Momento de mobilizar é sempre, defende Glauber Braga

Deputado conversou com a Badaró sobre o processo de cassação de seu mandato, conjuntura nacional e perspectivas para o futuro Entrevista: Vitória Regina Correia e Norberto Liberator https://www.youtube.com/watch?v=gxQdEUiUF00 Glauber Braga é um dos principais quadros da esquerda brasileira emergidos após a primeira “era Lula”. O friburguense tinha 20 anos quando o operário se tornou presidente da República pela primeira vez. Aos 26, assumiu o cargo de deputado federal pelo Rio de Janeiro. Filho de pais brizolistas, cresceu em um lar de esquerda. Aprendeu com sua mãe, Maria da Saudade Braga, a não baixar a cabeça para os interesses da burguesia e de seus representantes na política institucional (Saudade foi prefeita de Nova Friburgo entre 2001 e 2008. Hoje, Glauber enfrenta mais um desafio contra a direita oligárquica: um processo de cassação que, se consumado, seria a maior pena já imposta pelo Conselho de Ética da Câmara. Isso porque expulsou, a empurrões e pontapés, um militante de extrema direita que o ameaçou e ofendeu a honra de sua mãe. Para que o drama tome ares de comédia, como é comum no Brasil, o próprio relator do caso já agrediu fisicamente um jornalista dentro da Câmara e nunca foi punido. O parlamentar do Psol tem percorrido o Brasil, em caravana, para defender seu mandato e explicar que não se trata de uma luta pessoal, mas do enfrentamento aos que pensam ser donos do país. Em Campo Grande, encontrou-se com militantes no sindicato dos professores, a ACP, e falou com exclusividade à Badaró sobre o processo, governo Lula, conjuntura nacional e perspectivas para a esquerda no Brasil e no mundo. Confira: Badaró: Você tem afirmado que a sua condenação no Conselho de Ética está ligada a interesses do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira. Inclusive chegou a ser dito que seu mandato seria mantido desde que pedisse desculpas ao Lira. No entanto, você diz que pedir desculpas pra ele seria o pior que perder o mandato. Ao optar por esse embate direto e não pela negociação, você acredita que pode inspirar novas lideranças a não se acomodarem e aceitarem esse “toma lá dá cá” como regra? Glauber Braga: Quando se estabelece, você não consegue mais parar. A briga que nós vamos fazer para além da salvação do mandato, é uma briga contra o poder ilegal. Lira é a representação mais gritante do que é o poder oligárquico no Brasil. É gente com muita grana, um poder incontrolável, e para além disso, que utiliza de todas as ferramentas para subjugar o seu oponente, o seu inimigo. Ou a gente reage a isso, ou o que vai acontecer é a amplificação, a ampliação e a manutenção de poder permanente do poder oligárquico. Eu considero sim, respondendo a tua pergunta, espero que essa ação, como a minha foi inspirada por outros, outras pessoas, outros mandatos, a fazerem essa luta contra o poder oligárquico. Mas isso não nasce de mim. Eu sou inspirado pelos movimentos de luta, pelas organizações de luta que já fazem isso. O militante do MBL envolvido na confusão do vídeo fez insinuações sobre sua mãe, Maria da Saudade Braga, que morreria pouco tempo depois. Você poderia explicar melhor sobre a trajetória política da sua mãe e, na sua avaliação, qual é a motivação de ter um nível tão baixo de provocação? Minha mãe é uma mulher que cavou o chão com as unhas, nordestina de Natal, no Rio Grande do Norte. Que começa, no município de Nova Friburgo, a trabalhar como médica de família, quando na época o programa nem existia, mas ela já atuava na zona rural do município e trabalhava também discutindo prevenção à gravidez na adolescência nas escolas do município. Sou filho de um casal de brizolistas: Saudade, minha mãe e Roberto, meu pai. Minha mãe, então, por conta desse trabalho de base que ela já realizava, é convidada a ingressar na época no PDT e ser candidata a vice-prefeita. Vem daí a trajetória dela. Ela é eleita prefeita rompendo uma polarização histórica de dois grupos políticos de direita. Então, ela é a primeira candidatura de força popular que se elege, de fato, na cidade com um programa à esquerda. De uma câmara