Existe psicanálise fora dos consultórios clínicos?

Prática é historicamente associada a um trabalho individual e privativo, restrito ao ambiente clínico e à singularidade extrema do sujeito Por Maria Fernanda Figueiró Ao longo de seu desenvolvimento, a psicanálise fomentou diversas reflexões sobre cultura, antropologia, filosofia e outros campos do pensamento. Historicamente, sua prática foi associada a um trabalho individual e privativo, restrito ao ambiente clínico e à singularidade extrema do sujeito. Essa concepção foi reiterada ao longo dos anos, especialmente devido à maneira como alguns de seus representantes a exerceram, promovendo o que Onocko-Campos (2014) denomina o “mito da pura interioridade”, como se o sujeito do inconsciente pudesse se desenvolver em uma cápsula hermeticamente isolada de seu meio cultural e social. Freud (2010) afirma que a estrutura psíquica do sujeito é produto da cultura. Anos antes, em seu célebre discurso proferido no Quinto Congresso Psicanalítico Internacional, em Budapeste, em 1918, destacou que todas as pessoas, ricas ou pobres, deveriam ter direito à psicanálise, ressaltando a necessidade de sua gratuidade. Além disso, alertou sobre a importância de adaptar a técnica às novas condições que surgiram, demonstrando preocupação com a integralidade do cuidado: “é possível que só consigamos realizar algo se pudermos juntar auxílio psíquico e apoio material” (Freud, 2010, p. 292). Freud compreendia que a inserção da psicanálise no campo social era indispensável para sua sobrevivência, o que levou ao desenvolvimento de diferentes dispositivos clínicos em territórios diversos e instituições, buscando integrá-la ao tecido social. Afinal, “o sujeito fala onde quer que haja uma escuta, seja ela no divã, na instituição, nas ruas ou embaixo de uma ponte, na mais pura tradição freudiana inaugurada em 1918” (Danto, 2019, p. 18). A psicanálise está presente em múltiplos espaços: no atendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS), na educação, no sistema judiciário, na promoção e garantia dos direitos humanos, na escuta de adolescentes em conflito com a lei, no atendimento à população em situação de rua — seja nas próprias ruas ou em instituições —, em clínicas gratuitas ao ar livre, na saúde mental e na luta antimanicomial. Em suma, está inserida em todos os setores sociais que, no Brasil, se encontram no centro dos desafios contemporâneos (Dolto, 2019, p. 17). Após a Primeira Guerra Mundial e seus impactos, Freud passou a desenvolver estudos teóricos voltados ao campo social e às instituições (Furtado, 2022). Em 1920, foi inaugurada, em Viena, a primeira Policlínica Psicanalítica, que oferecia atendimento gratuito à população. No entanto, seu funcionamento foi interrompido pelo regime nazista, que decretou que as instituições médicas deveriam ser compostas exclusivamente por membros da chamada “raça ariana”, sob a direção do Conselho Médico Alemão (Danto, 2019). O trabalho do psicanalista está ancorado no compromisso com a escuta do sujeito que fala. Assim, sua atuação não se limita ao contexto clínico tradicional, pois é possível encontrar “pistas operacionais e pontos de reflexão que façam emergir o testemunho de uma postura ético-política pela e na psicanálise” (Onocko-Campos, 2014, p. 14). A função da psicanálise é escutar o sujeito do inconsciente ou sujeito do desejo (Dias et al., 2017) dentro das políticas públicas de saúde, considerando que estas visam promover o bem-estar social e são estruturadas por um processo político e coletivo, cujo objetivo é assegurar direitos de cidadania. Referências CAVALHEIRO, Ana Caroline; FERRARI, Luíza Bernardini. A atuação do psicólogo nas políticas públicas de assistência social: uma perspectiva psicanalítica. Research, Society and Development, v. 12, n. 12, e85121244047, 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i12.44047. DANTO, Elizabeth Ann. As clínicas de Freud: Psicanálise e justiça social (Estudos). São Paulo: Editora Perspectiva, 2020. DIAS, T. B. M.; CHAVES, W. C.; NETO, F. K. Psicanálise e Assistência Social: O Sujeito entre a Demanda e o Desejo. