O que está em jogo nas eleições presidenciais do Equador
Com impasse nas urnas, país sul-americano decide entre o legado da Revolução Cidadã ou a continuidade do neoliberalismo Por Norberto Liberator e Mylena Fraiha O Equador realizou eleições presidenciais durante o último domingo (7). O pleito, que será decidido em segundo turno, segue indefinido e pode ter recontagem de votos. Na última sexta-feira (12), os candidatos Carlos Yaku Pérez e Guillermo Lasso concordaram em pedir a suspensão do processo eleitoral e auditoria das urnas nas 24 províncias. O candidato de esquerda Andrés Arauz é o único confirmado na segunda etapa e aguarda a decisão do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), que pode decidir pela recontagem, para saber quem será seu oponente. Andrés Arauz, favorito na disputa e que chegou ao segundo turno após alcançar 33,5% dos votos, é herdeiro político do ex-presidente Rafael Correa, responsável pelo processo de profundas reformas no sistema sócio-econômico equatoriano que ficou conhecido como Revolução Cidadã. Arauz é candidato pela União pela Esperança (Unes), coligação que aglutina partidos de centro-esquerda e de esquerda. Seu oponente na disputa pelo segundo turno pode ser Carlos Yaku Pérez, líder indígena ligado a causas ambientais cuja candidatura foi lançada pelo Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik (PK) ou o banqueiro Guillermo Lasso, do partido direitista Criando Oportunidades. Pérez estava desacreditado pelas pesquisas, mas surpreendeu ao alcançar 19,8% dos votos e deixar Lasso para trás com cerca de 98% das urnas apuradas. No entanto, a disputa voto a voto pela vaga no segundo turno foi virada. Lasso ultrapassou Pérez e, na quinta-feira (11), chegou a 19,71% dos votos, enquanto Pérez tinha 19,44%. Em quarto lugar, ficou Xavier Hervas, do partido Esquerda Democrática. O candidato, que se define centro-esquerda e como alternativa progressista mais moderada do que Arauz, teve pouco mais de 16% dos votos válidos. Embora se apresente como progressista, Pérez foi um ferrenho opositor da administração de Rafael Correa e apoiou o próprio Lasso contra o atual presidente Lenín Moreno, quando este era o candidato da esquerda à presidência do Equador (posteriormente, Moreno abandonou a agenda que o elegeu, rompeu com Correa e deu uma guinada neoliberal), além de ter apoiado os golpes contra Dilma Rousseff no Brasil e contra Evo Morales na Bolívia, além da prisão de Lula da Silva. A jornalista equatoriana Ivonne Amores afirmou, em entrevista ao portal Orinoco Tribune, que Pérez adotou um nome indígena (“Yaku”) para conquistar votos desta parcela da população. Em 2019, quando foi eleito para o cargo de governador da província de Azuay, ele se apresentava como “Dr. Carlos Pérez”. No início deste mês, ele criticou a proposta de Arauz de auxiliar 1 milhão de famílias equatorianas com a quantia de mil dólares. Pérez declarou, no início de fevereiro, que os beneficiados gastariam todo o dinheiro em cerveja. O banqueiro Guillermo Lasso concorre pela terceira vez. De perfil conservador e alinhado aos interesses dos Estados Unidos, propõe uma agenda neoliberal, com privatizações, afrouxamento na legislação trabalhista, cortes nos investimentos sociais e incentivo à entrada do capital estrangeiro, bem como contrair empréstimos com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Quem é quem na disputa Linha do tempo: antecedentes políticos Norberto Liberator Editor-chefe Jornalista, ilustrador e cartunista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Mylena Fraiha Editora-executiva Jornalista e pesquisadora em comunicação. Possui interesse nas áreas de meio ambiente, política e direitos humanos, além de produções audiovisuais.
