Ghassan Kanafani, a caneta explosiva da Palestina

Assassinado há 50 anos, militante palestino levou causa de seu povo ao mundo por meio da arte e literatura Por Norberto Liberator Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Twitter Youtube Facebook Instagram

Angola: uma tragédia com atuação brasileira

Em abril de 2002, chegava ao fim a Guerra Civil Angolana, conflito que teve participação do Brasil e das principais potências da Guerra Fria Por Norberto LiberatorColaboraram Mylena Fraiha e Guilherme Correia A ancestralidade e a guerra Gabriel Ambrósio nasceu e cresceu em meio aos anos de guerra. Natural da província do Zaire, é licenciado em Letras pela PUC Goiás, mestre em Estudos de Linguagens pela UFMS e autor do livro “Áfricas Ocultas”, no qual explora aspectos sócio-religiosos tradicionais africanos e como eles impactam a história do continente. Ambrósio conversou com a Badaró sobre o conflito em Angola, sua influência sobre a produção literária do país e seus efeitos nos dias atuais. O pesquisador explica que, durante a Guerra Anticolonial – travada contra Portugal e que se antecipou ao conflito civil –, a religiosidade e a ligação com a ancestralidade foram centrais para os movimentos de libertação. “Havia a crença de que as balas que vinham das tropas opostas às de Portugal não poderiam matar os nativos. As pessoas tinham fé na espiritualidade africana. De que a sua força ancestral os protegeria. E claro, houve contextos em que foram protegidos, nas guerras, principalmente no começo, onde eles não tinham armamento”. Para Ambrósio, a espiritualidade dos guerrilheiros angolanos os incentivou a travar sua luta, já que se encontravam em desvantagem em relação ao poderio militar. “Em Angola, começou com pedaço de pau, punhal e facões. Foram esses os instrumentos usados para começar a atacar os portugueses nas fazendas, principalmente no norte – Cassanje, Malanje, Mbongo”, explica. Ele também destaca o papel que os idiomas locais e os códigos de escrita tiveram na resistência ao colonialismo. “A língua portuguesa era fácil de ser decodificada. Hoje, nós temos alguns jovens que não têm nem um pouco de noção sobre as línguas africanas faladas em Angola, mas no passado antigo, combatentes tinham domínio de uma, duas, três, quatro ou mais línguas nativas. Do ponto de vista linguístico, tem pouco mais de 30 línguas em Angola”. Ambrósio explica que essas línguas costumavam ser utilizadas como forma de driblar o controle português, já que os colonizadores não as dominavam. “Me recordo que as forças tinham um código de escrita que usava oralidade, mas também uma escrita que não era oficial, ou seja, os termos eram codificados e isso circulava no centro da cidade – na capital, Luanda –, onde havia o governo geral de Angola e portugueses”.  