Os primeiros de gerações cerceadas

A influência de grupos evangélicos na política local
Glória holandesa ameaça hegemonia de Hamilton dentro e fora da F1?

Título de Verstappen na última temporada destronou britânico na badalada categoria do automobilismo mundial; Hamilton é o maior vencedor da competição e principal piloto do torneio Por Alison Silva Arte por Guilherme Correia Campeão da Fórmula 1 há pouco mais de um mês, o holandês Max Verstappen tem o objetivo de estender seu período de glórias na categoria em 2022, fator que poderia ser mais tranquilo, não fosse a hegemonia de Lewis Hamilton, principal piloto da categoria, dono de sete títulos mundiais da competição. O britânico é um símbolo conhecido mundialmente, não apenas pelo sucesso desportivo. Dentro do grid, seus feitos são indiscutíveis, já que se tornou o maior campeão do esporte – tem o mesmo número de títulos que o alemão Michael Schumacher, este que se aposentou após acidente de carro, em 2013, que abreviou sua vitoriosa carreira – além de ter ganhado mais corridas e chegado mais vezes ao pódio. Hamilton, único piloto negro da F1, esporte profundamente ligado às raízes da elite branca, é engajado publicamente em movimentos antirracistas e já foi criticado por ex-pilotos e uma série de figuras, que nas redes sociais, bradaram com a vitória de Verstappen na última temporada, não apenas pela competição, em si, como também por fatores sociais. Em 141 GPs desde sua estreia como titular da Toro Rosso, atual Alpha Tauri, em 2015, Verstappen venceu 20 corridas e subiu ao pódio em 60 oportunidades com percentuais de 14,18% nas vitórias e 42,55 por cento em pódios. Em período de mesma duração, o desempenho de Lewis Hamilton é ligeiramente melhor do que o apresentado por Verstappen. Em suas 141 iniciais, Hamilton venceu 27 vezes e subiu ao pódio em 63 ocasiões, com desempenho percentual de 19,14% nas vitórias e 44,68 por cento em pódios. A título de comparação, Hamilton subiu ao pódio três vezes mais que Verstappen, bem como ganhou sete corridas a mais. No entanto, o holandês protagonizou um dos mundiais mais empolgantes da categoria neste século, ao derrotar o heptacampeão mundial na última volta, do último Grande Prêmio de 2021. O enredo e o roteiro do último certame elevaram a conquista do piloto da Red Bull Racing Honda a uma das mais emocionantes de todos os tempos. Piloto da categoria há nove temporadas, Verstappen chegou à 22ª e última corrida do ano empatado em pontos com Hamilton, ambos com 369.5. A última vez em que um mundial de pilotos foi acirrado desta maneira foi em 2008, ano do primeiro título de Hamilton – pela McLaren-, período em que o britânico superou o brasileiro Felipe Massa por apenas um ponto (98-97), em circunstâncias semelhantes às do último fim de semana. A conquista de Verstappen freou a possibilidade de Hamilton se isolar como o maior campeão da categoria. Para além do campeonato de 2008, Lewis foi bicampeão consecutivo em 2014 e 2015, e tetracampeão seguidamente em (2017/ 2018/ 2019 e 2020), feitos que o igualaram a Schumacher como maior campeão, com sete títulos ganhos. O caneco, primeiro de Verstappen, torna o holandês o quarto piloto mais jovem a levantar um mundial. Com 24 anos, dois meses e 12 dias, o neerlandês só fica atrás do espanhol e duas vezes campeão (05 e 06) Fernando Alonso, do próprio Lewis Hamilton, além de Sebastian Vettel, vencedor em quatro oportunidades (de 2010 a 2013). Destronamento de Hamilton Igualados em pontos, Verstappen e Hamilton chegaram à derradeira corrida da temporada, disputada em Abu Dhabi, cientes de que precisavam superar um ao outro para conquistarem o torneio. Verstappen viu a vantagem que conquistou na corrida anterior, de largar à frente e escapar logo no início da corrida. Experiente, Hamilton assumiu a dianteira da prova – e do campeonato, logo na primeira curva do circuito de Yas Marina. A ultrapassagem – fora dos planos da RBR, dificultou a corrida para Verstappen. De pneu macio, mais rápido, contudo, mais frágil que o conjunto médio usado por Hamilton, o holandês viu sua vantagem escapar, ao passo em que seus pneus se desgastaram e o sonho do