrões.Entrada franca e ação solidáriaCom entrada gratuita, os ingressos devem ser reservados pelo site da Sympla. Durante o evento, serão arrecadados alimentos não perecíveis, que serão doados ao Núcleo Assistencial Ramatís. Com produção da Manaká Cultural, a apresentação tem coreografia e dança de Vanessa Macedo e Maria Fernanda Figueiró; operação e criação de luz de Camila Jordão; cenografia de Fernanda Lazzarini; trilha sonora de Lua Oliveira; acompanhamento de processo de Júlia da Rocha e figurino de Rita Figueiró. O Sesc Teatro Prosa se localiza na Rua Anhanduí, 200, na região central de Campo Grande. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Artistas sul-mato-grossenses representarão o Brasil em evento na França

Maria Fernanda Figueiró e Emy Santos se apresentarão na Temporada Cultural Brasil-França 2025 Vitória Regina Correia As artistas Maria Fernanda Figueiró e Emy Santos, ambas de Mato Grosso do Sul, foram selecionadas para representar o Brasil em dois dos mais prestigiados eventos artísticos da França, nas áreas de dança e teatro, respectivamente. Elas foram contempladas com a Bolsa Funarte 2025 – Temporada Cultural Brasil-França. Maria Fernanda Figueiró apresentará sua produção coreográfica na Bienal de Dança de Lyon, em setembro, levando à cena internacional a força e a originalidade da dança concebida em território sul-mato-grossense. Já Emy Santos levará sua criação cênica ao Festival OFF de Avignon, em julho. Para Maria, a seleção representa não apenas um marco pessoal, mas também um gesto político em defesa da arte produzida fora dos grandes centros do país. “Ter sido uma das 10 artistas selecionadas em todo o Brasil para representar a dança de Mato Grosso do Sul por meio deste edital da Funarte foi uma grande alegria”, destaca a dançarina. “Produzir dança fora do eixo Sul-Sudeste é um desafio constante”, pontua Figueiró. Para a artista, a função “exige dos fazedores da dança, dia após dia, o enfrentamento de inúmeras adversidades — entre elas, a falta de reconhecimento e de visibilidade”. Ela também ressalta a necessidade de linguagens originais. “Por isso, acho importante nos apropriarmos do nosso fazer, marcado por uma forma de pensar própria e singular”. Arte: Vitória Regina Correia De acordo com Maria Fernanda, é importante “os artistas locais se fortalecerem, galgando juntos espaços nas artes nacionais, pois só assim conseguiremos ultrapassar essa lógica vigente de prestigiar somente o que é feito nos grandes centros políticos e econômicos do país”. A artista pontua, ainda, que tanto sua obra quanto a de Emy foram as únicas selecionadas do estado em suas respectivas linguagens. “Sou a única representante da dança de Mato Grosso do Sul contemplada por este edital, ao passo que Emy Santos foi a única representante do teatro sul-mato-grossense selecionada”. Para a dançarina, a seleção pode servir de impulso para uma maior valorização da arte local. “Isso me fortalece e alegra, por saber que nossa dança e nosso teatro estão sendo reconhecidos e poderão alcançar novos espaços — de forma que até mesmo o próprio MS possa valorizar seus artistas, dando voz aos seus saberes e fazeres.” Emy Santos destaca a importância de sua seleção. “Representa muita coisa! Inclusive o valor do meu trabalho para além do estado, imbricado em um fazer contemporâneo que mistura arte e vida”, afirma a artista. Ela também ressalta “a possibilidade de criar um mundo possível onde a violência não capture os sonhos das pessoas que não correspondem ao padrão”. Para a atriz, a conquista também é representativa para incentivar mais pessoas trans a seguirem sua arte. “Significa força de poder representar pelo o que eu sou e tudo que represento para minha comunidade, tendo a sensação de poder retornar o valor que me foi tirado na colonização do nosso país”, conclui. A Temporada Cultural Brasil-França é uma iniciativa do Instituto Guimarães Rosa e do Institut Français, sediado em Paris, realizada em parceria com as embaixadas de ambos os países, sob a coordenação dos Ministérios das Relações Exteriores e da Cultura do Brasil e da França. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Dança e política: a origem da dança moderna e a Alemanha Nazista

Ascensão de movimento vanguardista está envolta em controvérsias ligadas a políticas do Terceiro Reich Por Maria Fernanda FigueiróArte: Vitória Regina A dança moderna surge na Alemanha do início do século XX, período marcado pelo surgimento de diversas bases para a dança contemporânea, tendo no nome de Rudolf Von Laban (1879-1958) a faísca de sua fomentação. A chamada dança moderna surge como uma forma de produzir dança como uma reação e enfrentamento a um tempo marcado pela “decadência da modernidade”. O mundo começava a ser dominado por máquinas e já se pressentia os flagelos da barbárie da guerra, reagindo “contra a mecanização dos processos produtivos e das relações sociais. Isto levou os pioneiros da dança moderna a investigar a relação do homem com o próprio corpo e de seu corpo com o mundo.” (SILVEIRA, 2009, p. 4) Além de Laban, é imprescindível citar outros dois nomes fundamentais para o desenvolvimento da dança moderna na Europa do século XX: Kurt Joss (1901-1979) e Mary Wigman (1886-1973). Esta, durante sete anos, foi assistente e colaboradora de Laban e, durante a I Guerra Mundial, mudou-se para Zurique e passaram a