Entre mitos e resistências: uma conversa sobre a Coreia do Norte

Invasões, genocídio, revolução e especulações: o pesquisador Lucas Rubio falou à Badaró sobre a pouco conhecida história recente norte-coreana Entrevista por Vitória ReginaIntrodução e arte por Norberto Liberator Com justiça ou não, eleger heróis da pátria é direito dos que comandam uma nação. Douglas MacArthur, que liderou as tropas das Nações Unidas na Guerra da Coreia, é chamado de “general estadista” em seu país, os Estados Unidos da América. À parte de condecorações e outras honrarias, como o posto de herói nacional, MacArthur foi um criminoso de guerra responsável por um genocídio que, segundo seu comandado e também general Curtis LeMay, matou cerca de 20% da população da Coreia do Norte. A título de comparação, se considerarmos os 16,6 milhões de judeus que havia no mundo em 1939, o regime nazista matou cerca de 37% daquela população. Um leitor hipotético, condicionado a minimizar os crimes de guerra do imperialismo, poderia dizer: “mas é quase o dobro”. No entanto, a comoção não é só o dobro. Há dezenas de museus, centenas de obras cinematográficas e milhares de livros sobre as atrocidades nazistas, como não deveriam mesmo deixar de haver. Quantos sabiam, contudo, dos números sobre o massacre na Coreia? A memória coletiva norte-coreana, por motivos óbvios, nunca se esqueceu do holocausto praticado por aqueles que, menos de uma década antes, haviam se reunido para “solucionar conflitos através da diplomacia”. As tropas de MacArthur representavam não os Estados Unidos como nação, mas a ONU, afinal. Foram despejadas 635 mil toneladas de bomba em um território de 120,5 mil km². Uma média de 5,2 mil bombas por quilômetro quadrado. Dados do governo norte-coreano à época relatam a destruição de 5 mil escolas, mil hospitais e 600 mil residências. A República Popular Democrática da Coreia — conhecida por Coreia do Norte, Coreia Popular ou ainda pela sigla RPDC — também elegeu seus heróis. Kim Il Sung, que morreu em 1994, é o presidente eterno. A quantidade de estátuas e de outras prestações de homenagem estarrece a mídia hegemônica alinhada às potências ocidentais. Kim era um homem centralizador. O regime norte-coreano é altamente militarizado. Mas não há registro, nem mesmo desconfiança, de que os militares daquele país tenham ceifado as vidas de 20% da população de algum outro. Devemos reconhecer que há, sim, um regime no qual as crianças são doutrinadas desde cedo a declarar outros povos como inimigos e a exaltar aqueles que comandam seu país. Nas escolas, são obrigadas a jurar lealdade ao sistema político e econômico daquele lugar, que se declara representante de uma divindade na Terra. Ainda na fase de alfabetização, têm de fazer, com o braço esticado, uma promessa: “eu juro fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e ao que sua república representa; uma nação sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos”. Lucas Rubio, presidente do Centro de Estudos da Política Songun (Ceps), é um estudioso do processo revolucionário da Coreia do Norte, que traz outra perspectiva sobre o regime norte-coreano e a ideologia juche, a qual baseia a política do país. Você pode concordar ou não, pode achar que ele exagera ou não; de qualquer forma, vale a pena conhecer o outro lado da história e dar atenção a alguém que se dedica a estudar, com seriedade, uma realidade pouco conhecida, muito especulada e demasiado mistificada. Rubio, que esteve na Coreia Popular em 2018, fala sobre as invasões imperialistas na península coreana ao longo dos anos e sobre a Guerra da Coreia na década de 1950, bem como a reconstrução do país. A relação com a Coreia e outros países socialistas do Século XX também foi comentada, bem como temas que geram falsas polêmicas, como o mito da dinastia norte-coreana e o acesso à internet. Confira abaixo a entrevista na íntegra.  Vitória Regina: Antes da ameaça imperialista norte-americana, a Coreia foi anexada pelo Império Japonês e teve sua língua e sua cultura deixada de lado. Fale um pouco sobre essa ocupação japonesa e os movimentos de guerrilhas que surgiram como resistência.  Lucas Rubio: O Japão, com ânsia de se tornar uma potência regional e global, seguindo uma tendência de modernização interna, acabou por desenvolver desejos extremamente expansionistas na virada do século XIX para o XX. A Guerra Russo-Japonesa é um dos exemplos de como os japoneses ambicionavam se expandir na região. A Coreia foi o primeiro alvo de uma ação mais direta e prolongada.  Em 1910, foi invadida por tropas do Japão que lá iniciaram um regime colonial cruel de exploração econômica e humana. Além de roubar os ricos recursos minerais e agrícolas para alimentar as suas indústrias, os japoneses rapidamente obrigaram milhões de coreanos a trabalharem em regime escravo, para não contar o sequestro de milhares de jovens coreanas que foram enviadas como escravas sexuais dos soldados japoneses. Outras áreas do país também foram afetadas, como a cultura e História. Os japoneses pisaram sobre toda a cultura coreana, inclusive proibindo o uso da língua coreana nas escolas e obrigando o povo a mudar os seus nomes para nomes japoneses.  Diante desse cenário caótico de desastre nacional, surgiram vários movimentos de contestação, indo de mais moderados e liberais até movimentos revolucionários influenciados pelos comunistas russos. A família de Kim Il Sung, considerado hoje o fundador da Coreia moderna, estava inserida nisso. O seu pai, logo nos primeiros anos de fundação, havia organizado resistências contra os japoneses. Mas seria o próprio Kim Il Sung que daria um caráter mais bem articulado e efetivo para a luta anti-japonesa ao assumir um socialismo de caráter patriótico e adequado às características coreanas, o chamado Juche.  Ele também delineou que a luta deveria ser armada contra o ocupante fascista japonês e organizou um exército de guerrilhas que operou por muitos anos nas inóspitas montanhas e florestas do norte do da Coreia, na divisa com a China. Em vários momentos, havia contato entre esse exército insurgente coreano e também os revolucionários chineses e o Exército Vermelho da URSS.  Houve participação feminina no processo revolucionário?  Sim, desde o começo. Os revolucionários de Kim Il Sung centravam