primeiro título mundial lhe fugia das mãos. Com pneus mais desgastados, e forçado pelas circunstâncias a trocar o composto de pneus antes de Hamilton, Verstappen viu o britânico abrir quase 10 segundos de vantagem na liderança. As esperanças do titular da RBR se renovaram quando o mexicano, e companheiro de equipe, Sergio Pérez – então segundo colocado, assumiu a ponta da corrida após ida de Hamilton aos boxes. Com uma parada a menos, Pérez recebeu da equipe a missão de segurar Hamilton na segunda posição, para que seu companheiro e postulante ao título, pudesse se aproximar de Lewis. Missão cumprida. Em duas voltas, Pérez reduziu a vantagem de Hamilton para Verstappen em 6.5 segundos, recolocando o holandês na prova e consequentemente e volta na briga pelo título mundial. Com pneus renovados, assim como o rival, Verstappen manteve perseguição ao britânico, contudo, não conseguia acompanhar o ritmo de corrida de Hamilton. Lewis se distanciava novamente do holandês. Com quase doze segundos de vantagem e com Verstappen tendo que tirar quase 01 segundo por volta já no terço final da corrida, o octacampeonato de Hamilton parecia questão de tempo, e o fim da corrida quase “protocolar” para aqueles que assistiam o evento. A colisão do piloto da Williams, Nicholas Latifi, contra o guard rail nos instantes finais da corrida, provocou o uso do safety car na pista, fator que reduziu a distância entre os dois pilotos. Além da aproximação, Verstappen retornou aos boxes e colocou pneus macios para tentar um último ataque a Hamilton. Sem parar, Lewis seguiu na ponta com pneus desgastados e arriscou-se no fim. Com a pista limpa, há uma volta do término do mundial, Verstappen ultrapassou Hamilton para não perder mais e se tornar o primeiro holandês a conquistar o mundial de Fórmula 1.
A “lacração” no divã: saúde mental e política de cancelamento no BBB21

“Cancelamento” não só é a palavra do momento, mas uma versão deturpada da ação política ou do que já foi um dia considerado atitude Por Tainá Jara O reality show Big Brother Brasil 21 tem dominado as timelines e trending topics do Twitter nos últimos dias. O programa, que desde 2002 mostra-se como um clássico da cultura de massa televisiva brasileira, propõe-se como uma forma de entretenimento e distração para a classe média. Entretanto, nesta edição a “distração” não está tão leve assim. Cancelamento não só é a palavra do momento, mas uma versão deturpada da ação política ou do que já foi um dia considerado atitude. O companheiro próximo da “lacração”, dá potência a vários temas, no entanto perde sentido quando não vem acompanhada de espaço para diálogo e debate. O ato de “cancelar” tornou-se o enredo do programa. Fiuk, Lumena, Lucas Penteado, Julliette, Karol Conká e Projota estão entre alguns dos que protagonizaram atos de cancelamento em pouco mais de 10 dias de confinamento. No BBB com mais participantes negros em 21 edições, é natural que dois deles estejam no centro das polêmicas. A formatação inédita não impede, no entanto, que complexos problemas sociais sejam trazidos na bagagem. Pelo contrário, há mais e novos elementos para problematizações. Fala-se em militância para caracterizar os debates e a própria representação social de Lucas Penteado e Karol Conká. Aqui, vamos considerar tanto militância como ativismo como formas de transformação social. A primeira, mais estruturada, ocorre geralmente dentro de organizações constituídas, como partidos e movimentos sociais organizados. Muitas vezes, exigem pragmatismo e estão amarradas a questões burocráticas, demandando mais tempo para resultar em ações concretas, porém, mais sólidas a longo prazo. A segunda carrega a fluidez característica das gerações conectadas. A difusão que permite a adesão a uma causa por um clique, no entanto, é a mesma que a torna vulnerável, fácil de ser apropriada e utilizada, muitas vezes, como mero artifício em favor do consumo, mas não menos importante num processo urgente de romper com preconceitos. O movimento “Black Lives Matter”, que tomou as ruas no ano passado em várias partes do mundo, está aí para comprovar. Considerando o ano em que as questões raciais