O que são retomadas indígenas e por que elas ocorrem em MS

Entre descaso e violência, guarani-kaiowá reivindicam terras que ocupam apenas 3% de MS, mas hoje estão tomadas por monocultivos de grãos e gado Por Melissa Aguiar, Mylena Fraiha e Norberto Liberator Barracos de lona, chão de terra batida e famílias vivendo em condições precárias, sem acesso regular à água potável, alimentação adequada ou saúde. Homens armados vigiam de perto, o que aumenta o clima de tensão. O cenário lembra um campo de refugiados na Faixa de Gaza, mas, na verdade, é uma realidade brasileira: as retomadas guarani-kaiowá, em meio aos vastos monocultivos de grãos e gado de Mato Grosso do Sul. Nesta região, o coração do “velho oeste brasileiro”, a produção de soja, milho, gado e celulose não serve para alimentar os moradores locais, mas é destinada à exportação. Enquanto isso, há décadas, nesse mesmo território, o sangue de gerações de guarani-kaiowá marca a violência com que o agronegócio se impõe na região Centro-Oeste do país. Nomes como Marçal de Souza, Marcos Verón, Dorvalino Rocha, Estela Vera e, mais recentemente, Neri Ramos, estão entre aqueles que tombaram por reivindicar o direito de existir com dignidade e orgulho de ser indígena. Esse sangue é derramado em uma luta que clama pelo básico: o direito de ser, viver e existir em seu próprio território, o tekohá. Em Guarani, tekohá é o termo utilizado para se referir aos territórios. Tekohá significa muito mais do que simplesmente terra. O prefixo teko representa as normas e costumes da comunidade, enquanto o sufixo ha tem a conotação de lugar. Ou seja, o tekohá é o lugar físico – incluindo terra, floresta, campos, cursos de água, plantas e remédios – onde o modo de vida dos povos indígenas guarani e kaiowá se desenvolve. A terra é uma extensão dos povos indígenas e sua fonte de vida. Eles nascem, crescem, plantam, vivem e morrem nessa mesma terra. Entretanto, o direito de ser e existir em seu território tem sido negado há anos, tanto pelo Estado quanto pelos fazendeiros que herdaram terras que, em algum momento, foram tomadas dos antepassados guarani-kaiowá. Já as retomadas são áreas consideradas tekohá – territórios ancestrais – pelos indígenas sul-mato-grossenses e, por isso, ocupadas por eles para pressionar o governo brasileiro a promover a demarcação prevista na Constituição. Algumas dessas retomadas podem reivindicar partes de um mesmo território indígena, como ocorre com as diversas retomadas na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, na região de Douradina (MS). Em agosto de 2024, três novas áreas foram reocupadas pelos indígenas: Yvy Ajherê, Kurupa’yty e Pikyxyin. Com essas retomadas recentes, são, ao todo, sete áreas ocupadas pelos guarani-kaiowá na TI, sendo a primeira retomada realizada em 2010. E essa mesma região tornou-se o epicentro dos mais recentes conflitos entre indígenas e fazendeiros. No dia 3 de agosto de 2024, mais de dez indígenas ficaram feridos, alguns gravemente, depois de ataques de homens armados a retomadas da região. A terra de Panambi – Lagoa Rica foi delimitada em 2011, mas nunca chegou a ser demarcada. Os Guarani resolveram, portanto, tomar a iniciativa e pressionar pela conclusão do processo. Em resposta, jagunços e funcionários de fazendeiros que se opõem à retomada, decidiu montar seus próprios acampamentos para atacar os indígenas e expulsá-los a área. Naquele final de mês, cerca de 18 agentes da Força Nacional estavam em Douradina (MS), a 192 quilômetros de Campo Grande, para evitar o ataque dos produtores rurais aos indígenas. Esse foi apenas um dos exemplos de violência que se estende para outras áreas de retomada em Mato Grosso do Sul. Além disso, a violência também se manifesta na forma de descaso. Alguns indígenas que vivem nesses locais sofrem com a falta do básico, como moradia e água potável. A água que bebem, muitas vezes, é envenenada pelos agrotóxicos das lavouras, especialmente aqueles que são pulverizados de forma proposital. O veneno é usado como arma química para expulsar os indígenas de suas terras. Em outras situações, onde a violência é ainda mais escancarada, tiros de balas de borracha e armas de fogo são disparados, e