Existe psicanálise fora dos consultórios clínicos?

Prática é historicamente associada a um trabalho individual e privativo, restrito ao ambiente clínico e à singularidade extrema do sujeito Por Maria Fernanda Figueiró Ao longo de seu desenvolvimento, a psicanálise fomentou diversas reflexões sobre cultura, antropologia, filosofia e outros campos do pensamento. Historicamente, sua prática foi associada a um trabalho individual e privativo, restrito ao ambiente clínico e à singularidade extrema do sujeito. Essa concepção foi reiterada ao longo dos anos, especialmente devido à maneira como alguns de seus representantes a exerceram, promovendo o que Onocko-Campos (2014) denomina o “mito da pura interioridade”, como se o sujeito do inconsciente pudesse se desenvolver em uma cápsula hermeticamente isolada de seu meio cultural e social. Freud (2010) afirma que a estrutura psíquica do sujeito é produto da cultura. Anos antes, em seu célebre discurso proferido no Quinto Congresso Psicanalítico Internacional, em Budapeste, em 1918, destacou que todas as pessoas, ricas ou pobres, deveriam ter direito à psicanálise, ressaltando a necessidade de sua gratuidade. Além disso, alertou sobre a importância de adaptar a técnica às novas condições que surgiram, demonstrando preocupação com a integralidade do cuidado: “é possível que só consigamos realizar algo se pudermos juntar auxílio psíquico e apoio material” (Freud, 2010, p. 292). Freud compreendia que a inserção da psicanálise no campo social era indispensável para sua sobrevivência, o que levou ao desenvolvimento de diferentes dispositivos clínicos em territórios diversos e instituições, buscando integrá-la ao tecido social. Afinal, “o sujeito fala onde quer que haja uma escuta, seja ela no divã, na instituição, nas ruas ou embaixo de uma ponte, na mais pura tradição freudiana inaugurada em 1918” (Danto, 2019, p. 18). A psicanálise está presente em múltiplos espaços: no atendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS), na educação, no sistema judiciário, na promoção e garantia dos direitos humanos, na escuta de adolescentes em conflito com a lei, no atendimento à população em situação de rua — seja nas próprias ruas ou em instituições —, em clínicas gratuitas ao ar livre, na saúde mental e na luta antimanicomial. Em suma, está inserida em todos os setores sociais que, no Brasil, se encontram no centro dos desafios contemporâneos (Dolto, 2019, p. 17). Após a Primeira Guerra Mundial e seus impactos, Freud passou a desenvolver estudos teóricos voltados ao campo social e às instituições (Furtado, 2022). Em 1920, foi inaugurada, em Viena, a primeira Policlínica Psicanalítica, que oferecia atendimento gratuito à população. No entanto, seu funcionamento foi interrompido pelo regime nazista, que decretou que as instituições médicas deveriam ser compostas exclusivamente por membros da chamada “raça ariana”, sob a direção do Conselho Médico Alemão (Danto, 2019). O trabalho do psicanalista está ancorado no compromisso com a escuta do sujeito que fala. Assim, sua atuação não se limita ao contexto clínico tradicional, pois é possível encontrar “pistas operacionais e pontos de reflexão que façam emergir o testemunho de uma postura ético-política pela e na psicanálise” (Onocko-Campos, 2014, p. 14). A função da psicanálise é escutar o sujeito do inconsciente ou sujeito do desejo (Dias et al., 2017) dentro das políticas públicas de saúde, considerando que estas visam promover o bem-estar social e são estruturadas por um processo político e coletivo, cujo objetivo é assegurar direitos de cidadania. Referências CAVALHEIRO, Ana Caroline; FERRARI, Luíza Bernardini. A atuação do psicólogo nas políticas públicas de assistência social: uma perspectiva psicanalítica. Research, Society and Development, v. 12, n. 12, e85121244047, 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i12.44047. DANTO, Elizabeth Ann. As clínicas de Freud: Psicanálise e justiça social (Estudos). São Paulo: Editora Perspectiva, 2020. DIAS, T. B. M.; CHAVES, W. C.; NETO, F. K. Psicanálise e Assistência Social: O Sujeito entre a Demanda e o Desejo. