A sanfona iluminada de Dominguinhos

Músico pernambucano, cuja morte completa 10 anos em 2023, foi um dos mais importantes compositores da América Latina Por Norberto Liberator Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Linda é a luta

Educadora, mulher trans e vereadora mais votada de Aracaju, Linda Brasil conversou com a Badaró sobre sua trajetória, militância política e a situação das pessoas LGBTQIA+ no Brasil Por Carolina de Mendonça e Norberto Liberator Ilustrações por Marina Duarte Naquele primeiro semestre de 2013, o debate sobre questões de gênero e minorias sexuais, que até então engatinhava no Brasil, começava a dar seus primeiros passos de pé. Corria o terceiro ano do mandato da primeira mulher eleita presidenta do Brasil. A petista Dilma Rousseff saíra vitoriosa, em 2010, a despeito de campanhas de fake news que a relacionavam a um suposto “lobby gay”, o qual teria como ponta de lança um tal “kit gay” que, segundo os acusadores, levaria crianças a “se tornarem” homossexuais. A campanha do tucano José Serra, no segundo turno daquela eleição, acenou aos setores mais reacionários da sociedade e incluiu, em seu horário eleitoral, uma fala do pastor Silas Malafaia, que à época se destacava como um ferrenho opositor dos direitos LGBTQIA+. Viralizavam, no Orkut e em caixas de e-mail, conteúdos que acusavam Dilma Rousseff, o PT e o então deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) de trabalhar em prol da “destruição da família tradicional”. Para acalmar o eleitorado conservador, sobretudo evangélico, Dilma buscou — e recebeu — apoio de figuras como o pastor e então deputado federal Robson Rodovalho, líder da Igreja Sara Nossa Terra; do então senador Magno Malta, pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (mesma denominação de Malafaia); e de representantes da Igreja Universal do Reino de Deus, como o bispo Edir Macedo e o então senador Marcelo Crivella. A então candidata se comprometeu em defender os tais “valores cristãos” e abriu mão de pautas como a legalização do aborto. No governo, em 2011, criticou o conteúdo do kit anti-homofobia, material didático sobre preconceito contra pessoas LGBTQIA+, apelidado de “kit gay” até mesmo por meios “sérios” como a revista Veja, e que não chegou a circular. Em 2012, a presidenta deu a Crivella o Ministério da Pesca. Já em 2013, devido a um conchavo governista com setores evangélicos reacionários, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados foi parar na chefia do pastor Marco Feliciano (PSC-SP), conhecido por declarações LGBTfóbicas, como a de que a Aids seria uma “doença gay”. Nesse momento, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) certamente não era a única hostil à presença de pessoas transgênero, ainda que as instituições de ensino superior públicas estivessem entre os poucos espaços onde os direitos desta população eram razoavelmente debatidos. No curso de Letras — Português/Francês, uma caloura teve seu nome social barrado. Para todos os fins oficiais, Linda Brasil de Azevedo Santos não existia. O que constaria nos registros seria seu nome morto, ou seja, a denominação masculina com a qual fora registrada ao nascer. “A única forma que eu tinha para usar meu nome social era em cada semestre falar com os professores para eles colocarem de lápis [na chamada]. Uma média de sete, oito professores por semestre, mas como era muito importante, para mim, cursar o nível superior, eu acabei topando”, afirma Linda à Badaró. A acadêmica não desistiu, conseguiu utilizar o nome social em seu cadastro e, de quebra, fez a universidade mudar sua norma interna. “O terceiro professor, quando eu fui conversar sobre o nome social, não estava preparado para lidar com essa situação e falou bem alto: ‘como é que eu vou usar seu nome se seu nome é esse aqui? Se vire, vá lá no departamento de letras e no DAA [Departamento de Administração Acadêmica] e veja lá com eles, não é comigo não’. Ele falou bem alto o meu nome de registro, uma coisa que me constrangeu muito”, conta. Linda recorreu a um processo administrativo na universidade e relatou o ocorrido em uma rede social. Sua publicação viralizou e recebeu apoio de pessoas e entidades