Memórias da rebeldia: Damiana e a luta de Apyka’i

Cacica guarani-kaiowá liderou luta de sua comunidade pelo direito à terra Por Norberto Liberatôr Instagram Twitter Youtube Tiktok Clique aqui e conheça nossos planos de assinatura
Gleice Jane cobra explicações sobre violações em terras indígenas de Caarapó

Gleice Jane também indagou se houve requisição formal, por autoridade judiciária, para o emprego da força policial Da redação A deputada estadual Gleice Jane (PT) utilizou a sessão desta quarta-feira (24) da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul para cobrar explicações a respeito de casos de violência contra povos indígenas. A parlamentar apresentou requerimento de informações encaminhado ao Governo do Estado e à Secretaria de Estado de Segurança Pública, a respeito das supostas violações ocorridas na Terra Indígena Guyraroka e na retomada Guarani e Kaiowá de Porto Cambira (Passo Piraju), na Terra Indígena (TI) Dourados-Amambaipeguá III, em Caarapó (MS), nos dias 21, 22 e 23 de setembro. No último domingo (21), indígenas Guarani e Kaiowá ocuparam a Fazenda Ipuitã, situada dentro dos limites da Terra Indígena Guyraroka, em Caarapó, com o objetivo de impedir a dispersão de agrotóxicos em áreas de ocupação tradicional indígena. Já no dia 22, a retomada foi desalojada por ação da Tropa de Choque da Polícia Militar, em um suposto despejo sem fundamento judicial. “Importante mencionar que a área já foi declarada pela Funai como de ocupação tradicional e aguarda a conclusão do processo de homologação”, destacou a deputada Gleice Jane. Reprodução/Assessoria Na manhã de 23 de setembro, um novo episódio de violência foi registrado: a retomada Porto Cambira (Passo Piraju), localizada na TI Amambaipeguá III, foi alvo de uma operação policial marcada por bloqueio de acessos e disparos com munições letais e não letais contra indígenas, segundo registros amplamente divulgados nas redes sociais. Requerimento No documento, a parlamentar apresentou uma série de questionamentos, tais como: as ações policiais mencionadas estavam amparadas por ordem ou mandado judicial? Em caso afirmativo, qual o número do processo, o juízo competente, a data de emissão do mandado e as condições para a sua execução? Em não havendo mandado judicial que autorizasse a ação, de quem partiu a ordem para o despejo e a atuação policial, bem como sob qual fundamento legal e administrativo? Gleice Jane também indagou se houve requisição formal, por autoridade judiciária, para o emprego da força policial. “No caso de ter havido mandado judicial, qual a razão de não ter sido previamente apresentado ou lido à comunidade indígena antes do início da operação? A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi formalmente comunicada, consultada ou envolvida nas etapas preparatórias ou executivas das ações policiais? Precisamos, urgentemente, verificar essas informações”, concluiu a deputada. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Polícia de Riedel ataca indígenas duas vezes em menos de uma semana