Quinzena desenhada: os principais fatos das últimas semanas
Norberto Liberator e Fábio Faria Edição: Leopoldo Neto Equador: protestos populares e recuo do governo O presidente equatoriano Lenín Moreno anunciou no dia três de outubro o Decreto 884 – determinação que teve por objetivo acabar com subsídios para compra de gasolina e de diesel, assim como aumentar o preço dos combustíveis em cerca de 120%. A medida gerou protestos liderados pelos sindicatos de transporte e, posteriormente, por povos indígenas. Rodovias de todo o país foram bloqueadas. A Assembleia Nacional, cinco dias depois, foi ocupada por manifestantes. Moreno decretou Estado de exceção, ordenou toques de recolher e transferiu a sede do governo da capital Quito para Guayaquil, cidade mais populosa do país. De acordo com a “Defensoria do Povo”, órgão responsável por fiscalizar violações de direitos civis e humanos no Equador, a repressão policial resultou em oito mortes, cerca de 120 desaparecidos, 1800 presos e 150 torturados. No dia 13, após negociações mediadas pelas Nações Unidas e pela Conferência Episcopal do Equador, Moreno revogou o decreto e anunciou o retorno dos subsídios. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) irá ao país entre os dias 28 e 30 para avaliar a situação das violações denunciadas. EUA: processo de impeachment de Trump segue na Câmara Na última quinta-feira (17), o depoimento do chefe do gabinete de Donald Trump deu novo ânimo aos defensores da cassação do mandato do presidente estadunidense. Mick Mulvaney depôs em sessão do inquérito que segue em sigilo ao público e à imprensa, mas revelou à mídia parte do conteúdo de sua fala. Segundo Mulvaney, Trump suspendeu a ajuda financeira dos Estados Unidos à Ucrânia para pressionar o presidente Volodymyr Zelenski a investigar um suposto caso relacionado às eleições de 2016. A hipótese de Trump, baseada em teorias de conspiração, é a de que um servidor de computadores do Partido Democrata – invadido por hackers russos – teria sede na Ucrânia e, desta forma, o governo ucraniano da época teria interferido no processo eleitoral a favor da candidata Hillary Clinton. A afirmação de Mulvaney interessa à oposição porque desmonta o principal argumento da defesa de Trump, de que não houve troca de favores. A acusação que baseia o pedido de impeachment é de que o presidente estadunidense teria barganhado ajuda financeira e militar com Zelenski, em troca de espionagens contra o pré-candidato democrata Joe Biden, que é conselheiro de uma empresa de gás ucraniana – visando assim interferir nas eleições presidenciais de 2020. Turquia: ataque a curdos, cessar-fogo e prolongamento de tensão A partir do último dia nove, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, iniciou uma ofensiva militar sobre territórios curdos no norte da Síria. Os ataques, aéreos e terrestres, visavam dominar a região conhecida como Rojava, onde guerrilheiros curdos lideraram a resistência que derrotou o autointitulado Estado Islâmico (Daesh). Os curdos são um grupo étnico que vive em uma faixa de terra entre Síria, Turquia, Iraque, Armênia e Irã. Eles possuem tensões históricas com o Estado turco, porque a maior parte da área reivindicada como nação curda compõe atualmente o território da Turquia. Erdogan pretendia aniquilar o movimento nacionalista curdo e realocar refugiados sírios que estão em seu país. O avanço militar começou quando o presidente, Donald Trump, retirou as tropas dos Estados Unidos da região de Rojava, onde os curdos foram aliados táticos na expulsão do Daesh. Após a ofensiva, em carta vazada pela rede Fox News, Trump pediu que Erdogan “não fosse tolo” e cessasse os ataques. Pressionado também pelo presidente russo, Vladimir Putin – que tem no sírio Bashar Al-Assad um de seus principais aliados – Erdogan aceitou acordo de cessar-fogo, anunciado pelo vice-presidente estadunidense Mike Pence na última quinta-feira (17). No dia seguinte, o porta-voz curdo, Mustafa Bali, acusou a Turquia de violar o pacto e voltar a atacar. O presidente turco se reunirá com Putin na próxima terça-feira (22) para discutir o assunto. Catalunha e Chile: manifestações, confrontos e prisões Uma série de protestos varreu a Catalunha, região autônoma da Espanha, desde que a Suprema Corte espanhola condenou, no último dia 14, nove políticos separatistas à prisão, com penas entre nove e 13 anos, por terem declarado independência em 2017. Em Barcelona, no mesmo dia, manifestantes bloquearam o aeroporto El Prat. A polícia respondeu com violência; um dos integrantes do protesto chegou a perder um olho. Na quinta-feira (17), o principal líder do movimento, Carles Puidgemont, apresentou-se às autoridades após ser notificado pela polícia da Bélgica, onde está exilado, e passou a viver em regime análogo à liberdade condicional. Logo depois, militantes bloquearam ruas de Barcelona com barricadas, latas de lixo e pneus queimados. À noite, houve ataques policiais com granadas e gás lacrimogêneo. De acordo com o Sistema de Emergências Médicas (SEM), estima-se 582 feridos em toda a região desde o início dos protestos. No Chile também ocorreram protestos, confrontos e violência policial. Manifestantes tomaram as ruas de Santiago na última sexta-feira (18), após o anúncio de aumento do bilhete do metrô. Segundo o balanço oficial, calcula-se 308 pessoas detidas, 41 estações de metrô danificadas, 11 civis feridos e cinco policiais com ferimentos graves. No sábado (19), foram convocados novos protestos, desta vez em denúncia ao modelo econômico liberal do país, no qual os serviços básicos como saúde, educação e previdência são privados. As manifestações também criticavam o presidente chileno, Sebastián Piñera. O chefe do Exército na capital, General Javier Iturriaga, decretou toque de recolher. Mais tarde, Piñera recuou e revogou o aumento da passagem. Os protestos ocorreram mesmo assim. No domingo (20), o número de presos subiu para 700 e três pessoas morreram após o incêndio em um supermercado. O presidente afirmou que o país está “em guerra” e reforçou o aparato policial. Na segunda-feira (21), o número de mortos durante os confrontos subiu para oito. Óleo no Nordeste continua e Bolsonaro segue com teorias conspiratórias As manchas de petróleo cru que apareceram no litoral dos nove estados nordestinos seguem avançando e atingindo novas praias. Segundo o Ministério Público Federal