Gabriel afirma que os portugueses “não conseguiram decodificar como eram escritas e quais mensagens eram aquelas”. O professor lembra que essas passagens fazem parte da historiografia oficial do país. “Isso está registrado na história de Angola. Para ver como foram importantes as línguas africanas, a sua oralidade e a sua espiritualidade”. O pesquisador acredita que tais tradições têm se perdido e lamenta que, diante da globalização capitalista, o continente africano esteja atualmente entregue ao neoliberalismo e, politicamente, haja pouco espaço para a busca por uma identidade própria. “O que tem acontecido hoje, inclusive, pelos próprios países africanos, do ponto de vista geral e em particular em Angola, é a agenda ocidental. Não temos uma agenda que é africana, uma agenda que os países africanos seguem”, conclui. A outra guerra angolana: Cabinda Paralelamente à guerra civil que opôs o MPLA à Unita e à FNLA, uma região vivia um conflito separatista contra forças angolanas. Trata-se de Cabinda, província localizada entre os dois Congos – Congo Brazzaville e Congo Democrático –, fora do território de Angola. A região convive ainda hoje com movimentos armados que lutam por independência. O principal grupo é a Frente para Libertação do Enclave de Cabinda (Flec). Durante o ano de 2022, as Forças Armadas Cabindesas (FAC), braço armado da Flec, e as Forças Armadas Angolanas travaram algumas batalhas. No dia 11 de abril, houve confrontos nos povoados de Kisungo e Tando Masele, no município de Belize. Angola vai às urnas em agosto e os independentistas pedem à população que boicotem o pleito. Gabriel Ambrósio aponta que as FAC já existiam e tinham força nos anos 70 do século XX. “Os cabindas desde os anos anteriores a 1975, quando se decretou independência, já tinham praticamente um exército. Esse exército, até hoje, ainda existe. Têm havido algumas integrações, mas não são suficientes para agradar a todos”, afirma. “Cabinda não teve paz do ponto de vista do calar das armas”.  O professor acredita que, embora ainda haja a crença em libertação por parte de alguns militantes separatistas, o que mais influencia os grupos por independência é o desejo por autonomia econômica. “Existem aqueles que são mais presentes, não querem desvincular de suas ideias, mas também a questão territorial e principalmente do ponto de vista econômico. Cabinda é uma região econômica muito forte. Lá tem muita riqueza. Petróleo e madeira”. Caminhos e descaminhos do MPLA O MPLA abandonou sua orientação marxista em 1990, durante a profunda crise econômica e política nos países do Leste Europeu, então socialistas e governados por partidos teoricamente marxistas. A decisão foi tomada durante o congresso do partido naquele ano (VIDAL, 2016). Definiu-se, então, que Angola adotaria um sistema “multipartidarista” na política e “de mercado” na economia. No ano seguinte, a já desintegrada União Soviética deixaria de existir. Gabriel Ambrósio destaca o papel central do partido no aparelhamento das instituições. “Quando a gente fala da política de Angola, a gente está falando exatamente do MPLA, já que o partido está no poder desde a independência do país”. Para ele, quando o MPLA ainda exalta a simbologia e o discurso marxistas, “trata-se de um marxismo falacioso, porque ele não se dá na prática. Alguns jornalistas que acompanho, de anos anteriores e, especificamente, de jornais privados, diziam que o MPLA  havia traído a si próprio”. José Eduardo dos Santos permaneceu no poder até 2017. Foram 38 anos de governo. “Zé Du” foi acusado de enriquecer a partir da corrupção e às custas dos baixos indicadores sociais da população. Sua filha, Isabel dos Santos, chegou a ser considerada, pela revista estadunidense Forbes, a mulher mais rica da África