da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Ministério Público de Sergipe (MP-SE). O processo interno se tornou a portaria nº 2209, que regulamenta o uso de nome social de pessoas transexuais e travestis. Linda Brasil se tornou também a primeira mulher trans a se formar pela UFS. Devido a sua militância, Linda foi convidada a se filiar ao PSOL. “Comecei a me envolver no Movimento Estudantil, conheci algumas meninas que militam no Coletivo de Mulheres de Aracaju, a gente começou a organizar vários atos. Nesses atos, eu comecei a pensar uma nova forma de fazer política”. Ela explica que, até então, tinha ojeriza à política partidária. “Sou de Santa Rosa de Lima, berço do coronelismo e de indicação, de quem vem desses conchavos políticos. Mas vendo ações dessas meninas do coletivo, da mulherada fazendo ato nas ruas, denunciando esse sistema opressor, comecei a repensar a possibilidade”. Linda Brasil foi uma das criadoras do coletivo AmoSerTrans, ONG que promove educação sobre transexualidade e travestilidade. Em 2018, ajudou a criar a CasAmor, espaço de acolhimento e profissionalização a pessoas LGBT em situação de vulnerabilidade, que também funciona como centro cultural com realização de bazares, shows e eventos de cunho científico/informativo. A CasAmor surgiu em 2017, motivada, nas palavras de Linda, “por outras iniciativas no Brasil como a Casa1 em São Paulo e a Casa Nem no Rio de Janeiro”. Ela nos explicou a importância de um espaço dedicado não apenas ao acolhimento, mas à produção cultural. “Sempre tive vontade de fazer um local que não só acolhesse as pessoas e ajudasse em questões, principalmente quando vivem em situação de rua, de vulnerabilidade social, mas também que envolvesse a parte artística. A arte LGBT é uma arte muito forte, é uma forma que nós da comunidade tentamos extravasar todo esse sofrimento, superar nossas dificuldades”. A parlamentar eleita contou também que o objetivo inicial era diferente, mas que a iniciativa foi naturalmente tomando a forma atual. “Em 2017, eu tinha uma casa no Inácio (Barbosa, bairro da zona sul de Aracaju) e pensei em fazer algo lá, mas não sabia como. Um amigo meu que
Entre o desprezo e o fetiche: como sofre meu Nordeste
Embora o preconceito contra o Nordeste seja muitas vezes explícito, ele pode se manifestar de forma sutil: o desdém também se dá na exaltação exacerbada Por Carolina de MendonçaArte por Fábio Faria A vida aqui só é ruim,Quando não chove no chão,Mas se chover dá de tudo,Fartura tem de porção. (Último Pau-de-Arara – Fagner) O Nordeste conta com nove estados (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia). Por sua enorme extensão e população, a região dificilmente pode ser uniformizada, mesmo de forma didática, sem que isso gere perdas grandes para a compreensão dela. Contudo, de forma frequente se resume o Nordeste em dois: a “terra miserável” e o “lugar exótico”. A carência constantemente associada à região se dá por conta de um dos biomas presentes no território, a Caatinga (termo derivado do Tupi significa Mata Branca), região dividida em Agreste e Sertão, que é associada à seca. Apesar da aparência infrutífera da região, a Caatinga é riquíssima em biodiversidade, contando com várias espécies de plantas xerófilas. Muitas dessas perdem as folhas em período de estiagem e, nos períodos chuvosos, se enchem em folhas e flores. A miséria presente no Nordeste é histórica e não biológica. A região foi a primeira a sofrer com a colonização portuguesa e todas as mazelas que esta trouxe. O extrativismo predatório do Pau-Brasil na Mata Atlântica iniciou a devastação desse bioma. atualmente restam apenas 12,4% da mata nativa) e escravizou a população indígena que vivia na região. O solo de Massapé, típico do litoral nordestino, foi explorado para a agricultura de cana-de-açúcar. O ciclo econômico da cana durou séculos e enriqueceu Portugal. No Nordeste isso se reflete com a fundação de diversas cidades. Também se iniciaram as grandes propriedades de terra pertencentes a famílias previamente escolhidas pela Coroa portuguesa. Nas cidades se esbanjava ouro nas construções em estilo barroco e rococó, como em Salvador (atualmente Bahia) e São Cristóvão (atualmente Sergipe), especialmente em lugares