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 238-258, 2017. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812017000100014&lng=pt&tlng=pt. FERNANDES, M. I. Cidadão, sujeito do inconsciente e políticas públicas. Revista Cultura no Divã – Relações contemporâneas entre psicanálise e cultura, v. 1, n. 11, 2018. Disponível em: https://www.culturanodiva.com/cidadao-sujeito-do-inconsciente-e-politicas-publicas/. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. MOREIRA, J. de O.; OLIVEIRA, N. A.; COSTA, E. A. Psicanálise e pesquisa científica: o pesquisador na posição de analisante. Tempo Psicanalítico, v. 50, n. 2, p. 119-142, 2018. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382018000200007. ONOCKO-CAMPOS, Rosana. Psicanálise e saúde coletiva: interfaces. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. RODRIGUES, S. W. D. M. et al. Psicanálise na Assistência Social em Fortaleza-CE: Um Estudo sobre as Medidas Socioeducativas. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 42, e231656, 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-3703003231656. Maria Fernanda Figueiró Psicóloga. Atua há mais de 16 anos na área da dança e atualmente é intérprete criadora das companhias de dança Cia do Mato e Ginga.
Patologizar para controlar: a transexualidade na história do DSM

Ao longo das décadas, medicina serviu como instrumento para reforçar a discriminação contra pessoas transexuais Por Vitória Regina O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), criado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), tornou-se um instrumento central dentro da prática psiquiátrica, classificando e rotulando experiências humanas em categorias diagnósticas. Mais do que uma ferramenta técnica, ele opera como um mecanismo de controle, ditando quem se encaixa nos moldes da normalidade e quem deve ser considerado doente. Esse impacto se estende para além da psiquiatria, influenciando outras áreas do saber e sustentando a lógica de uma sociedade que prefere corrigir a diversidade a questionar suas próprias normas. Em 1980, com a publicação do DSM-III, a transexualidade foi transformada em uma categoria psiquiátrica sob o nome de Transtorno de Identidade de Gênero (TIG). De forma reducionista, a APA definiu essa vivência como uma condição rara e anormal, exigindo, para o diagnóstico, que a pessoa demonstrasse um sofrimento persistente por pelo menos dois anos em relação ao seu corpo biológico e um desejo de modificação corporal para se alinhar à sua identidade psíquica. Mais do que isso, reforçava-se uma visão estereotipada dos papeis de gênero: meninas diagnosticadas com TIG deveriam preferir jogos considerados agressivos e buscar vínculos com meninos, enquanto meninos deveriam rejeitar brincadeiras tradicionalmente consideradas femininas. A tentativa de encaixar a transexualidade em um modelo de transtorno mental vinha acompanhada de explicações que a vinculavam a acontecimentos da primeira infância. A APA sugeria, por exemplo, que uma menina poderia se identificar excessivamente com o pai e, por isso, desenvolver uma identidade masculina. Reduzia-se, assim, a complexidade das experiências trans a um suposto ‘’erro’’ no desenvolvimento psíquico, desconsiderando os efeitos sociais e culturais na construção da identidade. Em 1994, com a publicação do DSM-IV, a categoria TIG foi mantida, mas sofreu modificações. Agora, o diagnóstico exigia quatro critérios: forte e persistente identificação com o gênero oposto, não se tratar de mero desejo por vantagens sociais e culturais, relação com as condições biológicas do sujeito e a presença de sofrimento clínico significativo ou prejuízo social (PREU & BRITO, 2019). A patologização, no