Vigotski entre disputas e filtros ideológicos

Não podemos manter a reprodução de obras que passaram por um filtro ideológico norte-americano e que transformaram o pensamento de Vigotski em uma colcha de retalhos       Por Vitória Regina Colaborarou Leopoldo Neto e Norberto Liberator “(…) aliás, toda ciência seria supérflua se houvesse coincidência imediata entre a aparência e a essência das coisas (…)” (MARX, 2008, p. 1080).   O interesse central deste texto é apresentar as distorções presentes nas obras de Lev Semionovitch Vigotski traduzidas para o Ocidente. A fim de exemplificar tal problemática, analisaremos duas de suas principais obras: A formação social da mente e a A construção do pensamento e da linguagem. Os dois livros serviram como porta de entrada para os educadores e psicólogos na produção teórica de Vigotski. Todavia, há de se questionar qual apropriação foi realizada. Neste sentido, para compreendermos o que foi retirado da obra, o que foi distorcido e o por qual razão, devemos estar a par de quem foi Vigotski, o que o autor defendia e o qual era o contexto político do momento em que essas traduções chegaram à América. Em meados da década de 1980, em plena Guerra Fria, o autor bielorrusso começou ser traduzido para o Ocidente. As obras que chegaram ao continente americano foram, de modo geral, traduzidas do russo para o inglês e do inglês para o português. Entretanto, no movimento de tradução inglês-português partes importantes das obras foram deixadas de lado. Essas ‘’partes importantes’’, como se pode imaginar, foram a censura e a retirada de menções a Marx, Engels, Lênin e ao marxismo de maneira geral. As obras publicadas nos Estados Unidos – e que, posteriormente, serviriam de base para as publicações no Brasil – foram exaustivamente modificadas. A terra do Tio Sam teve como finalidade a assepsia teórica, política e ideológica do autor. O projeto era basicamente desvincular Vigotski do materialismo histórico-dialético, do marxismo, do compromisso com a União Soviética e da construção de uma nova sociedade. No entanto, antes de nos aprofundarmos sobre as problemáticas em nosso continente, é importante deixar registrado que Vigotski também teve alguns problemas na União Soviética. Algumas de suas obras só vieram a público décadas após sua morte, graças à troika – Alexander Romanovich Luria e Alexis Nikolaevich Leontiev – e por alguns outros alunos e alunas de Vigotski. Somente com a morte de Stalin, em 1953, com o degelo vagaroso e inseguro, A.N.Leontiev e A.R.Luria puderam empreender esforços para a publicação das obras adormecidas de seu colega. Segundo as recordações de René Zazzo, psicólogo francês, foi nesse período que A.N.Leontiev o procurou com a ideia de editar as obras de Vigotski no exterior. A.N.Leontiev partia do pressuposto de que os editores soviéticos poderiam seguir o exemplo e passar a editar as obras de seu conterrâneo, reabilitando assim o seu nome na psicologia soviética (PRESTES, 2010, p. 59). A intenção de Vigotski não era a de criar e de desenvolver mais uma abordagem dentre as centenas existentes no escopo da psicologia, mas construir uma psicologia geral que pudesse assumir seu caráter científico. A temática da crise na psicologia exposta por Vigotski, no entanto, não será abarcada neste texto. Quando trabalhamos com a teoria psicológica que Vigotski ajudou a construir, ou seja, a teoria histórico-cultural, devemos levar em consideração a importância da contextualização de toda e qualquer obra. Temos de considerar que as teorias são desenvolvidas conforme cada momento histórico permite, assim como compreender que o modo de produção e de reprodução da vida são importantes para a compreensão de tudo que é produzido. Sendo assim, para que possamos entender a totalidade teórica de Vigotski, temos de considerar que se trata de um pensador que viveu e que produziu intelectualmente em um modelo de sociedade calcado em um modo de produção e reprodução da vida que, por ora, não existe mais. Diferente do que se observa atualmente em alguns setores da psicologia, a teoria psicológica que Vigotski ajudou a desenvolver não tinha um caráter mercadológico, tampouco trabalhava para que os sujeitos se tornassem passivos ou se resumissem a uma deficiência, como pode ser lido neste texto publicado pela Revista Badaró sobre a Escola de Zagorsk e o trabalho dos psicólogos e educadores soviéticos em prol da emancipação humana. Vigotski foi, conforme também concorda Tuleski (2008), ‘’a expressão da luta dos homens para deixarem de ser o que são (p. 22)’’ Logo, qualquer tentativa de ‘’limpar’’ a teoria de Vigotski de suas posições político-ideológicas é vulgarizar o conhecimento e o arcabouço teórico-metodológico do autor. As traduções que chegaram ao Brasil até o final da década de 1990, são resultados de traduções realizadas diretamente de obras publicadas nos Estados Unidos e com toda fragmentação anteriormente mencionada. Contudo, algumas mudanças ocorreram a partir do início do século XXI, principalmente graças à Editora Martins Fontes, que passou a traduzir as obras diretamente do russo e em sua integralidade. Recentemente, a editora Expressão Popular também contribuiu para a disseminação de Vigotski, ao traduzir do russo a obra Imaginação e criação na infância. A obra vigotskiana passou a ser estudada nas universidades brasileiras entre as décadas de 1980 e 1990. Os livros A formação social da mente e Pensamento e Linguagem deram popularidade ao teórico nos cursos de Pedagogia e Psicologia. Entretanto, por motivos já expostos, o que se lê nessas primeiras publicações não são traduções literais, mas um apanhado das ideias centrais do autor. Diante das problemáticas envolvendo as traduções, bem como a popularização de Vigotski, compartilhamos do mesmo questionamento realizado por Tuleski (2008): O que de fato tem sido compreendido na teoria de Vygotski para estar tão em evidência na atualidade? Será que uma teoria, com base marxista e de cunho revolucionário, teria uma aceitação tão ampla, a ponto de institucionalizar-se nos currículos, se houvesse uma compreensão profunda do sentido histórico de seus conceitos? (TULESKI, 2008, p. 25). Os textos escritos pelo autor puderam ser lidos em português e na íntegra graças às traduções do espanhol e dos originais em russo. Sobre a retirada proposital de passagens ‘’polêmicas’’ ou menções