Gênio, polêmico, militante: 60 anos de Diego Maradona
Histórico camisa 10 argentino é um dos maiores jogadores da história do futebol, militante de esquerda e tem até religião em sua homenagem Por Gabriel Neri e Norberto Liberator Diego Armando Maradona Franco, ou simplesmente Diego Maradona, completa seis décadas de vida neste 30 de outubro de 2020. Atualmente, é treinador do Gimnasia y Esgrima La Plata. Nascido em Villa Fiorito, em Lanús, na Província de Buenos Aires, na Argentina, o Pibe de Oro (menino de ouro), como é conhecido, fez história enquanto atuava como jogador, depois de se aposentar e até como Dios de uma religião. Para muitos jornalistas, ex-jogadores e treinadores, Diego é um dos maiores nomes da história do futebol. No cenário sul-americano, brasileiros colocam Pelé como o maior e argentinos respondem com Maradona es más grande que Pelé. O argentino nunca escondeu seu lado político, o da esquerda, e isso é visto em seu braço direito com o rosto de Ernesto ‘Che’ Guevara tatuado no braço direito e o de Fidel Castro, na panturrilha esquerda. A mágica perna esquerda de Maradona o rendeu 11 títulos ao longo da carreira como jogador profissional. O principal foi a Copa do Mundo de 1986, no México, com a Seleção Argentina. Diego foi o capitão, eleito o melhor daquela Copa e ainda fez, na histórica partida contra a Inglaterra, o gol do século – título dado pela FIFA. Vida futebolística Filho de Diego Maradona e de Dalma Salvadora ‘Tata’ Franco, Dieguito foi o quinto filho dos oito filhos que o casal teve e o primeiro a jogar futebol. A carreira de Diego começou no Argentinos Juniors. A estreia como profissional foi também no mês de outubro, no dia 20, em 1976. Anos depois, ao falar de sua estreia pelo clube portenho, contou que no dia “tocou o céu com as mãos”. O jovem, dois anos antes da Copa do Mundo de 1978, sediada e vencida pela Argentina, era um dos cotados para fazer parte do plantel. Mas César Luis Menotti acabou por deixar o jogador do Juniors de fora da convocação final. Maradona foi artilheiro por cinco vezes do Campeonato Argentino após a Copa. O destaque chamou atenção de clubes da Colômbia, da Argentina e de vários países da Europa. O River Plate fez proposta, mas ele resolveu ir para o Boca Juniors, que passava por uma crise financeira. Com o clube de La Boca, levou o Campeonato Metropolitano em 1981 antes de ser vendido ao Barcelona. Coincidentemente, também foi na Espanha que, em 1982, jogou sua primeira Copa com a Argentina. A história no Barça terminou em 1984, com a transferência para o italiano Napoli. Em Nápoles, tornou-se ídolo ao conquistar o único título internacional do clube, a Copa da UEFA, e os dois Campeonatos Italianos. Foram seis anos defendendo o clube azul celeste até ir para o Sevilla. Encerrando sua carreira como jogador, defendeu o Newell’s Old Boys e o Boca Juniors. Como treinador, já comandou o Textil Mandiyú, o Racing Club, ambos da Argentina, o Al Wasl, o Al-Fujairah, dos Emirados Árabes Unidos, o Dorados de Sinaloa, do México, e a Seleção Argentina. Atualmente, está no Ginmasia y Esgrima La Plata. La mano de Dios e o gol do século Jogando pelo Napoli, Diego viveu seu melhor momento da carreira e novamente foi à Copa do Mundo. Desta vez, como o camisa 10 e capitão. O Mundial de 86, no México, foi a melhor apresentação individual de um argentino por sua Seleção na história. Maradona desequilibrou do começo ao final da Copa do Mundo. A Albiceleste passou da fase de grupos com vitória por 3 a 1 sobre a Coreia do Sul, empate contra a Itália com gol de Diego e um 2 a 0 sobre a Bulgária. Nas oitavas, eliminou o Uruguai e enfrentou a Inglaterra nas quartas de final. O dia 22 de junho daquele ano é uma das datas mais lembradas do futebol mundial. O contexto da época com a Guerra das Malvinas entre argentinos e ingleses em 1982 trazia tensão e importância ao jogo. Maradona tomou o jogo para si e em cinco