entanto, seguia intacta, mantendo a transexualidade no campo do anormal e do indesejado. A edição de 2013, o DSM-V, trouxe algumas mudanças, mas não rompeu com essa lógica. A principal alteração foi a substituição do termo “Transtorno de Identidade de Gênero” por “Disforia de Gênero”. O termo “disforia”, já utilizado em outros transtornos mentais, como depressão e transtornos alimentares, seguia vinculando a experiência trans a uma condição patológica, algo a ser tratado e corrigido. O DSM-V parte do princípio de que o gênero é determinado pelos chamados “indicadores biológicos clássicos” no nascimento, sustentando a ideia de que o corpo deve definir como a pessoa se comporta e se identifica. Desta forma, um menino que manifeste comportamentos considerados femininos pode ser visto como alguém que precisa de intervenção, assim como uma menina que goste de esportes de contato, como futebol. Este modelo impõe um destino ao sujeito desde o nascimento, negando-lhe a possibilidade de viver para além das normas impostas. Embora o DSM-V reconheça que a identidade de gênero pode não estar restrita ao binarismo homem-mulher e ofereça maior detalhamento conceitual e estatístico, a essência do manual permanece: ele localiza o problema no sujeito, e não nas normas sociais que restringem a liberdade de ser. Em vez de questionar os padrões que impõem o que é aceitável ou não, o DSM continua a reforçá-los, justificando intervenções psiquiátricas sobre corpos e identidades diversas. A transexualidade, ao deslocar as fronteiras do gênero, desestabiliza a suposição de que a coerência entre sexo, gênero e desejo seja algo natural. O que se entende por normal e patológico não são senão efeitos discursivos de um regime que produz sujeitos inteligíveis, à custa da exclusão daqueles que não se conformam com as normas hegemônicas. Neste cenário, transexuais e travestis tornam-se alvo constante de estigma, discriminação e violência, pois encarnam a ruptura de um sistema que insiste em fixar os corpos dentro de categorias rígidas e hierarquizadas. No Brasil, esta violência atinge dimensões extremas: o país lidera, pelo 16º ano consecutivo, o ranking global de assassinatos de pessoas trans e travestis, um sintoma evidente da brutalidade com que a diferença é punida. O DSM, ao invés de interrogar as normas que sustentam tais exclusões, reafirma-as, mantendo intacta a estrutura que patologiza corpos e identidades que escapam à lógica binária. A psiquiatria, ao catalogar a transexualidade como um transtorno, não apenas reforça a norma cisgênera como natural, mas também legitima intervenções médicas e sociais que visam a regulação e o controle desses sujeitos. Como qualquer instituição disciplinar, sua função não é apenas diagnosticar, mas produzir realidades, estabelecendo quem tem acesso ao reconhecimento e quem será relegado à marginalidade. Ao transformar em doença aquilo que deveria ser compreendido como uma expressão legítima da diversidade humana, o DSM opera como um dispositivo de normalização que perpetua exclusão, sofrimento e violência. Referência PREU, R., BRITO, C. PATOLOGIZAÇÃO DA TRANSEXUALIDADE: UMA LEITURA CRÍTICA DAS TRANSFORMAÇÕES OCORRIDAS NAS TRÊS ÚLTIMAS VERSÕES DO DSM. IN: GÊNERO, NITERÓI, V. 19, N.2, P. 134-154, 2019. Vitória Regina Marxista e psicóloga. Debate política, psicologia e cultura. Instagram Twitter Youtube Tiktok
A clínica como ponta de lança