estiveram no centro das discussões, a Globo optou por trazer negros mais ligados a uma representação estética sustentada pelo discurso de combate às opressões, portanto, mais ativistas do que militantes. Talvez a familiaridade com questões sociais tenha desviado minha atenção para algo sensível de ordem aparentemente subjetiva. A abordagem de temas imprescindíveis, mesmo que de forma contraditória, me leva recorrentemente para outro produto da “alienante” indústria cultural. Em um dos episódios da série americana “She’s Gotta Have It” (Ela Quer Tudo), dirigida por Spike Lee, a partir do enredo do seu primeiro filme, de mesmo nome, a personagem principal, a artista plástica negra, Nola Darling, enfrenta problemas de várias ordens, profissionais, amorosas e, inevitavelmente, sociais, quando uma amiga, também negra, a sugere procurar auxílio terapêutico. Resistente, Nola só se convence quando a garantia é de que a psicóloga em questão se trata de uma mulher negra, assim como ela. A lembrança me vinha a cada cena de abuso, exclusão, punitivismo e incompreensão transmitidas pelo programa e, lamentavelmente, não se trata de uma ficção. Talvez seria mais simples se a questão da saúde mental de populações oprimidas carecesse apenas de identificação com um terapeuta. Arrogância, toxicidade, preconceito e problemas relacionados à saúde mental não são exclusividade de nenhum ser humano. Mas, podem ser agravados por problemas sociais, cuja população negra no Brasil vive de forma mais acentuada. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 54% da populaçãoé formada por negros. São eles que compõem as camadas mais pobres, afetadas por falta de moradia, dificuldade de acesso à educação, à cultura e um contexto de violência agravado pelo racismo estrutural. Fatores sociais podem funcionar como acentuadores e causadores de problemas psicológicos, como a depressão. Os maiores índices de suicídio, por exemplo, têm raça e idade. De acordo com dados de pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde, em 2019, jovens negros, entre 10 e 29 anos estão entre os que mais tiram a própria vida no Brasil, nos últimos quatro anos. Jovens como Lucas, o mais atacado pelos membros da casa, se encaixam neste perfil. É necessário cuidado ao associar temas como saúde mental e desigualdade sociais. Não podemos resumir o debate a uma questão meramente arrogante e impositiva. Como se terapia funcionasse como cantinho da disciplina. Como bem lembra a série americana, a própria psicologia procura mudar para abarcar os problemas que batem a porta, como o racismo. Apesar do clima pesado, o BBB permite tal reflexão. É interessante fazermos uma breve revisão de como o debate racial tem sido tratado ao longo de algumas edições do programa para entender em que pé estamos. A edição mais negra da história surpreende com posturas intolerantes, abusivas e angústias se expressando das mais diversas formas. Talvez não seja a melhor versão de representação de negritude brasileira, e talvez de ninguém, mas é necessário pensar que se analisamos as pessoas por uma ótica rígida, em que a cobrança por coerência parece ser duplamente maior, estejamos mais uma vez desumanizando quem já passa por isso há séculos. Lembrando que estamos refletindo sobre um programa que em 2018 premiou Paula von Sperling Viana. A participante, além de ser indiciada por intolerância religiosa durante o programa, ficou marcada por proferir frases de cunho racista em tom considerado “espontâneo”. Além de levar R$ 1,5 milhão, teve suas atitudes relativizadas na final pelo apresentador do programa. Parece que a narrativa da superação ainda continua sendo a preferida do público para premiar negros. No ano passado, a médica Thelma Assis venceu o programa com o histórico nesta linha. Na mesma edição, o ator Babu Santana conquistou um público fiel, mas dentro da casa foi altamente criticado pela postura considerada “ranzinza”. Ele acabou eliminado. Coincidentemente, ele revelou que entrou na casa durante um processo depressivo, já que estava há muito tempo sem oportunidade de trabalho. Isto
Covardia avança, resistência contra-ataca