de 19 vereadoras, em um determinado momento só uma vereadora apoiava o governo dela, e eles fizeram de tudo para derrubá-la. E ela sustentou o governo fazendo mobilizações públicas na rua e com decisões judiciais contra as tentativas de cassação. Eu tenho muito orgulho de ter, inclusive, como militante participado dessa ruptura que ela fez na cidade. Sofreu muito, como as mulheres sofrem quando militam politicamente, quando exercem cargos como ela exerceu. Você tem uma ideia de um candidato, na primeira candidatura em que ela foi eleita prefeita, que no programa de televisão dizia “Aqui, nas minhas veias, corre sangue de friburguense e não caldo de rapadura”. Era esse o nível da campanha que ela enfrentava. As elites locais nunca aceitaram que ela tenha sido eleita prefeita. E daí veio uma reação muito forte do ponto de vista da misoginia e de todos os ataques que ela sofreu durante aquele período. Minha mãe não era uma militante de formação feminista, mas ela fazia um governo feminista na prática. A maioria absoluta das secretarias era comandada por mulheres. Quem vem depois dela, um cara da direita, não tinha ninguém, não tinha uma mulher ocupando nenhuma secretaria. Então, sempre que eles atacam a honra dela, eu me sinto na obrigação, não só porque ela é minha mãe e porque eu amo minha mãe, mas pelo que ela representou na luta de ruptura com as oligarquias de Nova Friburgo. Uma trajetória parecida com a da Luiza Erundina. É isso aí. Eram amigas, inclusive, se parecem muito. Você tem sido uma das vozes mais fortes contra as privatizações. Diante de um Congresso majoritariamente favorável ao mercado e que coloca o governo federal como refém, quais são as estratégias viáveis para reverter ou ao menos barrar esse processo de desmonte do patrimônio público? A principal tática tem que ser essa aqui. Tem
‘Nem deveria ter entrado’: Valter Pomar defende rompimento do PT com Riedel

Em entrevista exclusiva, candidato à presidência nacional do PT defendeu guinada à esquerda e saída do governo sul-mato-grossense Condução e roteiro: Norberto Liberator Na história do Brasil, nenhuma agremiação de esquerda foi tão bem-sucedida quanto o Partido dos Trabalhadores. De um papel decisivo na Constituinte de 1988 a prefeituras, governos de estados e à eleição do primeiro operário a chegar à presidência da República, a legenda se consolidou com a base sólida em uma militância “pé no barro”. Sindicatos, movimentos de luta pela terra, pastorais católicas, intelectuais e artistas formaram uma força ampla e diversa que não tinha medo de falar em socialismo. Hoje, o cenário é diferente. Ao longo de três mandatos e meio, até um golpe de Estado, o PT se desgastou. As concessões à direita se tornaram cada vez menos pontuais e mais profundas desde a “Carta aos Brasileiros”, lançada antes da vitória eleitoral em 2002, ano em que o partido apostou num empresário de centro-direita como vice. Abandonando cada vez mais o discurso radical e se tornando parte do “sistema”, o PT perdeu parte do encantamento que possuía sobre a juventude e as camadas mais populares. Há quem aponte que o partido começou a caminhar para a política de conciliações desenfreadas não em 2002, mas em 1995, quando José Dirceu foi eleito seu presidente nacional. Naquele ano, Dirceu era considerado o candidato do “centro”, enquanto Hamilton Pereira representava a ala mais à esquerda. Atualmente, o PT passa novamente por eleições internas. O chamado PED (Processo de Eleição Direta) ocorre no dia 6 de julho. Novamente, o partido tem uma disputa entre setores que querem levá-lo mais ao centro e os que defendem mais radicalidade. Entre o segundo grupo, um dos candidatos esteve em Campo Grande em uma rara noite de frio na capital sul-mato-grossense. De boina, sobretudo e uma camiseta com estampa em apoio à causa palestina, Valter Pomar cedeu entrevista à Badaró em uma padaria, onde conversou sobre os rumos do PT e da política nacional. Badaró: Em Mato Grosso do Sul, o PT integra a base do governo Eduardo Riedel. Uma figura do agronegócio, que recentemente colocou sua polícia para agredir companheiros sem-terra e que defende a anistia