Recursos que têm por objetivo assistir pacientes também podem reproduzir violências Por Yan Chaparro Muitas vezes a clínica pode cometer uma dupla violência, quando desvia os olhos para as consequências relacionadas às violências no campo racial, sexual, de gênero e de classe. Dupla violência, pois ao invés de encarar de frente as violências, se esconde sorrateiramente em alguma teoria ou diagnóstico, e acaba produzindo uma clínica dissociada, um território cindido do cuidado. A cada dia que passa, que os pés caminham pela clínica, é possível compreender de corpo inteiro, que os sofrimentos cuidados no campo clínico, tanto nos atendimentos individuais, quanto em grupo, são produzidos historicamente por violências que a pessoa sofre por ser subjugada e subalternizada (os corpos sociais). Sofrimentos que não são só micros, e sim macros, construídos nas engrenagens da sociedade vivida, sofrimentos que quando encarados no campo micro da clínica, seu cosmo torna-se cosmopolítico, movendo um enfrentamento que envolve o cuidado e o movimento de caminhar e produzir transformações, saídas e revoluções. Uma clínica que não enfrenta as violências que são micro e macro, cai em um lugar perigoso, do dogmatismo moralista vestido de alguma teoria extraterrestre e fantasiosa, digo extraterrestre, pois não pisa o mesmo chão do sofrimento aberto em sua frente. Muitas vezes o que é denominado e diagnosticado com nomes fantásticos e outras nomenclaturas, é na verdade o sofrimento encarnado no corpo atingido cotidianamente por violências de diversas formas. Como uma lança, a clínica necessita cada vez construir poéticas e políticas de revoluções (rebeldias sensíveis), e tecer diversos desejos e concretudes para além de fetiches, clichês e fantasmas. Uma clínica que expande o corpo. Yan Chaparro Psicólogo, psicodramatista, doutor em Desenvolvimento Local, pós-doutor em Antropologia Social e em Desenvolvimento Local. Instagram Twitter Youtube Tiktok
O sensível e o campo de batalha

Por Yan Chaparro Como lembra Diego Sztulwark (2023) o sensível, o afeto e a sensibilidade estão hoje no centro do campo de batalha do poder na sociedade neoliberal, pois capturar o sensível é capturar o corpo, o pensar e o sentir. Por isso, este escrito busca anunciar estratégias de compreensão do sensível para enfrentar o campo de batalha, desde as ruas, as redes sociais, as instituições, até os gabinetes e os escritórios mais sombrios. Pois é no sensível que todos estão de olho, pelo fato de agenciar nossas vidas humanas pelas entranhas. Não é à toa que a política ficou mais bestial e o uso de remédios psiquiátricos ficou mais comum, pois os mecanismos de poder molecular, lembrando de Félix Guattari (1987), atacam sem dó o sensível, as partes mais delicadas do nosso corpo. Às vezes não parece ter saída: aquele que parecia ter o mínimo de razão cognitiva hoje cospe violência, meus amigos contam sofrimentos cada vez maiores, já não me vejo nesta realidade, amanhã talvez o mundo não mais exista. Não tenho emprego; se tenho, me sinto sugado todos os dias, busco saídas, mas tudo parece estar em ruínas. Pode parecer um enredo de um filme do Béla Tarr, mas é a produção de realidade comum cada vez mais cotidiana. Como dizem por aí, a realidade já superou a ficção. E que proposta efetiva afetiva podemos ter como estratégias para atravessar as ruínas e agenciar outras formas de vida? Arte: Vitória Regina Aqui, proponho a potência (leia-se a potência de Spinoza) do Psicodrama, principalmente quando exercido como psicoterapia de grupo, pois é no coletivo que adoecemos, e é em coletivo que podemos produzir novas subjetividades e objetividades como vida. E sei que, junto com o Psicodrama, caminham formas radicais de cuidado, sabendo que cuidado aqui é a transformação social a partir do sensível, do afeto e da sensibilidade. Fora isso, o cuidado pode se tornar uma silenciosa e mortal maneira de violência. Mas, o que seria o Psicodrama de grupo? Antes de tudo, é o entendimento de que o afeto e o sensível é público, quando em um grupo está a “sociedade” vibrante e viva, com seus conflitos, poderes, dilemas e caminhos. Jacob Moreno (1975) ao produzir o Psicodrama depois do teatro da espontaneidade e do teatro terapêutico, percebeu que o cuidar para uma sociedade justa deve ser construído coletivamente. De várias formas é a audácia do cuidado coletivo em todas as dimensões possíveis humanas. Um cuidar radical que se posiciona