voltados ao catolicismo, enquanto a população originária era jogada para o interior do país e se traficavam humanos do continente africano para trabalho forçado nas plantações. O poeta barroco Gregório de Matos descreveu, em sua poesia “À Cidade Da Bahia”, a miséria e a riqueza do estado no século XVII. Em 1972, o músico Caetano Veloso cantou trechos da poesia na faixa “Triste Bahia” do álbum “Transa”. Mesmo com séculos de diferença, as antíteses da sociedade baiana permanecem. Com tantas contradições, a região também foi palco de diversos movimentos de resistência, como Confederação dos Cariris, Quilombo dos Palmares, Cabanada, Revolta dos Malês, Balaiada e Revolução Praieira, protagonizadas principalmente por indígenas e negros que tiveram seu direito à terra, seus cultos religiosos e até mesmo a liberdade de ir e vir negados. No início da República brasileira, houve uma das mais intrigantes lutas: a guerra na aldeia de Canudos. Antônio Conselheiro chegou ao arraial de Canudos, no sertão da Bahia, um lugar paupérrimo em meio a latifúndio iniciou pregações contrárias ao modelo político vigente e, com promessas de libertação por meio da religião, instigou o não pagamento de impostos e a criação de uma comunidade autossustentável. O líder religioso e político deu novo nome ao local e “Arraial de Belo Monte” se tornou uma comunidade igualitária onde a população, até então miserável, passou a não sofrer com a fome. Devido a isto, Antônio Conselheiro tornou-se inimigo dos latifundiários locais e da República, o que fez eclodir uma guerra. A Guerra de Canudos foi sangrenta. O Exército brasileiro foi enviado para exterminar o arraial. Contudo, a população de Canudos resistiu bravamente a três de quatro expedições enviadas pelo governo. Só na última, com contingente reforçado, foi que as Forças Armadas republicanas conseguiram cumprir o genocídio encomendado. O jornalista fluminense Euclides da Cunha, enviado para realizar a cobertura do conflito, narra em seu livro “Os Sertões” (1902) a terra, o homem e a luta. O escritor afirma que, por conta do ambiente vivido, “o sertanejo é antes de tudo um forte”. É inegável a força da população do interior nordestino, mas esta vem como forma a sobreviver às injustiças sociais que massacram cotidianamente esse povo. O lugar onde houve o conflito foi inundado durante a ditadura militar, reprimindo uma memória coletiva de luta por dignidade. Ironicamente, um povo que morreu, dentre as problemáticas, de sede, tem sua história afogada. Sede ainda é um grande problema na região,que tem os piores índices de abastecimento de água do Brasil. A miséria é um projeto político. Durante a pandemia foi votado um projeto que privatiza a água no território nacional, o que piorará a situação dos que já têm esse direito básico negado. Em consequência dessas negligências, o Nordeste tem um histórico de emigrações alto. A população sertaneja foi proletária nas primeiras indústrias no Sudeste, participou do extrativismo de látex no Norte, construiu Brasília no Centro-Oeste e foi negada ao direito de viver na cidade. A população que fugiu da miséria encontrou no subemprego uma forma de sobreviver em um lugar ao qual não pertencia, por muitas vezes sem familiares. De tão cotidiana, a emigração é comum na arte produzida pela população do Nordeste. A escritora ucraniana naturalizada como pernambucana Clarice Lispector conta, em “A Hora da Estrela” (1977), a história de uma alagoana que vive no Rio de Janeiro. O músico Luiz Gonzaga tem diversas composições sobre o tema, como a música “Asa Branca” (1947). O diretor Marcelo Gomes em “Cinema, Aspirinas e Urubus” conta a história de dois homens que fogem dos horrores de sua terra, do nazismo e da seca. O desprezo para com a região foi amenizado apenas durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 – 2010), o qual assinou projetos como o Bolsa Família, que garante distribuição de renda. Atualmente, em seis estados da região, o número de beneficiários do programa supera o de trabalhadores formais. A necessidade de programas assistenciais gera constantes ataques xenofóbicos para com a região, especialmente em épocas de eleições presidenciais, nas quais o Nordeste costuma ter predomínio