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 238-258, 2017. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812017000100014&lng=pt&tlng=pt. FERNANDES, M. I. Cidadão, sujeito do inconsciente e políticas públicas. Revista Cultura no Divã – Relações contemporâneas entre psicanálise e cultura, v. 1, n. 11, 2018. Disponível em: https://www.culturanodiva.com/cidadao-sujeito-do-inconsciente-e-politicas-publicas/. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. MOREIRA, J. de O.; OLIVEIRA, N. A.; COSTA, E. A. Psicanálise e pesquisa científica: o pesquisador na posição de analisante. Tempo Psicanalítico, v. 50, n. 2, p. 119-142, 2018. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382018000200007. ONOCKO-CAMPOS, Rosana. Psicanálise e saúde coletiva: interfaces. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. RODRIGUES, S. W. D. M. et al. Psicanálise na Assistência Social em Fortaleza-CE: Um Estudo sobre as Medidas Socioeducativas. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 42, e231656, 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-3703003231656. Maria Fernanda Figueiró     Psicóloga. Atua há mais de 16 anos na área da dança e atualmente é intérprete criadora das companhias de dança Cia do Mato e Ginga.

O sensível e o campo de batalha

Por Yan Chaparro Como lembra Diego Sztulwark (2023) o sensível, o afeto e a sensibilidade estão hoje no centro do campo de batalha do poder na sociedade neoliberal, pois capturar o sensível é capturar o corpo, o pensar e o sentir. Por isso, este escrito busca anunciar estratégias de compreensão do sensível para enfrentar o campo de batalha, desde as ruas, as redes sociais, as instituições, até os gabinetes e os escritórios mais sombrios. Pois é no sensível que todos estão de olho, pelo fato de agenciar nossas vidas humanas pelas entranhas. Não é à toa que a política ficou mais bestial e o uso de remédios psiquiátricos ficou mais comum, pois os mecanismos de poder molecular, lembrando de Félix Guattari (1987), atacam sem dó o sensível, as partes mais delicadas do nosso corpo. Às vezes não parece ter saída: aquele que parecia ter o mínimo de razão cognitiva hoje cospe violência, meus amigos contam sofrimentos cada vez maiores, já não me vejo nesta realidade, amanhã talvez o mundo não mais exista. Não tenho emprego; se tenho, me sinto sugado todos os dias, busco saídas, mas tudo parece estar em ruínas. Pode parecer um enredo de um filme do Béla Tarr, mas é a produção de realidade comum cada vez mais cotidiana. Como dizem por aí, a realidade já superou a ficção. E que proposta efetiva afetiva podemos ter como estratégias para atravessar as ruínas e agenciar outras formas de vida? Arte: Vitória Regina Aqui, proponho a potência (leia-se a potência de Spinoza) do Psicodrama, principalmente quando exercido como psicoterapia de grupo, pois é no coletivo que adoecemos, e é em coletivo que podemos produzir novas subjetividades e objetividades como vida. E sei que, junto com o Psicodrama, caminham formas radicais de cuidado, sabendo que cuidado aqui é a transformação social a partir do sensível, do afeto e da sensibilidade. Fora isso, o cuidado pode se tornar uma silenciosa e mortal maneira de violência. Mas, o que seria o Psicodrama de grupo? Antes de tudo, é o entendimento de que o afeto e o sensível é público, quando em um grupo está a “sociedade” vibrante e viva, com seus conflitos, poderes, dilemas e caminhos. Jacob Moreno (1975) ao produzir o Psicodrama depois do teatro da espontaneidade e do teatro terapêutico, percebeu que o cuidar para uma sociedade justa deve ser construído coletivamente. De várias formas é a audácia do cuidado coletivo