e se produz coletivamente. E dessa forma que proponho estratégias para entrar no campo de batalha onde o sensível é o principal objeto de poder. Cuidar coletivamente do sensível atento às armadilhas neoliberais que tecem nossa sociedade hoje. Cuidar para transformar e produzir justiças sociais, políticas, econômicas e ecológicas. Por fim, a clínica não pode mais estar alheia à crítica, e a crítica não pode mais estar alheia a clínica. Não existe mais esse privilégio. Pois o sensível e o afeto hoje são objetos de estratégia de poderes. Bom, se você se espanta com o sofrimento cada vez mais naturalizado, isso é um projeto. Por isso, a tarefa da clínica, digo pela clínica de psicodrama que caminha por variados territórios, é produzir formas de vida, como lembra Diego Sztulwark (2023), que atravessem ruínas, terrores e violências cotidianas. E estejam atentas ao sensível como uma potência social micro e macro. Referencial bibliográfico GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações politicas do desejo. Editora Brasiliense: São Paulo, 1987. SZTULWARK, D. A ofensiva do sensível: neoliberalismo, populismo e o reverso da política. Editora Elefante: São Paulo, 2023. MORENO, J. Psicodrama. Editora Cultrix: São Paulo, 1975. Yan Chaparro Psicólogo, psicodramatista, doutor em Desenvolvimento Local, pós-doutor em Antropologia Social e em Desenvolvimento Local. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Sujeitos precarizados e ética tênue: profissionais de saúde e redes sociais

Divulgações de serviços de saúde em plataformas online tem mostrado falhas éticas de profissionais da área, fruto da precarização do trabalho dos mesmos Por Carolina de MendonçaArte por Guilherme Correia Com o avanço do neoliberalismo, a ideologia do self-made man (em tradução livre: homem que se constrói sozinho) criou um trabalhador ideal ao novo momento do capital: o autônomo, que acumula funções para além de suas aptidões. As profissões de saúde historicamente têm um viés elitista e individual, e os profissionais que trabalham na modalidade liberal tendem a ter maiores remunerações – como por exemplo, os que atuam em contexto de clínicas privadas. No entanto, as atividades são realizadas sem um vínculo empregatício e com negociação direta com aquele que contrata o serviço prestado, o paciente, e é preciso se tornar conhecido enquanto profissional. Desta forma, as redes sociais têm sido uma forma de promover seus trabalhos. Muitos que prestam esse tipo de serviço utilizam perfis nas mídias sociais como ação de marketing. Em sites e aplicativos, para conseguir ser visto, é preciso muito esforço para produção constante de conteúdo que seja de fácil consumo e que gere bastante engajamento. A necessidade em ser simples e chamativo pode fazer com que o profissional crie conteúdo não tão adequado ao debate científico, que contrarie a ética da profissão que exerce, o que leva a questões problemáticas a curto, médio e longo prazo, nos discursos sobre saúde mental, em tempos de algoritmo – reforçando a lógica neoliberal que adoece sujeitos. Se você sente… Ao promover produtos ou serviços, não é incomum o formato de criar um desejo, ou necessidade, para incentivar o consumo. Na área de saúde, esse tipo de promoção acaba sendo mais embaçada – afinal, para consumir remédios ou buscar tratamentos, é preciso, na maioria dos casos, estar em estado de adoecimento. Há uma anedota interessante na medicina (ou talvez seja fala de uma série que acompanhei há uns anos) que falava que um mesmo adoecimento terá suposições diagnósticas muito distintas de acordo com cada especialista. Exemplificando: uma mulher de 35 anos vai a diferentes médicos queixando dor de cabeça. O primeiro é um ortopedista, que suspeita de um trauma – uma lesão externa que gera ferimento. Investigando a história de vida da paciente, ele encontra situações que podem ter gerado este trauma. Já ao buscar um psiquiatra, a