minutos, fez dois gols inesquecíveis em Copas do Mundo. O gol com la mano de Dios (mão de Deus) e o gol do século. O primeiro foi numa disputa de bola com o goleiro Peter Shilton, que Diego ganhou no alto e fez o gol dando um tapa com a mão esquerda. Cinco minutos depois, Maradona recebeu no campo de defesa, passou pela marcação de três ingleses e avançou. Ele passou por mais dois, entrou na área, driblou o goleiro e fez o gol del siglo. Os ingleses diminuíram o placar para 2 a 1, mas a Argentina passou. O simbolismo de eliminar a Inglaterra, pouco depois do massacre na Guerra das Malvinas, foi motor para a arrancada da seleção argentina e aflorou o sentimento nacionalista da população. Contra a Bélgica, repetiu a atuação e fez dois gols. O primeiro com um toque na saída do goleiro e o segundo passando por toda a defesa belga e finalizando forte. A final foi contra a Alemanha Ocidental. O time latinoamericano abriu 2 a 0 e tomou o empate faltando 10 minutos para o fim. Diego, mais uma vez, decidiu. O 10 achou Jorge Luis Burruchaga que fez o gol do título. Argentina foi bicampeã do mundo, desta vez, com Maradona. Quatro anos depois, na Itália, os argentinos enfrentaram os anfitriões no estádio San Paolo, em Nápoles, onde Maradona era idolatrado. Naquela ocasião, o público local se dividiu. Muitos napolitanos torceram para a Itália, mas outros preferiram vibrar pela Argentina. Além da paixão por Diego, havia a rivalidade regional entre o norte, mais desenvolvido, escolarizado e hegemônico no futebol; e o sul, mais pobre, que começava a ter momentos de glória com a ascensão do Napoli. Polêmico desde sempre, Maradona não deixou de opinar: em coletiva antes da partida, pediu apoio da torcida e reiterou que “por 364 dias do ano, os italianos do sul são tratados como estrangeiros dentro de seu próprio país”. Muitos sulistas
O 11 de setembro latino-americano e o futebol
Campanha do Colo-Colo na Libertadores de 1973 foi decisiva para escolha da data do golpe de Pinochet contra o presidente socialista Salvador Allende Por Gabriel NeriColaborou Norberto Liberator O futebol se fez político desde que começou a se tornar popular ao longo dos anos. O esporte em geral é usado de forma a favorecer regimes ou destruí-los. Exemplos como a Copa do Mundo de 1934 na Itália fascista, os Jogos Olímpicos de 1938 em Berlim e a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, são confirmações desta afirmação. Mas não somente os eventos a cada quatro anos são usados. No cenário latino-americano, a campanha de um clube chileno na Copa Libertadores da América uniu um povo enquanto um golpe era articulado. Trata-se do 11 de setembro chileno, em 1973, quando o Palácio de La Moneda foi tomado pelos militares liderados por Augusto Pinochet, que instaurou uma ditadura por quase 17 anos no país andino. O presidente socialista Salvador Allende saiu morto da sede do governo chileno após as invasões dos fardados. Há duas versões sobre a morte: a primeira é que ele se suicidou e a segunda é que foi morto pelos militares. O golpe que matou o presidente socialista e matou a democracia no Chile era efeito da Guerra Fria na região sul do continente americano, influenciado pelos Estados Unidos, que vivia sua disputa com a União Soviética. E nas prévias do golpe, quando Allende vivia a total instabilidade e crise no Chile, uma equipe liderada pelo atacante Carlos Caszely ajudou a unir golpistas e socialistas por alguns meses. O time em questão foi o Colo-Colo, vice-campeão da Taça Libertadores da América naquele ano. O Chile, no cenário futebolístico, nunca teve hegemonia ou destaque por muitos anos nas competições internacionais, tanto que foi somente ganhar o primeiro título continental com o próprio Colo-Colo em 1991. Já a Seleção Chilena, La Roja, foi conquistar seu primeiro título somente em 2015, no Estádio Nacional do Chile, diante da Argentina. Os mesmos portenhos que derrotaram El Popular (como era conhecido o Colo-Colo) em 1973. Antes de contar como se deu a união de uma nação por um clube, vamos às tensões políticas e à última eleição chilena antes do golpe. A Copa em questão era a Libertadores, que começou para os chilenos no dia 1º de março, no Estádio Nacional, com quase 70 mil torcedores para a partida entre Colo-Colo e Unión Española. No dia 4 de março, haveria eleições parlamentares, nas quais 25 senadores e 150 deputados viriam a ser eleitos. Além disso, também se votou pela continuidade ou não do governo. Nesse contexto, a articulação da oposição pela tomada do poder, diante das mudanças promovidas pelo governo socialista; a influência das grandes potências capitalistas; e os próprios equívocos de Allende, cada vez mais isolado, não foram suficientes para um impeachment do presidente eleito. Voltemos ao Colo-Colo. O clube fundado por David Arellano tinha um dos principais plantéis do Chile. Comandados por Luis Álamos, além de Caszely (único chileno artilheiro da Libertadores na história), os destaques eram Alejandro Silva, Francisco Valdés e Leonardo Véliz. A Copa era disputada em três fases: a fase de grupos, o triangular semifinal e a final em melhor de três. O Cacique (mascote do clube chileno) venceu três partidas, com média de cinco gols por jogo, e sofreu apenas uma derrota para o Emelec, fora de casa. O outro rival no grupo foi o também equatoriano El Nacional. O triangular semifinal era diante do Cerro Porteño, do Paraguai, e do brasileiro Botafogo. Conforme o time foi avançando, chegando à semifinal e tendo chances reais de ser campeão da Copa, o uso político aumentava. Não faltaram mensagens de ambos os lados para alentar o Colo-Colo. Na semifinal, o Cacique venceu no Maracanã o Botafogo na abertura da semi, mas caiu por 4 a 1 para o Cerro, em Assunção. O time era forte e, no returno, fez o necessário para passar: goleou o clube paraguaio por 4 a 0 e, numa duríssima partida, empatou com a equipe brasileira, após abrir o placar e aumentar a vantagem em 2 a 0, mas ver o time alvinegro virar com três gols; no último lance, o Colo-Colo conseguiu o empate pelos pés de Véliz. Naquele jogo, um público de mais de 80 mil pessoas assistiu à dramática classificação. Foi a primeira final dos albos e de todo o Chile em copas. O clima era de que a equipe “já cumpriu” o objetivo, como destacou a revista Estadio, em sua contracapa, às vésperas da final. Enquanto isso, em plena crise e greves, o time de Álamos reunia chilenos esperançosos pelo primeiro título internacional. Allende, torcedor da Universidade do Chile – a La U – não foi clubista e chegou a convidar os colo-colinos para uma recepção em La Moneda, o que foi boicotado pela Federação Chilena de Futebol. A final foi contra o Independiente, da Argentina, detentor do título e que entrou na fase semifinal. Os rojos passaram por San Lorenzo, também argentino, e por Millonarios, da Colômbia. Entender essa final é saber que o resultado não se constrói dentro de campo, mas também fora dele. Os times argentinos tinham um enorme “peso” nas decisões fora de campo. O primeiro jogo foi em La Doble Visera (atual Estádio Libertadores de América) e os visitantes saíram na frente com gol contra do zagueiro rojo Francisco Sá, aos 26 minutos do segundo tempo. Dois minutos depois, Sergio Ahumada foi expulso, deixando o Colo-Colo com 10 jogadores. Mario Mendonza, fazendo falta no goleiro Adolfo Nef, empatou o embate. O segundo jogo foi no Estádio Nacional. O treinador adotou uma postura defensiva, mesmo com seu time tendo talento para vencer – e até chegando a fazer um gol com Caszely, mal anulado pelo árbitro Romualdo Arppi Filho. O medo da derrota e a arbitragem tiraram a Copa dos chilenos. A decisão foi em Montevidéu, no Estádio Centenário. Com garra e guerra, o Independiente saiu na frente com Mario Mendoza aos 25 minutos. O grande
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