em todas as dimensões possíveis humanas. Um cuidar radical que se posiciona e se produz coletivamente. E dessa forma que proponho estratégias para entrar no campo de batalha onde o sensível é o principal objeto de poder. Cuidar coletivamente do sensível atento às armadilhas neoliberais que tecem nossa sociedade hoje. Cuidar para transformar e produzir justiças sociais, políticas, econômicas e ecológicas. Por fim, a clínica não pode mais estar alheia à crítica, e a crítica não pode mais estar alheia a clínica. Não existe mais esse privilégio. Pois o sensível e o afeto hoje são objetos de estratégia de poderes. Bom, se você se espanta com o sofrimento cada vez mais naturalizado, isso é um projeto. Por isso, a tarefa da clínica, digo pela clínica de psicodrama que caminha por variados territórios, é produzir formas de vida, como lembra Diego  Sztulwark (2023), que atravessem ruínas, terrores e violências cotidianas. E estejam atentas ao sensível como uma potência social micro e macro. Referencial bibliográfico GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações politicas do desejo. Editora Brasiliense: São Paulo, 1987. SZTULWARK, D. A ofensiva do sensível: neoliberalismo, populismo e o reverso da política. Editora Elefante: São Paulo, 2023. MORENO, J. Psicodrama. Editora Cultrix: São Paulo, 1975. Yan Chaparro     Psicólogo, psicodramatista, doutor em Desenvolvimento Local, pós-doutor em Antropologia Social e em Desenvolvimento Local. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Sofrimento e glória de um artista maldito

Um dos principais artistas visuais da história da humanidade, Vincent Van Gogh foi desumanizado tanto em vida, quanto em morte Por Carolina de MendonçaArte por Adrian Albuquerque De que vale um poeta? – Um pobre louco  Que leva os dias a sonhar? – Insano Amante de utopias e virtudes E n’um tempo sem Deus ainda crente (Cadáver de um Poeta – Álvares de Azevedo) O trecho da poesia de Álvares de Azevedo (1831 – 1852), considerado um dos poetas malditos do romantismo brasileiro, descreve uma visão do senso comum do artista: insano e utópico. Ter uma vida breve, infeliz, comportamentos excêntricos, dificuldades financeiras e com dom divino, é tido comum entre os trabalhadores da arte. Histórias de tragédias e reforço de uma “genialidade inata” levam muitos a se afastar da arte, que se mantém como área restrita a uma elite. Aqueles que permanecem, encontram contextos majoritariamente hostis e deixam seu sofrimento fetichizado à venda. O caso emblemático e mais popular desta situação é do pintor neerlandês Vincent Van Gogh (1853 – 1890). Nascido em Zundert, pequena cidade no sul dos Países Baixos, o segundo filho tem mesmo nome do avô e irmão mais velho (natimorto), em uma família com tradição de atividades voltadas para a vendas de arte e trabalhos religiosos. Vincent tenta um dos ramos, mas não é bom comerciante. Seu irmão caçula, Theo Van Gogh (1857 – 1891), se destacou na área, sendo, inclusive, importante para a popularização de artistas impressionistas, como Claude Monet (1840 – 1926). O pintor também arrisca atuar como pastor calvinista, como seu pai, mas não é bem aceito no ofício – seus superiores consideravam exagerado seu envolvimento com os grupos com os quais trabalhava. Considerava absurda a miséria vivida pelos trabalhadores com quem convivia. Em seus trabalhos artísticos, passa a usar de sua criação para denunciar o horror causado pelo capitalismo. Resolve então se dedicar exclusivamente à pintura como atividade laboral, mesmo sem ter retorno comercial e artístico,  também como forma de denúncia da realidade que testemunhava. Os Comedores de Batata (1885) – Acervo: Museu Van Gogh Morando a maior parte de sua vida adulta na França, ao começar a pintar resolve assinar apenas com seu primeiro nome, pois se aborrecia com o erro na pronúncia de seu sobrenome – algo frequente, sobretudo após sua morte.  