De Paris a Caldas Novas, enfrentamento a casos de racismo no futebol mostra que conivência histórica começa a desmoronar Por Mateus Moreira, Gabriel Neri e Norberto LiberatorArte por Fábio Faria As competições futebolísticas, de maneira geral, foram por diversas vezes palco de preconceitos raciais. Em sua grande maioria, os insultos racistas partiam de torcedores, ou de jogadores de uma das equipes. No entanto, no decorrer de dezembro, a situação, que já era repugnante e inaceitável, ficou ainda pior. No início do mês, o racismo foi manifestado por um membro da arbitragem, ou seja, de uma autoridade em campo que supostamente zelaria pelo regulamento e pelos valores da federação à qual serve; e, mais recentemente, os insultos foram contra uma criança. Na última quarta-feira (16), o alvo de agressões verbais racistas foi um garoto de apenas 11 anos. O menino Luiz Eduardo, que atua no time sub-11 do Uberlândia Academy, relatou ter sido por diversas vezes referido como “o preto” pelo treinador da equipe Set Esporte, Lázaro Caiana, durante um jogo válido pela Caldas Cup, em Caldas Novas, interior de Goiás. Mesmo com seu time tendo ganhado a partida, Luiz deixou o campo chorando. Perguntado sobre o motivo, deu a resposta gravada em vídeo que viralizou nas redes sociais. O garoto prestou depoimento na sexta-feira (18) e um boletim de ocorrência foi registrado. Caiana foi afastado do clube. Luiz recebeu apoio de atletas como Gabriel Jesus, Hugo Souza, o salonista Arthur Guilherme e Neymar, que esteve presente na partida em que a manifestação racista de um árbitro provocou a retirada de ambas as equipes de campo. No caso da partida do dia 8, o romeno Sebastien Coltescu foi o personagem central do lamentável episódio, no jogo entre Paris Saint-German (PSG) e Istanbul Basaksehir, deixando de lado as questões futebolísticas, como o aguardado brilhantismo de Neymar e a despedida do clube turco da temporada na UEFA Champions League. O quarto árbitro proferiu insultos racistas ao ex-jogador camaronês e membro da comissão técnica, Pierre Webó, que afirmou em entrevista à Rádio Onda Cero que Coltescu teria dito “retire esse negro” ao árbitro da partida. O caso Coltescu evidencia uma conduta hipócrita: UEFA, responsável por aquela que é considerada a maior competição de clubes do mundo, adota constantemente discursos contra o racismo, acrescentando faixas na entrada dos jogadores, dizeres nos uniformes, dentre outros. Mas como uma instituição que supostamente luta contra preconceitos raciais permite que uma autoridade de campo, teoricamente capacitada, se intitule no direito de se referir a um membro de comissão técnica, proferindo tais palavras? Na teoria, uma entidade com tais posturas diante de câmeras e patrocínios, teria como dever realizar, internamente, um treinamento básico envolvendo suas consideradas ‘’autoridades de campo’’, visando a conscientização e reeducação de seus profissionais, mesmo tendo em vista que o ocorrido poderia ter sido evitado pelo simples ‘’bom senso’’. O futebol, finalmente, vence o racismo Por diversas vezes, quando futebol e racismo se encontraram, as acusações da vítima foram colocadas abaixo do esporte. Em diversos casos, jogadores, vítimas de insultos, eram expulsos de campo por suas reações, para que as partidas fossem normalmente retomadas. Por outras vezes, jogadores que sofreram insultos racistas tentaram se retirar de campo, mas não tiveram apoio e foram convencidos a seguir na partida. Entretanto, na noite em Paris, o Parc de Prince foi palco de uma revolta histórica. Ao perceberem o ocorrido, jogadores do PSG também saíram em defesa da vítima. Neymar, o capitão Marquinhos e a jovem promessa francesa Kylian Mbappé, foram os primeiros a cobrar um posicionamento da arbitragem. Os parisienses, inclusive, se recusaram a retomar a partida enquanto o quarto árbitro estivesse em campo. ‘’Não vamos jogar com esse cara aqui’’, disse Neymar que foi complementado por Mbappé: “Se esse cara não sair, nós não jogamos”. Pierre Webó também revelou ter recebido apoio, novamente, de jogadores do PSG, mas desta vez, fora de campo. ‘’ Leonardo (diretor do PSG), Mbappé e Neymar me encontraram