O sensível e o campo de batalha

Por Yan Chaparro Como lembra Diego Sztulwark (2023) o sensível, o afeto e a sensibilidade estão hoje no centro do campo de batalha do poder na sociedade neoliberal, pois capturar o sensível é capturar o corpo, o pensar e o sentir. Por isso, este escrito busca anunciar estratégias de compreensão do sensível para enfrentar o campo de batalha, desde as ruas, as redes sociais, as instituições, até os gabinetes e os escritórios mais sombrios. Pois é no sensível que todos estão de olho, pelo fato de agenciar nossas vidas humanas pelas entranhas. Não é à toa que a política ficou mais bestial e o uso de remédios psiquiátricos ficou mais comum, pois os mecanismos de poder molecular, lembrando de Félix Guattari (1987), atacam sem dó o sensível, as partes mais delicadas do nosso corpo. Às vezes não parece ter saída: aquele que parecia ter o mínimo de razão cognitiva hoje cospe violência, meus amigos contam sofrimentos cada vez maiores, já não me vejo nesta realidade, amanhã talvez o mundo não mais exista. Não tenho emprego; se tenho, me sinto sugado todos os dias, busco saídas, mas tudo parece estar em ruínas. Pode parecer um enredo de um filme do Béla Tarr, mas é a produção de realidade comum cada vez mais cotidiana. Como dizem por aí, a realidade já superou a ficção. E que proposta efetiva afetiva podemos ter como estratégias para atravessar as ruínas e agenciar outras formas de vida? Arte: Vitória Regina Aqui, proponho a potência (leia-se a potência de Spinoza) do Psicodrama, principalmente quando exercido como psicoterapia de grupo, pois é no coletivo que adoecemos, e é em coletivo que podemos produzir novas subjetividades e objetividades como vida. E sei que, junto com o Psicodrama, caminham formas radicais de cuidado, sabendo que cuidado aqui é a transformação social a partir do sensível, do afeto e da sensibilidade. Fora isso, o cuidado pode se tornar uma silenciosa e mortal maneira de violência. Mas, o que seria o Psicodrama de grupo? Antes de tudo, é o entendimento de que o afeto e o sensível é público, quando em um grupo está a “sociedade” vibrante e viva, com seus conflitos, poderes, dilemas e caminhos. Jacob Moreno (1975) ao produzir o Psicodrama depois do teatro da espontaneidade e do teatro terapêutico, percebeu que o cuidar para uma sociedade justa deve ser construído coletivamente. De várias formas é a audácia do cuidado coletivo em todas as dimensões possíveis humanas. Um cuidar radical que se posiciona e se produz coletivamente. E dessa forma que proponho estratégias para entrar no campo de batalha onde o sensível é o principal objeto de poder. Cuidar coletivamente do sensível atento às armadilhas neoliberais que tecem nossa sociedade hoje. Cuidar para transformar e produzir justiças sociais, políticas, econômicas e ecológicas. Por fim, a clínica não pode mais estar alheia à crítica, e a crítica não pode mais estar alheia a clínica. Não existe mais esse privilégio. Pois o sensível e o afeto hoje são objetos de estratégia de poderes. Bom, se você se espanta com o sofrimento cada vez mais naturalizado, isso é um projeto. Por isso, a tarefa da clínica, digo pela clínica de psicodrama que caminha por variados territórios, é produzir formas de vida, como lembra Diego  Sztulwark (2023), que atravessem ruínas, terrores e violências cotidianas. E estejam atentas ao sensível como uma potência social micro e macro. Referencial bibliográfico GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações politicas do desejo. Editora Brasiliense: São Paulo, 1987. SZTULWARK, D. A ofensiva do sensível: neoliberalismo, populismo e o reverso da política. Editora Elefante: São Paulo, 2023. MORENO, J. Psicodrama. Editora Cultrix: São Paulo, 1975. Yan Chaparro     Psicólogo, psicodramatista, doutor em Desenvolvimento Local, pós-doutor em Antropologia Social e em Desenvolvimento Local. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Música, linguagem e psicanálise

Segundo texto da série “Filsofia da Psicanálise” explora pontes filosóficas de interlocução entre as três áreas do conhecimento

Reflexões sobre a filosofia da psicanálise

A Badaró inicia hoje a série “Filosofia da psicanálise”. As publicações discutem, a partir de três textos, possíveis diálogos entre reflexão filosófica e ciência psicanalítica. A produção de hoje fornece apontamentos teórico-conceituais iniciais para o debate em questão

As ciências humanas em questão

Em tempos de relativização do campo científico e das Ciências Humanas, o diálogo direto com a cultura popular e não-acadêmica mostra-se como uma alternativa para combater a onda de populismo filosófico e o anticientificismo crescente na opinião pública