O pintor confessa, ao irmão caçula e mecenas, angústias e sonhos fantásticos, de uma lógica social solidária. Ao conhecer a costureira Sien (1850 – 1904), uma jovem mãe, grávida do segundo filho e que foi abandonada pelo companheiro, Vincent oferece a ela a possibilidade de trabalhar como sua modelo. Ambos estabelecem um companheirismo para além do envolvimento romântico, que, como a maior parte das relações do artista, foi fugaz. Outro importante vínculo de Van Gogh foi o pintor francês Paul Gauguin (1848 – 1903), com quem morou junto. O neerlandês desejava construir uma grande comunidade de artistas plásticos – todos morariam juntos e dividiriam ideias e materiais. Além disso, ele planejava a criação de um sindicato para fortalecer a classe, a partir da parceria com Gauguin. Uma tendência socialista forte, muitas vezes apagada em suas representações. Assim como a relação com a costureira Sien, o vínculo entre Vincent e Paul Gauguin foi efêmero e febril. As dificuldades cotidianas, o temperamento complicado de ambos e as diferentes formas como se relacionavam com a arte, causavam brigas gigantescas,  chegando por vezes à agressão física – como comentado por ambos em cartas.  Em um momento, Paul chegou a avisar ao companheiro que se afastaria, por considerar o ambiente hostil e limitante. A Cadeira de Gauguin (1888) – Acervo: Museu Van Gogh Vincent queixava-se ao irmão, Theo, de seu humor instável e intenso – ora não conseguia fazer nada, e levantar da cama era uma tarefa árdua, ora tinha energia para pintar por dias seguidos sem pausa. Percebia influência direta do uso de álcool nessas oscilações, mas não sentia ter controle para dosar o uso da substância. Separado do amigo, que decidiu partir, o neerlandês ficou drasticamente abalado, culminando no trágico episódio em que se automutila, retirando um pedaço da orelha e o entregando em um bordel. As pessoas ao redor não sabem, ao certo, o que houve. A história se espalhou como fofoca, recebendo uma série de outras interpretações e até mentiras. Mesmo após a recuperação, o pintor afirmou ao irmão, em carta, não lembrar daquela noite – era esperado, pois suas emoções eram intensas e havia perdido muito sangue. Não há certeza do que aconteceu, por conta dos poucos registros que permanecem sobre a situação.  Uma das testemunhas foi Paul Gauguin, que após a morte de seu amigo, escreveu de forma dura e dolorosa o mais detalhado relato sobre o episódio. O francês contou que, na noite anterior, Van Gogh atirou um copo com bebida contra o amigo, mas não lembrou do ocorrido ao acordar. À noite, Gauguin decidiu passear e percebeu passos o acompanhando. Ao virar-se, Paul viu o amigo com uma navalha aberta na mão e parecia ameaçar um golpe. A troca de olhares entre ambos foi suficiente para que Vincent retornasse correndo para casa. Na manhã seguinte, os amigos se encontraram pela última vez. Vincent havia se mutilado, seu corpo era inanimado e pela casa estavam espalhadas muitas toalhas com sangue. A Casa Amarela (1888) – Acervo: Museu Van Gogh O artista foi internado após a automutilação. Estava frágil física e psicologicamente, precisava de cuidados profissionais e de uma rede de apoio forte que o ajudasse nesse período. Contudo, seus vizinhos endereçaram um abaixo-assinado, com aproximadamente 80 assinaturas, ao então prefeito de Arles, cidade no sul da França em que morou, descrevendo que o pintor não poderia viver em liberdade e assim tornou o episódio um caso de polícia. Em carta endereçada a Theo Van Gogh, em 19 de março de 1889, comentou sobre o ocorrido:  “Assim você pode imaginar que duro golpe em pleno peito foi saber que havia aqui tantas pessoas covardes o bastante para se unirem em tão grande número contra um

Sujeitos precarizados e ética tênue: profissionais de saúde e redes sociais

Mão com uma luva usada em cirurgia segura um celular, com a tela chuviscada.