barracos são derrubados por tratores modificados que se tornam “caveirões”. Há também casos em que os fazendeiros pedem à Justiça a reintegração de posse, e é aí que surge outra faceta da violência do Estado contra os guarani-kaiowá, com o uso de seu braço mais violento: a Polícia Militar. Além de enfrentar a violência, o preconceito e o desconhecimento de sua luta, boa parte da população urbana e não-indígena acaba reiterando o velho estereótipo de “invasores de terras”, quando, na verdade, as vítimas do roubo de terra são os povos indígenas. Por isso, o termo correto é “retomada”, pois refere-se ao ato de “tomar de volta” as terras que originalmente pertenciam aos povos indígenas e foram invadidas por fazendeiros, especialmente durante a expansão agropecuária e o ciclo da erva-mate no Centro-Oeste brasileiro, que teve início no século XVII e se estendeu até o século XX. Alguns historiadores também apontam que esse processo de expropriação iniciou-se no período pós-Guerra do Paraguai, com frentes econômicas que impactaram profundamente os territórios indígenas. Uma das primeiras e mais significativas foi a exploração da erva-mate, liderada pela Companhia Mate Laranjeira. Historiadores indicam que o “ciclo da erva-mate” começou oficialmente em 1882, quando Thomaz Laranjeira obteve concessão para explorar vastas áreas de terras devolutas na fronteira com o Paraguai, hoje parte de Mato Grosso do Sul. Hoje, essas terras pertencem a clãs políticos de Mato Grosso do Sul que, coincidentemente, também são as tradicionais famílias latifundiárias. Além disso, outra parte delas está nas mãos de arrendatários de terras indígenas, que frequentemente constroem suas fábricas e lavouras no interior do estado. Diante da lentidão e omissão do Estado brasileiro, os guarani-kaiowá arriscam suas vidas para retomar o que é seu. E, por incrível que pareça, o que eles pedem não é muito. De acordo com o mapa de terras indígenas do Instituto Socioambiental (ISA), Mato Grosso do Sul possui 68 terras indígenas identificadas, que correspondem a 902.881,29 hectares – apenas 3% do território total do estado. Ainda segundo o ISA, há apenas
Jean Ferreira tranquiliza eleitores em nota sobre prestação de contas

Jean foi eleito com 3.768 votos para mandato na capital sul-mato-grossense Por Norberto Liberator O vereador Jean Ferreira (PT), eleito em Campo Grande durante o pleito deste ano, publicou uma nota para esclarecer a sociedade sobre a decisão judicial a respeito de sua prestação de contas, ocorrida devido a uma falha técnica. O juiz Marcelo Andrade Campos Silva, da 44ª Zona Eleitoral de Campo Grande, alegou que Jean não havia declarado, no registro da candidatura, os recursos que o próprio candidato doou para a campanha. No entanto, o magistrado confirma que Jean comprovou a origem de todos os valores. Jean foi eleito para ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Campo Grande com 3.768 votos, sendo o primeiro vereador abertamente LGBT+ de Campo Grande. Sua campanha contou com apoios de figuras políticas de grande relevância nacional, como Duda Salabert e Erika Hilton, além de artistas, como a cantora Marina Sena. Leia na íntegra a nota do parlamentar eleito: Na última semana, fui surpreendido por uma decisão judicial com relação aos recursos utilizados durante minha campanha. O próprio juiz deixou claro, no entanto, que comprovei a origem de todos os valores. Fui eleito com quase 4 mil votos para representar a juventude e a renovação na Câmara dos Vereadores de Campo Grande, a partir do meu compromisso daqueles e daquelas que lutam pelo fim das desigualdades, que defendem o direito à cidade e a justiça climática. Todos os recursos utilizados durante a campanha foram declarados e o juiz reconhece a origem lícita e a transparência da doação feita por recursos próprios, que foi questionada na prestação de contas. O entendimento judicial se deu por motivos formais. Ou seja, um erro técnico da equipe financeira que já foi esclarecido pela equipe de advogados da campanha. Confiante na eficácia e na eficiência da Justiça Eleitoral, tenho certeza de que o recurso será deferido e as contas serão aprovadas. Dito isto, os 3.768 campo-grandenses que me escolheram para representá-los como vereador na Capital podem ficar tranquilos e seguros, porque terão um vereador combativo e disposto na casa de leis a partir de 2025. Jean Ferreira Instagram Twitter Youtube Tiktok