dos golpistas do oito de janeiro. Como você vê essa aliança e a possibilidade de um rompimento com esse governo? Valter Pomar: Que o PT não deveria ter entrado nesse governo e já deveria ter saído. Não é um problema do Mato Grosso do Sul. Em vários estados brasileiros aconteceu algo parecido. Em nome de derrotar a extrema direita, o PT nas eleições apoiou um candidato da direita. Muitas vezes esse candidato da direita também era meio extremo. Mas o PT não apenas apoiou esses candidatos, como deu um passo além. Começou a participar do governo. Esse passo além é mortal, na minha opinião. Porque uma coisa é você sugerir à população que num segundo turno, onde o PT não está, vote contra o candidato da extrema direita. Outra coisa é você recomendar à população que vote num candidato da direita para derrotar o candidato da extrema direita. E uma terceira coisa diferente é você transformar isso em participação no governo, porque aí você se compromete com a execução de um programa que não tem nada a ver com o nosso. Então, isso aconteceu em vários estados do país, de diferentes formas. O Rio Grande do Sul, por exemplo, é um estado onde nós, no segundo turno, sem que houvesse uma decisão formal do partido, indicamos o apoio ao Leite. Não chegamos a fazer parte do governo, mas a simples indicação de apoio já rendeu problemas para o partido, porque não se faz uma oposição correta. Aqui no Mato Grosso do Sul se deu um passo além, ou seja, o PT começou a participar do governo. É um erro. O correto é que o PT saia imediatamente do governo, até porque, como você disse, este governador adotou uma posição, uma questão-chave que o reassociou à extrema direita. Hoje, quem defende a anistia para os golpistas não pode ser considerado como um aliado democrático, sob nenhum aspecto. Duas mulheres da política sul-mato-grossense têm chances de serem candidatas à vice-presidência no ano que vem. Tereza Cristina pela extrema direita, seja com Ronaldo Caiado, Tarcísio ou qualquer nome inventado, e Simone Tebet, como possível vice do Lula. Embora seja um quadro considerado mais ao centro, a Simone também é ligada ao agronegócio. O seu marido, Eduardo Rocha, é secretário da Casa Civil, justamente do governo Riedel. E como você vê essa influência das elites agrárias do Mato Grosso do Sul, que perpassam todo o espectro político, sobre a política nacional e particularmente sobre o governo federal? Veja, a influência do agronegócio é uma marca da história do Brasil. Desde que o Brasil é Brasil, o latifúndio cumpre um papel muito importante na política brasileira e é o setor mais reacionário da classe dominante. Nesse período mais recente, houve uma expansão acentuada do agronegócio na região Centro-Oeste e na região Norte do país. E desses dois territórios vem uma base muito importante da oposição de extrema direita e de direita contra nós. Claro que existem diferenças dentro do agronegócio, diferenças políticas, mas elas não são estruturais. Essa é a primeira questão. A segunda questão é que tudo caminha, ano que vem, para uma aliança entre as duas alas da direita. No primeiro e/ou no segundo turno. Portanto, a gente corre um risco muito grande de que forças que nos apoiaram em 2022 passem a disputar contra nós no primeiro e no segundo turno na disputa presidencial. Essa influência do agronegócio é totalmente deletéria. O Brasil não pode continuar sendo uma subpotência primária exportadora. O agronegócio precisa ser derrotado e as suas expressões políticas também. É interessante que você destaque o fato de que são duas mulheres, ou seja, a direita brasileira está fazendo uma renovação e está dialogando com as tendências renovadoras que existem na sociedade. Muitos desses quadros da extrema direita e da direita no Congresso Nacional são
A luta dos trabalhadores: uma reflexão sobre a consciência de classe

Por Jean Celso (texto) e Norberto Liberator (edição e arte) Colaboraram Vitória Regina e Leopoldo Neto Jean Celso Jornalista, podcaster, entusiasta da TV e do Rádio. Interessado em futebol, política e cannabis, dedica-se à pauta antiproibicionista. Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Twitter Youtube Facebook Instagram