Divulgações de serviços de saúde em plataformas online tem mostrado falhas éticas de profissionais da área, fruto da precarização do trabalho dos mesmos Por Carolina de MendonçaArte por Guilherme Correia Com o avanço do neoliberalismo, a ideologia do self-made man (em tradução livre: homem que se constrói sozinho) criou um trabalhador ideal ao novo momento do capital: o autônomo, que acumula funções para além de suas aptidões. As profissões de saúde historicamente têm um viés elitista e individual, e os profissionais que trabalham na modalidade liberal tendem a ter maiores remunerações – como por exemplo, os que atuam em contexto de clínicas privadas. No entanto, as atividades são realizadas sem um vínculo empregatício e com negociação direta com aquele que contrata o serviço prestado, o paciente, e é preciso se tornar conhecido enquanto profissional. Desta forma, as redes sociais têm sido uma forma de promover seus trabalhos. Muitos que prestam esse tipo de serviço utilizam perfis nas mídias sociais como ação de marketing. Em sites e aplicativos, para conseguir ser visto, é preciso muito esforço para produção constante de conteúdo que seja de fácil consumo e que gere bastante engajamento.  A necessidade em ser simples e chamativo pode fazer com que o profissional crie conteúdo não tão adequado ao debate científico, que contrarie a ética da profissão que exerce, o que leva a questões problemáticas a curto, médio e longo prazo, nos discursos sobre saúde mental, em tempos de algoritmo – reforçando a lógica neoliberal que adoece sujeitos. Se você sente… Ao promover produtos ou serviços, não é incomum o formato de criar um desejo, ou necessidade, para incentivar o consumo. Na área de saúde, esse tipo de promoção acaba sendo mais embaçada – afinal, para consumir remédios ou buscar tratamentos, é preciso, na maioria dos casos, estar em estado de adoecimento. Há uma anedota interessante na medicina (ou talvez seja fala de uma série que acompanhei há uns anos) que falava que um mesmo adoecimento terá suposições diagnósticas muito distintas de acordo com cada especialista.  Exemplificando: uma mulher de 35 anos vai a diferentes médicos queixando dor de cabeça. O primeiro é um ortopedista, que suspeita de um trauma – uma lesão externa que gera ferimento. Investigando a história de vida da paciente, ele encontra situações que podem ter gerado este trauma. Já ao buscar um psiquiatra, a suspeita será um outro tipo de trauma – um evento que leve a afetos intensos e tem repercussão em outros aspectos da vida. Ambos aguardam resultado de exames solicitados para confirmar as hipóteses e iniciar o tratamento adequado. Ambos estavam equivocados e a paciente em questão não estava doente, mas gestante. Dor de cabeça é um sintoma comum, presente em muitos casos, além dos quais descrevi. E suas causas podem confundir e intrigar especialistas mais diversos. Mesmo associando a outros sintomas, ainda é preciso de diagnósticos físicos e investigação da vida do paciente – a anamnese.  Em contrapartida, a complexidade de um diagnóstico em saúde se tornou popular em publicações, com listas de sintomas, em imagens ou vídeo, que podem gerar um adoecimento, além da necessidade da busca de profissional especializado e, logo abaixo, a indicação de que o criador do conteúdo pode oferecer este trabalho. Além disso,  esta relação pode estimular autodiagnósticos que levam a conclusões ainda mais precipitadas, arriscando especialmente o uso de medicamentos sem indicação médica, comum em três a cada quatro moradores do Brasil. Em saúde mental, é ainda mais complexo. Sintomas físicos, como dor, coceira ou febre, significam que algo acontece, necessariamente, e requer atenção. Mudanças psíquicas – como emoções consideradas negativas, variações de humor ou pensamento acelerado, não indicam que algo está fora do esperado ou adoecido, mas podem significar diversas coisas, inclusive uma forma salutar de existência. Vale ressaltar que, dentro da lógica capitalista, é muito difícil estar no mundo de modo saudável. A relação com trabalho, cada vez mais precária, cria sofrimento