depois no vestiário’’, afirmou. Percebendo a proporção da situação, a equipe do Istanbul Basaksehir se retirou de campo, acompanhada dos jogadores do PSG. A partida ficou suspensa, até que a UEFA enviou uma ordem para que a partida fosse retomada. Os parisienses até voltaram ao túnel de acesso, mas os jogadores do Istanbul sequer saíram do vestiário e a partida foi oficialmente adiada para quarta-feira (09). Até o momento da paralisação, a partida estava paralisada em 0 a 0, até que o atacante Demba Ba marcou um golaço. O senegalês se dirigiu ao quarto árbitro e o questionou: “Você nunca diz: ‘este cara branco’, você diz ‘este cara’. Então me ouça, por que quando você menciona um cara negro você diz ‘este cara negro?” Fora dos gramados, outra vitória: o Conselho Anti-Discriminação Romeno, reconheceu a acusação feita ao quarto árbitro. “É racismo sem possibilidade de interpretação. Ele poderia ter identificado o jogador por tantos outros detalhes e ignorar sua cor”. Quando retomada, no dia seguinte, a partida contou com outro grande gesto diante da execução do hino da UEFA: jogadores e equipe de arbitragem – que foi completamente modificada – se colocaram de joelhos e cerraram os punhos em forma de protesto. O 5 a 1 do Paris Saint-Germain, que contou com hat-trick de Neymar e doblete de Mbappé, foi apenas um complemento da noite em Paris. O clima pesado que possuiu o mundo do futebol e adentrou o Parc de Prince, após o lamentável episódio de injúria racial, deu lugar à ‘’pequenos’’ gestos, que no meio esportivo fazem grande diferença, diante de seu reflexo na sociedade. Pouco mais de uma semana após o ocorrido, juridicamente o caso ainda não teve um desfecho. Punições ainda não foram aplicadas ao quarto árbitro da partida, Sebastien Coltescu, e o escândalo parece cair no esquecimento. A expectativa é que tudo se resolva da forma mais justa possível, mas a atitude de se retirar de campo, assim como o B.O. e o afastamento de Caiana do time de base em que era técnico, simboliza algo que já deveria
Questão de raça: o negro no cinema brasileiro
Por Igor Nolasco Colaboraram Leopoldo Neto e Norberto Liberatôr Zózimo Bulbul (1937–2013), ator e cineasta, foi (e segue sendo) um dos mais celebrados avatares da representatividade negra no cinema brasileiro. Além da realização de obras magistrais à frente ou por trás das câmeras, Bulbul é responsável pela fundação do Centro AfroCarioca de Cinema, que organiza cursos, palestras e mostras audiovisuais voltadas para um cinema que discuta ativamente a questão racial brasileira e internacional. Enquanto diretor, seus principais trabalho são o curta “Alma no Olho” (1973) – pensado, filmado e montado de maneira experimental e trabalhado em cima da música e da obra de John Coltrane – e o longa “Abolição” (1988), documentário com quase três horas de duração que escova a história do Brasil a contrapelo, discutindo-a a partir da perspectiva racial e tendo como pretexto para tal a data dos 100 anos da abolição oficial da escravatura no país. Dentre os papéis de maior destaque em sua filmografia como ator está o de protagonista em “Compasso de Espera” (1973), de Antunes Filho, um dos mais célebres diretores do teatro brasileiro. O longa estrelado por Bulbul foi único filme que realizou. Tendo trabalhado majoritariamente com teatro ao longo de sua carreira, a contribuição de Antunes Filho, um cineasta branco, para o cinema brasileiro é um filme completamente focado na discussão sobre raça nos estratos sociais mais abastados do país. E é uma obra recorrentemente deixada de fora das retrospectivas oficiais de nossa cinematografia. Cineastas de um só trabalho já foram consagrados no cânone fílmico nacional, sendo o exemplo mais óbvio disso a elevação de Mário Peixoto, realizador do lendário “Limite” (1931), ao status de mito. Status este, aliás, que lhe foi conferido em vida. Para todos os efeitos, Antunes Filho não teve a mesma sorte, ao menos no cinema. Seu longa é pouco comentado, pouco discutido e raramente abordado mesmo dentro da comunidade acadêmica, o que pode alimentar reflexões, visto que toca em assuntos que até então eram raros em nossa cinematografia, e