Badaró entrevista Leonardo Péricles, candidato à Presidência da República

Léo Péricles disputa as eleições presidenciais pela UP (Unidade Popular pelo Socialismo) Entrevista por Carolina de MendonçaArte por Marina DuarteColaboraram Guilherme Correia, Mylena Fraiha e Norberto Liberator 1929 foi um ano turbulento. Em meio à crise econômica mundial, as burguesias do mundo inteiro buscavam uma forma de barrar o “perigo vermelho”. A União Soviética era um dos únicos países a não ser atingidos pela quebra na Bolsa de Nova York, fato ressaltado por comunistas mundo afora. No Brasil, o Partido Comunista elegeu dois intendentes (vereadores) no Rio de Janeiro: Octávio Brandão e Minervino de Oliveira. O PCB seria colocado na ilegalidade no final daquele ano, assim como a propagação do comunismo. Um duro golpe, já que haveria eleição presidencial no ano seguinte. No entanto, havia uma brecha na lei: não era preciso se candidatar por um partido político, sendo possível disputar o pleito a partir de um movimento social ou outro tipo de agremiação. A solução dos comunistas foi formar o Bloco Operário Camponês (BOC) para entrar na disputa. Assim, Minervino de Oliveira se tornou o primeiro candidato negro e proletário a se candidatar à Presidência da República. O Brasil teve, anteriormente, um presidente negro. Era Nilo Peçanha, que, no entanto, não pertencia e nem defendia os interesses da classe trabalhadora. Minervino teve 0,008% dos votos, em um pleito marcado por fraudes e com votos em voz alta, que deu vitória a Júlio Prestes por 59,39%. Ganhou, mas não levou: em outubro, o derrotado Getúlio Vargas liderou o golpe de Estado que o levaria a ficar 15 anos no poder. Foi 70 anos depois, nas eleições de 1989, que o Brasil voltou a ter um candidato negro. Era José Alcides de Oliveira, conhecido como Marronzinho, do Partido Social Progressista (PSP). Marronzinho, no entanto, era um populista de direita que se destacou em 1985, ao dirigir o jornal A Voz, panfleto conservador que espalhou notícias falsas a respeito de Fernando Henrique Cardoso, então candidato de uma ampla aliança progressista a prefeito de São Paulo contra o direitista Jânio Quadros. Marronzinho chegou a desafiar FHC “pra porrada”. Em 2022, pela primeira vez, uma chapa formada apenas por negros concorre à Presidência da República. A Unidade Popular pelo Socialismo (UP) lançou Leonardo Péricles Vieira Roque, morador de ocupação, liderança do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB – não confundir com outra sigla). Sua vice é Samara Martins, uma mulher negra. A Badaró bateu um papo com o candidato durante evento em São Cristóvão, Sergipe. Confira: Para iniciar, gostaria que contasse sobre sua trajetória na luta política: como você chegou à UP e, agora, à candidatura a presidente da República? Eu completei 22 anos de militância este ano, em janeiro. E ao falar um pouco da militância, quero falar um pouco da minha vida. Sou morador de periferia, a minha vida toda; sou filho da Dona Lourdes e do Seu Chico, minha mãe dona de casa, meu pai pintor de automóveis, que sempre trabalharam muito para que eu pudesse minimamente estudar. Eu fui fazer um curso, quando tinha 16 anos, no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), por indicação do meu pai, que falou assim: “você precisa fazer um curso para ter uma profissão”. Aí fui lá e consegui passar na prova. Fui fazer o curso de mecânica de manutenção de máquinas e perdi meu pai quando eu estava com um mês de curso no Senai – mas morreu pelo menos feliz nessa parte. Eu me formei nesse curso de um ano e meio. Comecei a trabalhar na área, trabalhei algum tempo e juntei algum dinheiro, inclusive para fazer o curso de eletrônica que eu queria. E aí, fui fazer o curso de técnico em eletrônica numa escola particular que cobra mais barato à noite, uma escola filantrópica, porque não consegui passar na escola pública. E aí, fiz esse curso e não cheguei a trabalhar na área, trabalhei também com várias outras coisas. Antes e depois. Eu conheci o movimento estudantil pelo idos de 2000, quando eu fazia esse curso técnico, ingressei