e adoecimentos, para além do psíquico. A intensa cobrança por produtividade leva os sujeitos a reprimir afetos, tais como luto, saudades ou paixão, para que esses não atrapalhem a rotina. A classe trabalhadora é composta majoritariamente por grupos marginalizados, alvos de constantes violências, que levam muitos destes a se moldarem como forma de evitar serem reprimidos – uma forma de violência, que também fragmenta a subjetividade. O sofrimento de uma pessoa não cabe em um manual de diagnósticos. Tampouco em uma publicação de rede social com menos de um minuto. Informar sobre adoecimentos e suas formas de cuidado não deve ter viés puramente mercadológico, já que vender uma suposta saúde, também pode gerar adoecimento. Hoje atendi um paciente que…  Não é incomum ler ou ouvir um relato de profissional de saúde sobre algum paciente. Seja alguma forma de cuidado equivocada e sem assistência que levou a um quadro de adoecimento grave, alguma situação jocosa ou triste que impactou o trabalhador que acompanhou o caso, ou até mesmo um comparativo de antes e depois do tratamento. Há diversas problemáticas nessas abordagens. A primeira, e óbvia, é a exposição do atendido, que pode gerar problemas ao sujeito e torna público informações muito sensíveis. Mesmo que soem engraçadas ou pareçam ensinar algo, tendem a descontextualizar e explanar sobre intimidades que foram confiadas em sigilo profissional. Além disso, com certa frequência, tais aprendizados têm embasamentos morais e não científicos. O uso de imagens comparativas ou respostas sobre o trabalho é comumente incentivado em cursos sobre marketing digital, mas não deve ser utilizado por profissionais de saúde. Além de expor um sujeito – o que não é permitido pela maioria dos códigos mesmo com suposto consentimento, há uma problema na previsão de resultados na divulgação, visto que as consequências do tratamento só podem ser prognosticadas após avaliação do sujeito atendido. No artigo 9 do Código de Ética Profissional do Psicólogo, é possível encontrar como dever do mesmo, o respeito ao sigilo profissional. Artigos similares são encontrados nos demais códigos de ética de outras categorias de trabalhadores em saúde, a fim de assegurar direitos básicos às

Marx sobre o suicídio e a privatização do sofrimento

Silhueta de Karl Marx dizendo "o suicídio não é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral"

”o suicídio não é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral” (MARX, 2006, p. 29) Por Vitória Regina Ilustração por Marina Duarte O modo de produção capitalista transforma, por razões ideológicas e estratégicas, questões sociais em tabu. Ao invisibilizar discussões a respeito de alguns temas, não debatemos sobre os possíveis sintomas, determinações e modo de enfrentamento, apenas individualizamos e responsabilizamos os sujeitos. Entre os temas considerados um tabu no capitalismo — na sociedade ocidental —, o suicídio está no topo da lista. O suicídio, em nossa sociedade, antes de ser considerado um assunto de esfera estritamente privada, é um ataque direto ao cristianismo. É um ataque à ordem secular de que um deus lhe deu a vida e ele — e somente ele — pode tirá-la. Diante da moralidade que ronda esse tema, perdemos a oportunidade de discutir de forma concreta os motivos que levam alguém a tirar a própria vida. Marx escancarou — e descortinou — as contradições presentes no modo de produção capitalista e na sociedade moderna. O artigo publicado no Gesellschaftsspiegel (1) em janeiro de 1846 é um ensaio bastante diferente da obra marxiana. Marx se interessa pela temática do suicídio após ter acesso ao Mémoires tirés des archives de la police de Paris, de Jacques Peuchet, publicado em 1838 (2). Neste sentido, comentou sobre quatro casos de suicídio — sendo três mulheres e um homem — que aconteceram em Paris. A escolha não foi à toa, já que em cada caso uma mazela da sociedade moderna foi analisada. No primeiro caso, é apontada a falsa moral da burguesia e sua materialização no patriarcado; no segundo, o ciúme e a monogamia; no terceiro, o desespero de uma mulher