O impacto dos incêndios sobre comunidades tradicionais pantaneiras

Para compreender de perto as demandas das comunidades tradicionais e debater soluções, a deputada Gleice Jane iniciou viagem de barco pelo Pantanal e propôs a realização de audiência pública Instagram Twitter Youtube Tiktok
Badaró convida: Franklin Schmalz

Vereador eleito pelo PT de Dourados estreia novo projeto de entrevistas em audiovisual Entrevista: Norberto LiberatorImagens e edição de vídeo: Maurício Costa Jr. Em novo formato de entrevistas em vídeo, a Revista Badaró recebe o vereador recém-eleito por Dourados e primeiro parlamentar declaradamente LGBT+ do município, Franklin Schmalz. O petista falou sobre sua eleição, trajetória política, perspectivas para o mandato e para a esquerda no Brasil. A entrevista pode ser assistida pelo vídeo, que está em nosso canal com legendas disponíveis, ou lida na íntegra logo abaixo do material. Norberto: Você é o primeiro vereador eleito em Dourados que se declara LGBT. Em Campo Grande nós tivemos também a eleição do Jean Ferreira, pelo mesmo partido, levantando essa bandeira. Você considera que a eleição de dois vereadores homossexuais, com um eleitorado muito forte entre a juventude e os dois principais municípios do estado,revele uma mudança geracional no estado conservador, como Mato Grosso do Sul? Franklin: Eu acredito que sim, mas eu acredito que para a gente ter chegado nesse espaço, a gente teve um acúmulo de lutas, posso falar pela experiência talvez do Jean também, mas mais da minha, de uma construção mais ampla para além tanto da comunidade LGBT quanto da pauta. Porque eu acho que não seria suficiente, eleitoralmente falando, chegar nesse espaço, chegar nesse lugar, pelo menos em Dourados, sem ter uma plataforma de campanha mais ampla e uma atuação política mais ampla também. Porque não é só ser LGBT, é ser um LGBT que se considera socialista, ser um LGBT no Partido dos Trabalhadores, E aí, eu acho que Dourados é uma cidade muito mais provinciana ainda do que Campo Grande. A gente tem algumas características ainda mais de interior, então eu acho que o eleitorado é mais disputado nesse sentido. Então, eu não sei se é uma mudança geracional ou se é um conjunto de fatores. E aí, nesse caso, também um acúmulo de capital político. Eu costumo atribuir a última década. Porque eu acho que eu sou um quadro construído nesses últimos dez anos. Desde o movimento estudantil, a gente tem… Começou em 2013. O que o país passou nos últimos dez anos, assim, muitas coisas, muitos processos, jornadas de junho, o impeachment, o golpe contra a Dilma, governo Temer, governo Bolsonaro, a gente consegue depois derrotar o Bolsonaro nas urnas, enfim, todos esses processos serviram para me forjar também. E eu acho que eu acabo tendo esse resultado agora em Dourados como também uma consequência desse processo de luta. Então, eu não acho que é só geracional. Eu acho que talvez se fosse só juventude na política, se fosse só essa bandeira, se fosse só um cara LGBT que defende essa pauta, a gente não teria chegado lá. Ainda mais com o resultado expressivo, né? A segunda candidatura mais votada da cidade, enfim. Então, eu atribuo a um conjunto de fatores. E acho que é isso. Norberto: Você mencionou a sua trajetória, esses mais de 10 anos de caminhada, e você iniciou a militância política no PSOL. Quando você estava no PSOL, você foi um dos candidatos mais votados para vereador, mas não assumiu devido ao quociente eleitoral. A sua ida para o PT, por um lado, ela pode ser vista como uma atitude pragmática, por não ter mais chance de ser eleito, mas eu quero saber se você atribuiria, na verdade, a uma questão mais programática, já que o PSOL do Mato Grosso do Sul pouco tem a ver com aqueles quadros nacionais que são referências para a esquerda e tal. Franklin: Perfeito. Eu demorei para tomar essa decisão da migração partidária e eu vivi o PSOL intensamente durante sete anos de filiação e desde a minha