No que crê um seguidor de Lúcifer, Satanás ou Belzebu

Esqueça os clichês sobre rituais macabros e sacrifícios de virgens: conversamos com membros de religiões ocultistas e, de perto, o Diabo pode não ser tão feio quanto parece Por Norberto Liberator “Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez”. A Igreja do Diabo – Machado de Assis No centro do altar, está a cabeça recém degolada de um bode, enquanto o sangue do animal é dividido entre os fiéis, que o espalham por seus mantos vermelhos. Os rostos, sempre abaixados, são dificilmente reconhecidos sob os capuzes que os cobrem. No centro do salão, uma virgem se encontra nua e amarrada pelos pés e pelas mãos, com os membros esticados para se encaixar na forma do enorme pentagrama sob seu corpo. A cena parece ficção – e realmente é. Na realidade, religiões que reivindicam ou cultuam entidades como Lúcifer, Satanás e Belzebu estão bem longe dos estereótipos hollywoodianos. Há diversas tradições que se encaixam no termo “ocultismo” e que possuem, em tais crenças, a base de suas filosofias. A reportagem da Badaró conversou com alguns seguidores, para conhecer um pouco melhor as diferenças entre elas, o que pensam, e para quebrar alguns preconceitos contra tais religiões. Longe do imaginário cristão de sacrifícios de virgens ou de crianças e levando vidas comuns, representantes da Quimbanda e da Igreja de Satã conversaram conosco. De matriz africana, a Quimbanda é uma religião sincrética, assim como a Umbanda. No entanto, diferentemente desta, dedica-se ao trabalho junto a entidades que, na cosmologia umbandista, manipulam forças malignas. Sendo assim, Quimbanda e Umbanda possuem diferenças em seus preceitos fundamentais. Isso não significa que a Quimbanda seja uma “versão maligna” da Umbanda. Os conceitos de “bem e mal” presentes em religiões abraâmicas (como Cristianismo, Judaísmo e Islamismo) são mais relativos em cultos afro-brasileiros. De berço ocidental, a Igreja de Satã (ou Satanismo Moderno) foi fundada por Anton Szandor LaVey, o “papa das trevas”, em 1966. Mais filosófica do que propriamente religiosa, seus seguidores pregam a valorização dos instintos humanos, em oposição ao comportamento estoico – como a resistência à “tentação” e a busca pela rigidez moral – que é valorizado pelas religiões de matriz abraâmica. Em oposição ao estoicismo judaico-cristão, LaVey pregava o hedonismo, ou seja, a busca pelos prazeres individuais e pela satisfação dos desejos da carne. O culto aos espíritos dos poderosos mortos Luciano Carregã, sacerdote do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra, é um dos quatro principais representantes da chamada Corrente 49, uma das diversas ramificações da quimbanda. Ele explica que a Corrente 49 “é basicamente estruturada no culto aos Espíritos dos Poderosos Mortos, Exus e Pombagiras”. Carregã também afirma que os preceitos mais importantes da filosofia que segue são relacionados à “não aceitação do que nos é imposto através das estruturas seculares morais, sociais e religiosas de matiz cristão conservador”. Luciano é também proprietário da Editora Via Sestra, especializada em magia e ocultismo, sobretudo em tradições ligadas ao “Caminho da Mão Esquerda”, ou seja, cujos preceitos são centrados no indivíduo e na quebra de tabus sociais, muitas vezes relacionados ao que é chamado, no senso comum ocidental, de “magia negra”. Ele explica um pouco sobre o que tem sido feito para diminuir o preconceito da sociedade em relação à quimbanda e ao ocultismo em geral. “Nós temos trabalhado em frentes distintas para tentar reduzir a mistificação que se faz sobre a Quimbanda, em doses homeopáticas”. Carregã afirma que ele e outros representantes costumam “responder entrevistas, participar de podcasts” e que, recentemente, têm retomado publicações regulares da Corrente 49, através de sua página no Facebook. “Também devemos citar os livros do Danilo Coppini sobre Quimbanda, que juntos somam mais de 1000 páginas sobre o tema. Publicações que merecem leitura, estudo e comparação”, conclui. Outra variação da mesma religião, a Quimbanda Xambá nasceu entre os anos de 1950 e 1960, do cruzamento entre a Quimbanda Nagô e a Magia Universal – sistema de magia de evocação a anjos, demônios e outras divindades. O historiador Thomaz Herler, adepto desta linha, afirma que os trabalhos se dão sobretudo com exus, que “ocupavam o lugar de marginalizados em nossa sociedade, tendo sido prostitutas, menores infratores, assassinos, bandidos, malandros, trabalhadores livres pobres, entre outros arquétipos bem comuns à nossa realidade social”. Herler afirma que os exus, de acordo com a Quimbanda Xambá, estão subordinados a entidades maiores, responsáveis tanto pelo bem quanto pelo mal. “Concebemos que, em nossa Quimbanda, tais entidades estão sob a regência das divindades Belzebu e Lúcifer, sendo as mesmas chamadas de ‘Maiorais’ por nós”. A concepção dos quimbandistas a respeito das entidades citadas é bastante diferente da que costuma ser abordada pelo Cristianismo. Luciano Carregã explica que “Lúcifer, Beelzebuth e Maioral são palavras associadas a divindades, espíritos e conceitos que se permeiam, se completam e podem se confundir facilmente dentro da Quimbanda”. Segundo ele, “Lúcifer é um título que significa ‘o Portador da Luz’ e que esteve associado a diversas divindades antigas, especialmente nos mitos gregos e romanos relacionados às estrelas matutinas e vespertinas, como em Héspero e Eósforo”. Para Luciano, “parte considerável do conteúdo de nosso inconsciente coletivo se deve ainda à literatura clássica que retratou a ‘figura diabólica’ em tempos mais antigos em tomos como o Paraíso Perdido, de John Milton; a Divina Comédia, de Dante Alighieri; nas lendas germânicas dos pactos diabólicos, como retratado no Fausto, de Goethe”. De acordo com o sacerdote, os “portadores da Luz” são vários. “Lúcifer e Beelzebuth são também os títulos de duas legiões de espíritos muito importantes para a Quimbanda”. Carregã acredita que, em grande parte,