grávida e a intenção de abortar e no último caso o desemprego. A questão do suicídio é tratada por Marx — e por Peuchet, um monarquista — como um sintoma da sociedade capitalista. Inclusive, os dois confrontam a ideia de que o suicídio é antinatural, pois seria equivocado considerar ‘’antinatural um comportamento que se consuma com tanta frequência’’ (MARX, 2006, p. 25). O primeiro caso escolhido por Marx é sobre a história de uma mulher, filha de alfaiates, que no dia anterior ao seu casamento é convidada para jantar na casa dos futuros sogros. No entanto, por conta de algumas encomendas que deveriam ser entregues, os pais da noiva não puderam ir ao jantar. Durante a noite, os noivos se divertiram, beberam e cantaram. A jovem retornou para casa somente na manhã seguinte sendo recebida de um modo grosseiro e humilhante pelos pais. De acordo com Peuchet, os pais da noiva a ”irromperam furiosamente e cobriram-na com os mais vergonhosos nomes e impropérios”. Após a humilhação pública e o sentimento de vergonha que a invadiu, a jovem decidiu dar fim à própria vida no rio Sena. Posteriormente, Marx (2006) aponta que as pessoas intolerantes não perdem a oportunidade de lançar mão da autoridade de pessoas mais velhas. No segundo caso, uma jovem se casa com um dos homens mais ricos de Martinica. Um ano após o casamento, a mulher comete suicídio. Passado algumas semanas do ocorrido, o cunhado revelou o motivo ao afirmar que o que levou a jovem a tirar a própria vida foi o ciúmes e o controle do marido. Durante o casamento, o cônjuge contraiu uma doença degenerativa que afetou sua imagem e resolveu se isolar fora da cidade. O homem forçou a esposa a seguir o mesmo caminho, retirando-a de qualquer convívio social — além de sofrer com inúmeras cenas de ciúmes. Sem previsão de se livrar dessa situação de controle, a única alternativa encontrada pela jovem foi o suicídio. Como pontuou Engels (2019), no casamento monogâmico, o bem-estar dos homens se impõem pela dor e pela opressão das mulheres. Sobre esse caso, os autores escrevem que o sr. Von M… podia praticá-la apenas por estar amparado pelo Código Civil e pelo direito de propriedade, protegido por uma situação social que torna o amor independente dos livres sentimentos dos amantes e autoriza o marido ciumento a andar por aí com sua mulher acorrentada como o avarento com seu cofre, pois ela representa apenas uma parte de seu inventário (MARX, 2006, p. 37 – grifo nosso). O segundo caso também nos remete aos escritos de Engels sobre a monogamia e o antagonismo entre homem e a mulher na sociedade moderna. Engels (2019) afirma que o casamento monogâmico ”entra em cena como a subjugação de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, desconhecidos em toda a história pregressa” (p. 84) O terceiro caso é a descrição de um relato de tentativa de aborto por um médico a Peuchet. Uma jovem mulher procura um médico para comunicar o seu desejo de praticar o aborto, pois a criança seria fruto de uma infidelidade.  Ao longo da conversa, a jovem sobrinha de um banqueiro parisiense relatou que se sentia desonrada e que não receberia o perdão de ninguém. Diante desse acontecimento, a mulher alertou que se não fosse possível interromper a gestação, optaria em colocar um fim à própria vida visando evitar um escândalo. Após a recusa do médico, a jovem cometeu suicídio. Durante a descrição do relato, o médico afirmou que ”teria dado o melhor do seu sangue” para tirar a jovem dessa situação e que gostaria de ter evitado o suicídio e — em suas palavras — o assassinato. Teria feito de tudo, menos encarar o moralismo. Em nossa sociedade — assim como no conto bíblico de Adão e Eva — aquele que comete suicídio ou aborto deve estar preparado para lidar com as consequências da expulsão do Jardim do Éden. O último caso abordado no ensaio é sobre a história de um guarda afastado que, por uma questão de idade, não conseguiu incorporar-se às Forças Armadas. O despossuído tentou adentrar na área de administração civil, mas não obteve sucesso. Diante do desemprego e da dificuldade de manter a si e a sua família —