Badaró Convida: Leonardo Péricles

No Armazém do Campo de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, o presidente nacional da Unidade Popular pelo Socialismo fala sobre perspectivas, trabalho de base, avaliações sobre o governo Lula e eleições nos Estados Unidos, entre outros temas Entrevista: Norberto Liberator (roteiro e condução); Vitória Regina (roteiro)Imagens: Maurício Costa Júnior https://www.youtube.com/watch?v=Q64MkBavw7k&t Badaró: Passadas as eleições, uma das críticas que tem tomado as redes sociais é a de que a esquerda precisaria “se reconectar com as massas”. Em muitos casos, esse discurso parte para uma negação de pautas como gênero, diversidade e combate ao racismo. Você acha que o conservadorismo entre setores da própria esquerda pode enfraquecer um projeto de transformação radical da sociedade? Eu acho que as eleições, meus queridos, elas nos deram alguns recados importantes. Um deles, olhamos para a abstenção. os votos brancos e nulos que superam todos os segundos turnos no Brasil. Vou dar um exemplo. São Paulo. O candidato que venceu as eleições teve menos do que a somada abstenção voto branco e nulo. São mais de 3,6 milhões de pessoas só da maior cidade da América Latina que não concordaram com ninguém. Só uma coisa para pensar. E se somar no Brasil, que são milhões de pessoas no país que não acreditaram em ninguém. Olha, eu acho que nós estamos num momento de profunda reflexão dos caminhos a seguir. E, na Unidade Popular, o que nos parece é que, na verdade, muito daquilo que foi abandonado é o caminho a ser seguido. E eu faço referência aqui principalmente às pautas de gênero, raciais, enfim, o conjunto das pautas que a gente chama de opressões, elas não atrapalham a luta, pelo contrário, elas fortalecem a luta, mas desde que elas estejam conectadas à luta de classes. Para que a gente possa não se perder nas avaliações. Eu vi, por exemplo, gente que supostamente fala que luta contra o racismo, defender, por exemplo, a Kamala Harris e lamentá-la não ter vencido as eleições nos Estados Unidos. É não aprofundar na avaliação de entender que qualquer um dos dois que vencesse aquele processo eleitoral são partidos que continuariam a guerra, por exemplo, contra o povo palestino. E o que acontece contra o povo palestino é um caso de colonialismo e racismo. Então eu não posso ter uma avaliação seletiva de luta contra o racismo supostamente no lugar para e nego e fecho os olhos para o outro. Então devem estar conectados a pautas importantes relativas à luta de classe. Então faço essa referência, mas poderiam ter muitas outras, porque se a gente simplesmente somente considerar, por exemplo, a questão racial, Nós podemos, por exemplo, nos perder em apoiar o Sérgio Camargo, que era presidente da Fundação Palmares durante o governo Bolsonaro, um preto retinto, mas que serve para potencializar o racismo e toda a violência que o povo negro sofre, porque capitão do mato nós sempre tivemos na história. Essas pautas têm que ter uma conexão. E o trabalho popular, esse aí, nós não podemos deixar de fazer, sobretudo com a imensa maioria da população que é a classe trabalhadora da cidade do campo. Pegando sse gancho, já que você falou da eleição nos Estados Unidos, com o retorno do Trump à presidência, você acha que fica como a relação entre o Brasil e os Estados Unidos? E você acha que esse retorno dele fortalece a extrema-direita a nível Olha, eu. Acho que tende a ser o mesmo tipo de relação, que o centro dela é uma relação de submissão do nosso país aos Estados Unidos. Essa é a relação que eles têm conosco. E, infelizmente, Os governos, um atrás do outro, reforçam isso, mesmo alguns como o atual governo, que fazem um discurso aparentemente diferente, mas mantém essa dependência, uma vez que não rompe com questões fundamentais e centrais para que o nosso país possa ser independente. Eu estou falando aqui de a gente não ser um mero exportador de matéria-prima. E os Estados Unidos nos vê assim. E nenhuma das duas que disputavam centralmente a presidência dos Estados