no movimento estudantil secundarista onde a gente lutou, principalmente pelo meio-passe dos estudantes no transporte público lá na minha cidade, que é Belo Horizonte, Minas Gerais. A gente chegou a conquistar o meio-passe alguns anos depois da luta. Então foi uma luta vitoriosa, o primeiro contato que eu tive com a questão do transporte público. Entendo que era preciso estatizar, lutava naquela época pela estatização do sistema de transporte, porque o transporte é um negócio muito sério para ficar na mão do setor privado. Foi um caos agora na pandemia. Em muitas cidades, as pessoas não têm ônibus direito, não têm transporte direito. Ou seja, o direito de ir e vir de milhões de pessoas tá sendo tomado. Então, foi ali meu primeiro contato com essa questão. E fui também do movimento estudantil universitário. No secundarista, ainda fui presidente da Associação Metropolitana de Estudantes, lá da região metropolitana de BH, passei pelo movimento universitário, fui presidente do D.A. (Diretório Acadêmico) da minha escola da Biblioteconomia, curso que não cheguei a concluir. Nesse período também me tornei diretor de universidades públicas da UNE (União Nacional dos Estudantes); depois, pelos idos de 2010, eu iniciei minha transição, a saída do movimento estudantil, e em 2011 eu fui ajudar na rearticulação no MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) em Minas Gerais. A nossa liderança principal tinha falecido em 2009, vítima de um câncer de mama, a companheira Eliana Silva – nome da ocupação que a gente fez, que é a que eu moro até hoje. Foi feita em abril de 2012, sofreu um despejo violento, foi rearticulada três meses depois. Foi despejada em maio, três meses depois fizemos outra e lá está. Completou 10 anos agora em agosto. Em 2013 eu fui uma das lideranças das jornadas de junho que aconteceram no Brasil, quando vários setores populares, setores de todas as classes também tomaram as ruas e ali ficou nítido que havia uma crise de representação política, que
Angola: uma tragédia com atuação brasileira

Em abril de 2002, chegava ao fim a Guerra Civil Angolana, conflito que teve participação do Brasil e das principais potências da Guerra Fria Por Norberto LiberatorColaboraram Mylena Fraiha e Guilherme Correia A ancestralidade e a guerra Gabriel Ambrósio nasceu e cresceu em meio aos anos de guerra. Natural da província do Zaire, é licenciado em Letras pela PUC Goiás, mestre em Estudos de Linguagens pela UFMS e autor do livro “Áfricas Ocultas”, no qual explora aspectos sócio-religiosos tradicionais africanos e como eles impactam a história do continente. Ambrósio conversou com a Badaró sobre o conflito em Angola, sua influência sobre a produção literária do país e seus efeitos nos dias atuais. O pesquisador explica que, durante a Guerra Anticolonial – travada contra Portugal e que se antecipou ao conflito civil –, a religiosidade e a ligação com a ancestralidade foram centrais para os movimentos de libertação. “Havia a crença de que as balas que vinham das tropas opostas às de Portugal não poderiam matar os nativos. As pessoas tinham fé na espiritualidade africana. De que a sua força ancestral os protegeria. E claro, houve contextos em que foram protegidos, nas guerras, principalmente no começo, onde eles não tinham armamento”. Para Ambrósio, a espiritualidade dos guerrilheiros angolanos os incentivou a travar sua luta, já que se encontravam em desvantagem em relação ao poderio militar. “Em Angola, começou com pedaço de pau, punhal e facões. Foram esses os instrumentos usados para começar a atacar os portugueses nas fazendas, principalmente no norte – Cassanje, Malanje, Mbongo”, explica. Ele também destaca o papel que os idiomas locais e os códigos de escrita tiveram na resistência ao colonialismo. “A língua portuguesa era fácil de ser decodificada. Hoje, nós temos alguns jovens que não têm nem um pouco de noção sobre as línguas africanas faladas em Angola, mas no passado antigo, combatentes tinham domínio de uma, duas, três, quatro ou mais línguas nativas. Do ponto de vista linguístico, tem pouco mais de 30 línguas em Angola”. Ambrósio explica que essas línguas