suspeita será um outro tipo de trauma – um evento que leve a afetos intensos e tem repercussão em outros aspectos da vida. Ambos aguardam resultado de exames solicitados para confirmar as hipóteses e iniciar o tratamento adequado. Ambos estavam equivocados e a paciente em questão não estava doente, mas gestante. Dor de cabeça é um sintoma comum, presente em muitos casos, além dos quais descrevi. E suas causas podem confundir e intrigar especialistas mais diversos. Mesmo associando a outros sintomas, ainda é preciso de diagnósticos físicos e investigação da vida do paciente – a anamnese. Em contrapartida, a complexidade de um diagnóstico em saúde se tornou popular em publicações, com listas de sintomas, em imagens ou vídeo, que podem gerar um adoecimento, além da necessidade da busca de profissional especializado e, logo abaixo, a indicação de que o criador do conteúdo pode oferecer este trabalho. Além disso, esta relação pode estimular autodiagnósticos que levam a conclusões ainda mais precipitadas, arriscando especialmente o uso de medicamentos sem indicação médica, comum em três a cada quatro moradores do Brasil. Em saúde mental, é ainda mais complexo. Sintomas físicos, como dor, coceira ou febre, significam que algo acontece, necessariamente, e requer atenção. Mudanças psíquicas – como emoções consideradas negativas, variações de humor ou pensamento acelerado, não indicam que algo está fora do esperado ou adoecido, mas podem significar diversas coisas, inclusive uma forma salutar de existência. Vale ressaltar que, dentro da lógica capitalista, é muito difícil estar no mundo de modo saudável. A relação com trabalho, cada vez mais precária, cria sofrimento e adoecimentos, para além do psíquico. A intensa cobrança por produtividade leva os sujeitos a reprimir afetos, tais como luto, saudades ou paixão, para que esses não atrapalhem a rotina. A classe trabalhadora é composta majoritariamente por grupos marginalizados, alvos de constantes violências, que levam muitos destes a se moldarem como forma de evitar serem reprimidos – uma forma de violência, que também fragmenta a subjetividade. O sofrimento de uma pessoa não cabe em um manual de diagnósticos. Tampouco em uma publicação de rede social com menos de um minuto. Informar sobre adoecimentos e suas formas de cuidado não deve ter viés puramente mercadológico, já que vender uma suposta saúde, também pode gerar adoecimento. Hoje atendi um paciente que… Não é incomum ler ou ouvir um relato de profissional de saúde sobre algum paciente. Seja alguma forma de cuidado equivocada e sem assistência que levou a um quadro de adoecimento grave, alguma situação jocosa ou triste que impactou o trabalhador que acompanhou o caso, ou até mesmo um comparativo de antes e depois do tratamento. Há diversas problemáticas nessas abordagens. A primeira, e óbvia, é a exposição do atendido, que pode gerar problemas ao sujeito e torna público informações muito sensíveis. Mesmo que soem engraçadas ou pareçam ensinar algo, tendem a descontextualizar e explanar sobre intimidades que foram confiadas em sigilo profissional. Além disso, com certa frequência, tais aprendizados têm embasamentos morais e não científicos. O uso de imagens comparativas ou respostas sobre o trabalho é comumente incentivado em cursos sobre marketing digital, mas não deve ser utilizado por profissionais de saúde. Além de expor um sujeito – o que não é permitido pela maioria dos códigos mesmo com suposto consentimento, há uma problema na previsão de resultados na divulgação, visto que as consequências do tratamento só podem ser prognosticadas após avaliação do sujeito atendido. No artigo 9 do Código de Ética Profissional do Psicólogo, é possível encontrar como dever do mesmo, o respeito ao sigilo profissional. Artigos similares são encontrados nos demais códigos de ética de outras categorias de trabalhadores em saúde, a fim de assegurar direitos básicos às