de forma praticamente inexistente. Até os anos de 1960, a questão do negro no cinema brasileiro estava dando seus primeiros passos. Grande Otelo já havia sido uma grande estrela nas chanchadas, contudo, não raros eram os papéis que o reduziam a estereótipos. Um dos exemplos mais gritantes pode ser visto em “Onde Estás, Felicidade?” (1939), dirigido por Mesquitinha. Em sua biografia de Grande Otelo, Sérgio Cabral colhe o depoimento de Alice Gonzaga (filha de Adhemar Gonzaga, que por sua vez era fundador da Cinédia – estúdio que realizou o filme em questão): “[No filme,] ele é um moleque espantado, preguiçoso, que vai pedir uma terrina emprestada à [personagem de] Luísa Nazaré, que acaba de arrumar um prato de rabanadas ‘lindas e doiradas como o sol nascente’. Quando esta se vira, Otelo não resiste à gula e rouba as rabanadas, colocando-as inteiras na boca. [A personagem de] Nilza Magrassi, vendo Grande Otelo com a boca cheia, pergunta se ele está com dor de dente. […] Na sequência, Otelo é visto como um moleque infantilizado, a carapinha arrepiada, trajando fraldas, como um bebê gigante – e se comportando como tal. Tony Tornado, ator negro como Otelo, mencionou em algumas ocasiões ter recebido do colega o conselho de que, para os profissionais retintos na dramaturgia, “não tem papel pequeno” – antes de alcançar o estrelato com “Moleque Tião” (1943), Otelo só aparecia no cinema em papéis considerados pequenos. Em seu período áureo na chanchada, o ícone do humor brasileiro só estrelava filmes se formasse uma dupla com outro ator (frequentemente Oscarito, ocasionalmente Ronald Golias ou Ankito), ou era jogado para escanteio como coadjuvante. Depois disso, suas participações no cinema se tornaram esporádicas – apenas cineastas como Rogério Sganzerla e Julio Bressane souberam aproveitar sua genialidade em filmes posteriores – e em poucas oportunidades Otelo pode deixar a comédia de lado e explorar seus dons dramáticos, as mais notórias sendo o clássico “Rio, Zona Norte” (1957) e o tristemente pouco comentado “Também Somos Irmãos” (1949). Ademais, outros atores com enorme aptidão dramática, como Ruth de Souza, eram relegados a papéis de menor expressão – Em “Sinhá Moça” (1953), um dos mais conhecidos longas da efêmera produtora Vera Cruz, Souza é relegada ao papel de uma escrava, em uma trama que deixa a escravidão de pano de fundo para dar protagonismo às desventuras amorosas e sociais de personagens brancos – que, no fim das contas, salvam o dia, de forma benevolente, para os escravos. Em 1963, 24 anos após Grande Otelo aparecer de fraldas com a boca entupida de rabanadas em “Onde Estás, Felicidade?”, Carlos Diegues lança “Ganga Zumba”, cinebiografia do guerreiro que fundou o Quilombo dos Palmares. É considerado um dos primeiros filmes brasileiros com um elenco majoritariamente negro, e Diegues voltaria à questão racial em “Xica da Silva” (1976) e “Quilombo” (1984). Protagonizado por um elenco principal completamente negro, algo revolucionário à época no cinema ocidental como um todo, o longa contava com a presença de atores que marcariam a cinematografia do país, como Antônio Pitanga, Waldir Onofre e Zózimo Bulbul. Em 1969, o mesmo Pitanga interpretaria um playboy casanova arrogante no clássico do Cinema de Invenção “A Mulher de Todos”, de Rogério Sganzerla, sendo esta uma das primeiras representações no nosso cinema do homem negro enquanto uma pessoa de status social elevado no meio urbano – algo que viria a ser tema de algumas outras produções nos anos seguintes. Uma delas é outro longa que tornou-se praticamente esquecido na cinematografia nacional. Trata-se de um filme curioso de Carlos Alberto Prates Correia, chamado “Crioulo Doido” (1971) – como no samba. Apesar do título que hoje soa anacrônico, trata-se de uma produção surpreendentemente progressista, que conta a história de um alfaiate (interpretado brilhantemente por Jorge Coutinho) em uma pequena comunidade interiorana em Minas Gerais que começa a ascender socialmente e logo torna-se objeto de interesse de pessoas brancas que até então o tratavam com desprezo e racismo, o que inclui uma moça que o seduz e desposa –