costumavam ser utilizadas como forma de driblar o controle português, já que os colonizadores não as dominavam. “Me recordo que as forças tinham um código de escrita que usava oralidade, mas também uma escrita que não era oficial, ou seja, os termos eram codificados e isso circulava no centro da cidade – na capital, Luanda –, onde havia o governo geral de Angola e portugueses”. Gabriel afirma que os portugueses “não conseguiram decodificar como eram escritas e quais mensagens eram aquelas”. O professor lembra que essas passagens fazem parte da historiografia oficial do país. “Isso está registrado na história de Angola. Para ver como foram importantes as línguas africanas, a sua oralidade e a sua espiritualidade”. O pesquisador acredita que tais tradições têm se perdido e lamenta que, diante da globalização capitalista, o continente africano esteja atualmente entregue ao neoliberalismo e, politicamente, haja pouco espaço para a busca por uma identidade própria. “O que tem acontecido hoje, inclusive, pelos próprios países africanos, do ponto de vista geral e em particular em Angola, é a agenda ocidental. Não temos uma agenda que é africana, uma agenda que os países africanos seguem”, conclui. A outra guerra angolana: Cabinda Paralelamente à guerra civil que opôs o MPLA à Unita e à FNLA, uma região vivia um conflito separatista contra forças angolanas. Trata-se de Cabinda, província localizada entre os dois Congos – Congo Brazzaville e Congo Democrático –, fora do território de Angola. A região convive ainda hoje com movimentos armados que lutam por independência. O principal grupo é a Frente para Libertação do Enclave de Cabinda (Flec). Durante o ano de 2022, as Forças Armadas Cabindesas (FAC), braço armado da Flec, e as Forças Armadas Angolanas travaram algumas batalhas. No dia 11 de abril, houve confrontos nos povoados de Kisungo e Tando Masele, no município de Belize. Angola vai às urnas em agosto e os independentistas pedem à população que boicotem o pleito. Gabriel Ambrósio aponta que as FAC já existiam e tinham força nos anos 70 do século XX. “Os cabindas desde os anos anteriores a 1975, quando se decretou independência, já tinham praticamente um exército. Esse exército, até hoje, ainda existe. Têm havido algumas integrações, mas não são suficientes para agradar a todos”, afirma. “Cabinda não teve paz do ponto de vista do calar das armas”. O professor acredita que, embora ainda haja a crença em libertação por parte de alguns militantes separatistas, o que mais influencia os grupos por independência é o desejo por autonomia econômica. “Existem aqueles que são mais presentes, não querem desvincular de suas ideias, mas também a questão territorial e principalmente do ponto de vista econômico. Cabinda é uma região econômica muito forte. Lá tem muita riqueza. Petróleo e madeira”. Caminhos e descaminhos do MPLA O MPLA abandonou sua orientação marxista em 1990, durante a profunda crise econômica e política nos países do Leste Europeu, então socialistas e governados por partidos teoricamente marxistas. A decisão foi tomada durante o congresso do partido naquele ano (VIDAL, 2016). Definiu-se, então, que Angola adotaria um sistema “multipartidarista” na política e “de mercado” na economia. No ano seguinte, a já desintegrada União Soviética deixaria de existir. Gabriel Ambrósio destaca o papel central do partido no aparelhamento das instituições. “Quando a gente fala da política de Angola, a gente está falando exatamente do MPLA, já que o partido está no poder desde a independência do país”. Para ele, quando o MPLA ainda exalta a simbologia e o discurso marxistas, “trata-se de um marxismo falacioso, porque ele não se dá na prática. Alguns jornalistas que acompanho, de anos anteriores e, especificamente, de jornais privados, diziam que o MPLA havia traído a si próprio”. José Eduardo dos Santos permaneceu no poder até 2017. Foram 38 anos de governo. “Zé Du” foi acusado de enriquecer a partir da corrupção e às custas dos baixos indicadores sociais da população. Sua filha, Isabel dos Santos, chegou a ser considerada, pela revista estadunidense Forbes, a mulher mais rica da África