frequentar encontros com outros artistas de diversas áreas que expressavam suas consternações em relação aos horrores da guerra, alimentando-se das bases da construção do movimento dadaísta. Tal momento histórico foi fundamental para Laban aprofundar e pesquisar seu estilo, promovendo o pensamento de uma dança que privilegiava a exploração criativa ao invés do virtuosismo de execução, como era predominante na dança até então desenvolvida. O intuito das pesquisas de Laban e Wigman era desenvolver ferramentas para ensinar a dança agrupos amadores, de maneira a reintegrar a prática da dança à vida das pessoas comuns (OLIVEIRA, 2020). Tal concepção foi muito utilizada na dança moderna norte-americana como uma prática política com enorme capacidade de “despertar a consciência de classe em crianças e treinar adultos para o movimento coletivo organizado, necessário para a luta por direitos sociais” (OLIVEIRA, 2020, p.39). Com o fim da I Guerra Mundial, Mary Wigman monta, em 1920, sua escola de dança expressionista denominada Dresden Central School ou Mary Wigman-Schule. Ela obteve um grande sucesso na Alemanha e em outros países por ser uma das primeiras coreógrafas a trabalhar com músicos em suas composições, tendo um efeito profundo na maneira pela qual os artistas passaram a encarar a dança. A coreógrafa alemã acreditava no rompimento do bailarino com a tradição clássica de forma que este pudesse expressar-se mais livremente e compor com sua individualidade. Convergiu suas pesquisas aos princípios da Dança de Expressão (Ausdruckstanz) que tinha no individualismo de cada bailarino a base subjetiva para a criação. Segundo Franco (2007), foi implicitamente atribuída à Ausdruckstanz uma aproximação estética e ideológica com o movimento expressionista, entretanto, contrariamente deste movimento, que foi considerado revolucionário pela história e banido do regime nazista, a Ausdruckstanz continuou a florescer durante o regime tendo inclusive seu suporte. O interesse do regime nazista em fomentar a Ausdruckstanz se deu pelo fato desta ser definida como a “dança alemã”, no intuito de marcar a distinção com a dança moderna americana, de forma que a dança alemã obtivesse um caráter nacionalista e racista – uma vez que a política cultural deste regime negava qualquer tipo de liberdade (Franco, 2007). É relevante ressaltar que, durante o governo de Adolf Hitler, Laban e Wigman obtiveram investimento em seus trabalhos pelo Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels, tendo sido ambos convidados para a realização dos preparativos para o Festival de Dança da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. Entretanto, em 1935, Mary Wigman recusa o convite de Laban para participar da abertura. As consequências de seu possível envolvimento não deixaram de chocar a comunidade artística, principalmente os alunos da Mary Wigman School, localizada em Nova York, que era composta em sua maioria por alunos da esquerda militante, tendo grandes nomes da chamada dança revolucionária que eram formados em sua maioria por mulheres judias. Laban, por sua vez, teve um importante papel no projeto político nazista através das chamadas danças-corais, que tinham como intuito promover a disseminação da prática da dança para amadores interessados em estabelecer uma conexão com o coletivo. As danças corais tinham como intuito unir amadores e profissionais da dança de forma a aproximar o sujeito comum da arte, produzindo uma linguagem acessível que intuía que o fazer artístico poderia pertencer a qualquer um. Tal fenômeno era estabelecido através de um conjunto de pessoas que se movimentavam em consonância, seguindo os passos coreográficos de um líder que organizava o grupo em simultaneidade. Este formato coreográfico foi rapidamente cooptado pelo regime nazista e denominada como a Gemeinschaftstanz (dança comunitária) do povo alemão, inferindo um senso de comunidade estrategicamente utilizado pela ideologia nazista para a consolidação de seu projeto identitário da raça ariana, onde a pregação de uma identidade única e homogênea afirmasse seus ideais higienistas e de exclusão. Laban ainda exerceu o cargo de direção do Deutschen Tanzbühne após um convite de Joseph Goebbels. Este cargo de alta posição o encarregava de “organizar apresentações de trabalhos artísticos de dança, coreografa-los quando necessário, e promover jovens bailarinos alemães, principalmente aqueles que estavam sem trabalho por causa da recessão” (PRESTON-DUNLOP, 1998, p. 186). Ainda no cargo de direção do Deutschen Tanzbühne, Laban constantemente apresentava sua dança à disposição do regime: “Nós queremos colocar nossos meios de expressão e a linguagem de nossa arte em seu nível mais intenso a serviço das grandes tarefas que nosso povo deve realizar e às quais nosso Führer apontou o caminho com implacável clareza de visão.” (LABAN apud KARINA; KANT, 2003, p. 17). Colagem: Vitória Regina Quando ainda responsável pelos Teatros Estatais de Berlim, Laban baniu alunos lidos como não-arianos das turmas infantis de ballet e utilizou em suas coreografias símbolos significantes à ideologia nazista, afirmando em um Congresso de Dança de 1930 que sua dança-coral era uma: “nova dança folclórica da raça branca da qual ele diferenciava das danças sociais da moda que mostram uma invasão dos movimentos raciais estrangeiros” (LABAN apud KEW,1999, p. 78).