Áreas de retomada foram despejadas sem ordem judicial nem presença da Funai Norberto Liberator (com informações do Cimi) Em menos de uma semana, o povo Guarani-Kaiowá sofreu dois episódios de violência e ações ilegais em Caarapó, Mato Grosso do Sul. Na segunda-feira (22/9), a Tropa de Choque da Polícia Militar atacou com balas de borracha a retomada na Fazenda Ipuitã, sobreposta à Terra Indígena (TI) Guyraroká, em um despejo sem ordem judicial que deixou ao menos dois indígenas feridos. Na terça-feira (23/9), o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), subordinado à Secretaria de Segurança Pública do governador Eduardo Riedel (PP), bloqueou os acessos à retomada Ñundi´a Ry Passo Piraju, na TI Dourados-Amambaipeguá III, em Porto Cambira, disparando contra os indígenas. A retomada na Fazenda Ipuitã começou no domingo (21/9), com os Guaranis-Kaiowás buscando impedir a pulverização de agrotóxicos e cobrar a demarcação da área. Apesar de solicitarem a presença da Funai, não houve resposta. Um acordo para retirada de pertences de funcionários da fazenda estava em negociação quando a Tropa de Choque interveio. Uma das vítimas, que preferiu anonimato por segurança, afirmou ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que a comunidade “deixou o caminhão entrar e a tropa veio com tudo”. O coordenador da Funai em Dourados, Cris Tupan, justificou a ausência do órgão, citando falta de estrutura e política de não atuar em áreas de conflito. Tupan chegou após o despejo, quando os indígenas já haviam sido expulsos. “Exigimos que a fazenda pare de plantar soja. Queremos uma resposta em 48 horas, porque não aceitaremos mais veneno”, declarou um representante da comunidade. Na terça-feira, a repressão continuou em Porto Cambira, na TI Dourados-Amambaipeguá III, às margens do rio Dourados. A área, incluída em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) de 2007 entre Funai e Ministério Público Federal (MPF), segue sem avanços na demarcação desde 2008. Sob o pretexto de combater tráfico de drogas e contrabando, o DOF, junto à Tropa de Choque, isolou a retomada e abriu disparos contra os indígenas. Requerimento Caarapó, com cerca de 28 mil habitantes, vive um novo capítulo de tensão, com ações policiais apontadas como alinhadas aos interesses de latifundiários em meio a disputas fundiárias históricas. Na sessão desta quarta-feira (24/9) da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, a deputada estadual Gleice Jane (PT) apresentou um requerimento para cobrar do governo estadual explicações sobre as remoções forçadas. A parlamentar fez uma série de questionamentos. Entre eles, se as ações policiais mencionadas estavam amparadas por ordem ou mandado judicial e, em caso afirmativo, qual o número do processo, o juízo competente, a data de emissão do mandado e as condições para a sua execução. “Em não havendo mandado judicial que autorizasse a ação, de quem partiu a ordem para o despejo e a atuação policial, bem como sob qual fundamento legal e administrativo?”, questiona a deputada. Gleice Jane também indagou se houve requisição formal, por autoridade judiciária, para o emprego da força policial. “No caso de ter havido mandado judicial, qual a razão de não ter sido previamente apresentado ou lido à comunidade indígena antes do início da operação? A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi formalmente comunicada, consultada ou envolvida nas etapas preparatórias ou executivas das ações policiais? Precisamos, urgentemente, verificar essas informações”, concluiu a deputada. — Matéria editada às 18h do dia 24 de setembro de 2025 para acréscimo de informações Instagram Twitter Youtube Tiktok
O que são retomadas indígenas e por que elas ocorrem em MS