Unidos tinha qualquer outro compromisso que não esse, tratar o nosso país como quintal deles, como sempre fizeram. É um país imperialista e um dos maiores inimigos dos povos que nós temos hoje no mundo, o principal inimigo é os Estados Unidos. Do ponto de vista de reforçar a ação da extrema-direita, sem dúvida nenhuma, embora também com o próprio Biden, nós não tivemos tantas diferenças assim, a política internacional deles é uma política de guerra, uma política de apoio a golpes, de violência, enfim, aquele nome democrata, nós não podemos achar que aquilo realmente Trata-se do processo eleitoral, mas um dos processos eleitorais que tem fachada democrática mais antidemocrática que nós temos no mundo. Que é uma ditadura enorme dos grandes monopólios, dos grande capital e que fazem com que só dois partidos possam conseguir disputar a eleição. Existem vários, inclusive, outros candidatos à presidência da República, inclusive de esquerda, que não tem o menor espaço na grande mídia e nós sabemos que todo esse aparato institucional feito para impedir que haja uma real democracia popular está sendo feito no mundo inteiro. O neoliberalismo é uma das bases dele. É afastar as massas, a classe trabalhadora, os povos das decisões políticas e jogar esses setores a ultra exploração e opressão, esse é o plano do neoliberalismo e nos Estados Unidos isso é muito evidente. Agora, a articulação direta de Trump com forças reacionárias, antipovo, de orientação fascista, ele mesmo é um nazi fascista. inclusive com várias declarações que mostram isso. Então, a política que nós temos que seguir é o combate permanente ao imperialismo norte-americano, a solidariedade aos povos que eles estão massacrando, seja o povo palestino, seja a intervenção na Ucrânia, apoiam e todos os processos de, inclusive, de submissão econômica, e não só no caso aqui do nosso país, mas da América Latina e de outras partes do mundo, e nós precisamos fazer a luta, inclusive, em conexão com a classe trabalhadora e os

Badaró entrevista Leonardo Péricles, candidato à Presidência da República

Léo Péricles disputa as eleições presidenciais pela UP (Unidade Popular pelo Socialismo) Entrevista por Carolina de MendonçaArte por Marina DuarteColaboraram Guilherme Correia, Mylena Fraiha e Norberto Liberator 1929 foi um ano turbulento. Em meio à crise econômica mundial, as burguesias do mundo inteiro buscavam uma forma de barrar o “perigo vermelho”. A União Soviética era um dos únicos países a não ser atingidos pela quebra na Bolsa de Nova York, fato ressaltado por comunistas mundo afora.  No Brasil, o Partido Comunista elegeu dois intendentes (vereadores) no Rio de Janeiro: Octávio Brandão e Minervino de Oliveira. O PCB seria colocado na ilegalidade no final daquele ano, assim como a propagação do comunismo. Um duro golpe, já que haveria eleição presidencial no ano seguinte. No entanto, havia uma brecha na lei: não era preciso se candidatar por um partido político, sendo possível disputar o pleito a partir de um movimento social ou outro tipo de agremiação. A solução dos comunistas foi formar o Bloco Operário Camponês (BOC) para entrar na disputa. Assim, Minervino de Oliveira se tornou o primeiro candidato negro e proletário a se candidatar à Presidência da República. O Brasil teve, anteriormente, um presidente negro. Era Nilo Peçanha, que, no entanto, não pertencia e nem defendia os interesses da classe trabalhadora. Minervino teve 0,008% dos votos, em um pleito marcado por fraudes e com votos em voz alta, que deu vitória a Júlio Prestes por 59,39%. Ganhou, mas não levou: em outubro, o derrotado Getúlio Vargas liderou o golpe de Estado que o levaria a ficar 15 anos no poder. Foi 70 anos depois, nas eleições de 1989, que o Brasil voltou a ter um candidato negro. Era José Alcides de Oliveira, conhecido como Marronzinho, do Partido Social Progressista (PSP). Marronzinho, no entanto, era um populista de direita que se destacou em 1985, ao dirigir o jornal A Voz, panfleto conservador que espalhou notícias falsas a respeito de Fernando Henrique