entrada no PSOL eu fiz a disputa da estrutura partidária e a disputa do programa também. porque como o PT é um partido de tendências e infelizmente no Mato Grosso do Sul a gente vinha de um monopólio, digamos assim, da estrutura partidária num único grupo político já há mais de 15 anos. E nós demoramos até conseguir romper aquela hegemonia. Mas mesmo rompendo, quer dizer, sendo parte da direção e eu ocupei um cargo, enfim, tínhamos uma maioria, não foi suficiente. para conseguir inverter a lógica, digamos assim, porque a política do PSOL no Mato Grosso do Sul, a experiência que eu tive, era de golpe atrás de golpe, de sufocamento das nossas condições de fazer não só a disputa política eleitoral, mas também de atuar na militância. A minha primeira candidatura em 2020 foi uma candidatura muito rebelde, porque a direção do partido não queria aceitar e eu não recebi um real do fundo eleitoral. O presidente do partido na época entrou na justiça para derrubar a nossa convenção. Então, foi sempre assim. Sempre fazendo uma disputa interna muito acirrada. E eu não sou contra a disputa interna, pelo contrário. Eu tenho plena consciência de que no PT também existe essa disputa. Ela é saudável, mas no PSOL o clientelismo também, a conveniência uma completa falta de critério na hora de aproximar pessoas, de aproximar candidaturas, fazia, parece que com todo o nosso esforço, ele era um esforço no final em vão, ou então desgastava muito. Não fui o primeiro que entrei no PSOL tentando fazer também essa mudança no estado. Várias outras pessoas tinham tentado antes. E eu, num determinado momento, que foi em 2023, Depois de ter passado pelo meu terceiro congresso partidário, eu fiz a avaliação de qual batalha que eu ia travar dali pra frente. Já existia uma relação muito saudável com os companheiros do PT, que foi construída na luta mesmo, na rua, nos protestos, enfim, no movimento sindical. Então, existe um terreno fértil também para essa minha ida ao PT, por respeitar também muitas pessoas, sobretudo de Dourados mesmo. Então, eu acho que é um conjunto de dois fatores, né? As condições do PSOL, não só as eleitorais, mas as condições de construção mesmo, e também de aplicação desse programa que você falou das lideranças nacionais.
É crime pedir voto em templos, como fez prefeita em igreja denunciada

Evento de Adriane Lopes com “celebridades” da extrema direita fere legislação eleitoral e foi realizado em igreja envolvida em escândalos Por Norberto LiberatorArte: Vitória Regina A legislação proíbe a realização de propaganda eleitoral em bens de uso comum, como é o caso de templos religiosos. A regra está no artigo 37 da Lei das Eleições (n° 9.504/1997). A proibição se estende à campanha eleitoral em clubes, cinemas, lojas, escolas, centros comerciais e estádios, mesmo que sejam de propriedade privada. Neste sentido, a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), cometeu crime eleitoral ao realizar o evento “Mulheres que Transformam”, com a presença de expoentes da extrema direita como Michelle Bolsonaro, Damares Alves, Celina Leão e Tereza Cristina. O evento ocorreu na igreja Aliançados Arena, localizada no centro de Campo Grande. Não é a primeira vez que a Aliançados se vê diante de uma inconformidade com a lei. A igreja onde Adriane cometeu crime eleitoral enfrenta acusações de assédio moral, abuso financeiro, corrupção, golpes milionários em compra de terrenos e outros crimes. O líder da igreja, autodenominado Apóstolo Denilson Fonseca, enfrenta (entre outros) um processo por parte do ex-pastor Paulo Cesar Lemos, que o acusa de enriquecer ilicitamente, quebrar contratos, não cumprir com direitos trabalhistas e praticar humilhação e constrangimento contra pastores e funcionários. Já Adriane Lopes é investigada por improbidade administrativa pela chamada “folha secreta”, o pagamento de salários exorbitantes a servidores comissionados da Prefeitura. São verbas sem previsão legal e não declaradas no Diário Oficial ou Portal da Transparência. De acordo com a vereadora Luiza Ribeiro (PT), que pediu investigação ao MP, a “farra” da prefeita pode ter custado meio bilhão de reais aos cofres públicos. Instagram Twitter Youtube Tiktok