Entre descaso e violência, guarani-kaiowá reivindicam terras que ocupam apenas 3% de MS, mas hoje estão tomadas por monocultivos de grãos e gado Por Melissa Aguiar, Mylena Fraiha e Norberto Liberator Barracos de lona, chão de terra batida e famílias vivendo em condições precárias, sem acesso regular à água potável, alimentação adequada ou saúde. Homens armados vigiam de perto, o que aumenta o clima de tensão. O cenário lembra um campo de refugiados na Faixa de Gaza, mas, na verdade, é uma realidade brasileira: as retomadas guarani-kaiowá, em meio aos vastos monocultivos de grãos e gado de Mato Grosso do Sul. Nesta região, o coração do “velho oeste brasileiro”, a produção de soja, milho, gado e celulose não serve para alimentar os moradores locais, mas é destinada à exportação. Enquanto isso, há décadas, nesse mesmo território, o sangue de gerações de guarani-kaiowá marca a violência com que o agronegócio se impõe na região Centro-Oeste do país. Nomes como Marçal de Souza, Marcos Verón, Dorvalino Rocha, Estela Vera e, mais recentemente, Neri Ramos, estão entre aqueles que tombaram por reivindicar o direito de existir com dignidade e orgulho de ser indígena. Esse sangue é derramado em uma luta que clama pelo básico: o direito de ser, viver e existir em seu próprio território, o tekohá. Em Guarani, tekohá é o termo utilizado para se referir aos territórios. Tekohá significa muito mais do que simplesmente terra. O prefixo teko representa as normas e costumes da comunidade, enquanto o sufixo ha tem a conotação de lugar. Ou seja, o tekohá é o lugar físico – incluindo terra, floresta, campos, cursos de água, plantas e remédios – onde o modo de vida dos povos indígenas guarani e kaiowá se desenvolve. A terra é uma extensão dos povos indígenas e sua fonte de vida. Eles nascem, crescem, plantam, vivem e morrem nessa mesma terra. Entretanto, o direito de ser e existir em seu território tem sido negado há anos, tanto pelo Estado quanto pelos fazendeiros que herdaram terras que, em algum momento, foram tomadas dos antepassados guarani-kaiowá. Já as retomadas são áreas consideradas tekohá – territórios ancestrais – pelos indígenas sul-mato-grossenses e, por isso, ocupadas por eles para pressionar o governo brasileiro a promover a demarcação prevista na Constituição. Algumas dessas retomadas podem reivindicar partes de um mesmo território indígena, como ocorre com as diversas retomadas na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, na região de Douradina (MS). Em agosto de 2024, três novas áreas foram reocupadas pelos indígenas: Yvy Ajherê, Kurupa’yty e Pikyxyin. Com essas retomadas recentes, são, ao todo, sete áreas ocupadas pelos guarani-kaiowá na TI, sendo a primeira retomada realizada em 2010. E essa mesma região tornou-se o epicentro dos mais recentes conflitos entre indígenas e fazendeiros. No dia 3 de agosto de 2024, mais de dez indígenas ficaram feridos, alguns gravemente, depois de ataques de homens armados a retomadas da região. A terra de Panambi – Lagoa Rica foi delimitada em 2011, mas nunca chegou a ser demarcada. Os Guarani resolveram, portanto, tomar a iniciativa e pressionar pela conclusão do processo. Em resposta, jagunços e funcionários de fazendeiros que se opõem à retomada, decidiu montar seus próprios acampamentos para atacar os indígenas e expulsá-los a área. Naquele final de mês, cerca de 18 agentes da Força Nacional estavam em Douradina (MS), a 192 quilômetros de Campo Grande, para evitar o ataque dos produtores rurais aos indígenas. Esse foi apenas um dos exemplos de violência que se estende para outras áreas de retomada em Mato Grosso do Sul. Além disso, a violência também se manifesta na forma de descaso. Alguns indígenas que vivem nesses locais sofrem com a falta do básico, como moradia e água potável. A água que bebem, muitas vezes, é envenenada pelos agrotóxicos das lavouras, especialmente aqueles que são pulverizados de forma proposital. O veneno é usado como arma química para expulsar os indígenas de suas terras. Em outras situações, onde a violência é ainda mais escancarada, tiros de balas de borracha e armas de fogo são disparados, e barracos são derrubados por tratores modificados que se tornam “caveirões”. Há também casos em que os fazendeiros pedem à Justiça a reintegração de posse, e é aí que surge outra faceta da violência do Estado contra os guarani-kaiowá, com o uso de seu braço mais violento: a Polícia Militar. Além de enfrentar a violência, o preconceito e o desconhecimento de sua luta, boa parte da população urbana e não-indígena acaba reiterando o velho estereótipo de “invasores de terras”, quando, na verdade, as vítimas do roubo de terra são os povos indígenas. Por isso, o termo correto é “retomada”, pois refere-se ao ato de “tomar de volta” as terras que originalmente pertenciam aos povos indígenas e foram invadidas por fazendeiros, especialmente durante a expansão agropecuária e o ciclo da erva-mate no Centro-Oeste brasileiro, que teve início no século XVII e se estendeu até o século XX. Alguns historiadores também apontam que esse processo de expropriação iniciou-se no período pós-Guerra do Paraguai, com frentes econômicas que impactaram profundamente os territórios indígenas. Uma das primeiras e mais significativas foi a exploração da erva-mate, liderada pela Companhia Mate Laranjeira. Historiadores indicam que o “ciclo da erva-mate” começou oficialmente em 1882, quando Thomaz Laranjeira obteve concessão para explorar vastas áreas de terras devolutas na fronteira com o Paraguai, hoje parte de Mato Grosso do Sul. Hoje, essas terras pertencem a clãs políticos de Mato Grosso do Sul que, coincidentemente, também são as tradicionais famílias latifundiárias. Além disso, outra parte delas está nas mãos de arrendatários de terras indígenas, que frequentemente constroem suas fábricas e lavouras no interior do estado. Diante da lentidão e omissão do Estado brasileiro, os guarani-kaiowá arriscam suas vidas para retomar o que é seu. E, por incrível que pareça, o que eles pedem não é muito. De acordo com o mapa de terras indígenas do Instituto Socioambiental (ISA), Mato Grosso do Sul possui 68 terras indígenas identificadas, que correspondem a 902.881,29 hectares – apenas 3% do território total do estado. Ainda segundo o ISA, há apenas
As chamas do racismo religioso contra os guarani-kaiowá e guató

Incêndios criminosos já se tornaram rotina entre comunidades indígenas de MS Por Maju Monteiro (arte) e Norberto Liberator (roteiro)Fonte utilizada para legendas: Toth 1, de Octavio Cariello Maria Júlia Montero Quadrinista, ilustradora e comunicadora popular. Interessada em artes, feminismo e internacionalismo. Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Instagram Twitter Youtube Tiktok