Cardoso, então candidato de uma ampla aliança progressista a prefeito de São Paulo contra o direitista Jânio Quadros. Marronzinho chegou a desafiar FHC “pra porrada”. Em 2022, pela primeira vez, uma chapa formada apenas por negros concorre à Presidência da República. A Unidade Popular pelo Socialismo (UP) lançou Leonardo Péricles Vieira Roque, morador de ocupação, liderança do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB – não confundir com outra sigla). Sua vice é Samara Martins, uma mulher negra. A Badaró bateu um papo com o candidato durante evento em São Cristóvão, Sergipe. Confira: Para iniciar, gostaria que contasse sobre sua trajetória na luta política: como você chegou à UP e, agora, à candidatura a presidente da República? Eu completei 22 anos de militância este ano, em janeiro. E ao falar um pouco da militância, quero falar um pouco da minha vida. Sou morador de periferia, a minha vida toda; sou filho da Dona Lourdes e do Seu Chico, minha mãe dona de casa, meu pai pintor de automóveis, que sempre trabalharam muito para que eu pudesse minimamente estudar. Eu fui fazer um curso, quando tinha 16 anos, no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), por indicação do meu pai, que falou assim: “você precisa fazer um curso para ter uma profissão”. Aí fui lá e consegui passar na prova.  Fui fazer o curso de mecânica de manutenção de máquinas e perdi meu pai quando eu estava com um mês de curso no Senai – mas morreu pelo menos feliz nessa parte. Eu me formei nesse curso de um ano e meio. Comecei a trabalhar na área, trabalhei algum tempo e juntei algum dinheiro, inclusive para fazer o curso de eletrônica que eu queria. E aí, fui fazer o curso de técnico em eletrônica numa escola particular que cobra mais barato à noite, uma escola filantrópica, porque não consegui passar na escola pública. E aí, fiz esse curso e não cheguei a trabalhar na área, trabalhei também com várias outras coisas. Antes e depois. Eu conheci o movimento estudantil pelo idos de 2000, quando eu fazia esse curso técnico, ingressei no movimento estudantil secundarista onde a gente lutou, principalmente pelo meio-passe dos estudantes no transporte público lá na minha cidade, que é Belo Horizonte, Minas Gerais.  A gente chegou a conquistar o meio-passe alguns anos depois da luta. Então foi uma luta vitoriosa, o primeiro contato que eu tive com a questão do transporte público. Entendo que era preciso estatizar, lutava naquela época pela estatização do sistema de transporte, porque o transporte é um negócio muito sério para ficar na mão do setor privado. Foi um caos agora na pandemia. Em muitas cidades, as pessoas não têm ônibus direito, não têm transporte direito. Ou seja, o direito de ir e vir de milhões de pessoas tá sendo tomado. Então, foi ali meu primeiro contato com essa questão. E fui também do movimento estudantil universitário. No secundarista, ainda fui presidente da Associação Metropolitana de Estudantes, lá da região metropolitana de BH, passei pelo movimento universitário, fui presidente do D.A. (Diretório Acadêmico) da minha escola da Biblioteconomia, curso que não cheguei a concluir.  Nesse período também me tornei diretor de universidades públicas da UNE (União Nacional dos Estudantes); depois, pelos idos de 2010, eu iniciei minha transição, a saída do movimento estudantil, e em 2011 eu fui ajudar na rearticulação no MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) em Minas Gerais. A nossa liderança principal tinha falecido em 2009, vítima de um câncer de mama, a companheira Eliana Silva – nome da ocupação que a gente fez, que é a que eu moro até hoje. Foi feita em abril de 2012, sofreu um despejo violento, foi rearticulada três meses depois. Foi despejada em maio, três meses depois fizemos outra e lá está. Completou 10 anos agora em agosto.  Em 2013 eu fui uma das lideranças das jornadas de junho que aconteceram no Brasil, quando vários setores populares, setores de todas as classes também tomaram as ruas e ali ficou nítido que havia uma crise de representação política, que