Ódio e Nojo

Editorial por Revista Badaró “Conhecemos o caminho maldito. Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania, onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina”. Com esta frase, Ulysses Guimarães selava o que deveria ser o enterro de um regime que torturou inclusive crianças, matou opositores, desviou milhões de dólares em obras faraônicas, cometeu o genocídio de mais de 8 mil indígenas e aumentou o abismo social entre ricos e pobres no Brasil. No entanto, os mortos-vivos da ditadura militar-empresarial nunca deixaram de cercar a vida política brasileira. Eles se mantiveram, inclusive, pela própria Carta de 1988, aquela que Ulysses erguia enquanto lançava seu discurso visceral. Situada num elo entre o liberalismo político e a social-democracia, a chamada “Constituição Cidadã” exagerou na tolerância. Anistiou torturadores e não propôs a reforma das Forças Armadas, mantendo em seus cargos aqueles que, ao longo de 21 anos, revezaram-se nas práticas dos crimes que inspiram, como citou o político paulista, ódio e nojo. Foi essa brecha que permitiu figuras odiosas e nojentas a não apenas ocupar, mas se manter no poder e, hoje, confrontar aquela mesma Constituição. O excesso de tolerância da Carta Magna fez com que o mais medíocre dos homens, militar fracassado, parlamentar invisível, um nada, criasse um clã familiar de políticos de extrema-direita, porta-vozes dos discursos mais desprezíveis do senso comum, e se alçasse à Presidência da República sendo a voz de milhões de medíocres orgulhosos de sua mediocridade, ou de oportunistas hoje arrependidos. A Badaró acredita que a Constituição do Brasil merece críticas. Mas não as que são feitas por aqueles que foram às ruas, no feriado de sete de setembro, celebrar a morte e pedir o retorno do regime de sangue. A Carta de 1988 peca justamente por faltar, a esta parcela da população, ódio e nojo. Twitter Youtube Facebook Instagram
40 anos de revolução no time do povo
Formação da Democracia Corinthiana completa 40 anos em 2021; mobilização de atletas do Corinthians impulsionou movimentos pelo fim da ditadura empresarial-militar no Brasil Crônica por Norberto Liberator Narração por Felipe Mafra Edição de vídeo por Adrian Albuquerque Radicalizar a democracia não é fácil. Por terras brasileiras, nunca conseguimos. Muito menos se poderia conseguir quando vivíamos sob uma ditadura comandada por generais. Era preciso estar muito fora de órbita para querer uma gestão democrática direta, com o próprio povo no comando de cada decisão política. Só podia ser coisa de corintiano. O time do povo desafia a lógica. Naquele ano de 1981, quando o Brasil ainda amargava a ditadura empresarial-militar, com João Figueiredo batendo seus incríveis 95% de inflação, ninguém diria que o Corinthians deixaria de viver sua própria ditadura, comandada com mão de ferro por Vicente Matheus –– que ao exemplo de seu par, naufragava. O clube terminou a temporada nas últimas posições e teve que disputar a Taça de Prata, análoga à atual Série B. Os ventos pareciam soprar a outro rumo e uma maior participação dos atletas e funcionários começava a se desenhar, quando chegou o sociólogo Adilson Monteiro Alves para ser diretor de futebol. Em debate na PUC, reunindo Juca Kfouri, Sócrates e o próprio Adilson, surgiu o nome para um novo movimento, anotado por Washington Olivetto num guardanapo: Democracia Corinthiana. Com TH, diferente do que manda a ortografia. Porque o Corinthians desafia a norma. Desafia e ganha, porque o Corinthians é maior do que a norma. O Corinthians conseguiu aumentar sua torcida, mesmo ficando 23 anos sem um título sequer. E a Democracia Corinthiana conseguiu tornar os votos das lavadeiras, das faxineiras, dos copeiros, dos cozinheiros e dos jogadores tão importantes quanto os dos dirigentes nas decisões do clube, num país que ainda vivia sob os mandos e desmandos das fardas verde-oliva. O motim dos marujos conseguiu comandar coletivamente o timão. Algo que até hoje o Brasil não conseguiu. Ou por acaso a vontade popular tem alguma relevância nas decisões do Parlamento? É claro que não parava por ali. Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon e companhia não se contentavam em mudar a gestão do Corinthians. Se o Corinthians era a pátria de chuteiras dos favelados da zona sul de São Paulo; das travestis da Rua Augusta; ou dos operários do ABC que passaram ao largo do tal milagre econômico, que vibravam na arquibancada segurando seus radinhos, em gritos emocionados que evidenciavam a banguelice antes dos 40 anos, então a tal pátria amada idolatrada também precisava do Corinthians. E o time do povo não deixou o povo na mão. Lá estava o escrete da Democracia Corinthiana nas manifestações por eleições diretas. Lá estava Sócrates em 1982, na Espanha onde nasceu Vicente Matheus, erguendo seu punho como os Panteras Negras enquanto encantava o mundo com a camisa amarela da melhor seleção que não ganhou uma Copa, assim como a camiseta amarela das Diretas Já representaria o maior movimento que não teve sua reivindicação atendida. Mas houve vitórias sim. Ainda naquele 82, o Corinthians entrou em campo com a frase “Dia 15 vote”. No dia 15 de novembro, milhões de brasileiros foram às urnas votar para governador, sem serem obrigados. Em 2021, completam-se 40 anos do início daquele movimento, que provou de uma vez por todas que futebol é muito mais do que um jogo. E que títulos são apenas um detalhe. Adrian Albuquerque Repórter e diretor de audiovisual Jornalista, editor de vídeo, sucinto e entusiasta de alguns filmes. Interessado em artes, cultura e política. Diretor do documentário “Isto não é uma entrevista”. Norberto Liberator Editor-chefe Jornalista, ilustrador e cartunista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Felipe Mafra Bacharel em Filosofia, professor e agitador cultural. Siga a Badaró nas redes sociais!
‘Me verás volver’: o time do Papa vence a ditadura
San Lorenzo está de volta à sua histórica casa, retirada do clube pelo regime do ditador Rafael Videla, cuja instauração completa 45 anos nesta quarta-feira (24) Por Gabriel Neri O Club Atlético San Lorenzo de Almagro (Casla) é considerado uma das cinco grandes equipes quando falamos de futebol argentino. Junto a ele, estão Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing. É uma instituição situada ao sul da Cidade de Buenos Aires. Sua atual sede administrativa é no bairro de Boedo, e o Estádio Pedro Bidegain, conhecido como Nuevo Gasómetro, fica em Bajo Flores. Apesar do nome “de Almagro”, a alma dos Corvos, apelido do San Lorenzo, pertence ao bairro de Boedo. A região de classe média é conhecida pelas festas, pela forte presença do tango e, como exaltado em músicas da torcida, pelo carnaval. É característica dos clubes argentinos esse pertencimento a um bairro. O Boca Juniors, como diz o próprio nome, é de La Boca. O River Plate é de Núñez e por isso seu estádio é chamado de “Monumental de Núñez”. O Huracán, rival máximo do San Lorenzo, fica situado no Parque Patrícios, também ao sul. Independiente e Racing fazem o clássico de Avellaneda e seus estádios têm apenas uma rua que os divide. A maioria desses clubes citados acima não teve de mudar de local. História diferente com o Ciclón, apelido sanlorencista, que teve, de forma praticamente compulsória, que sair de seu estádio em Boedo na época da ditadura de Rafael Videla (1976-1981). O terreno foi vendido à rede de supermercados Carrefour. O golpe militar que tirou o governo de María Estela Martínez de Perón — a Isabelita Perón — do poder completa 45 anos neste 24 de março. Na Argentina, a data é de homenagem pela memória e justiça das vítimas da ditadura. San Lorenzo e a perseguição dos militares A história da união entre o clube e a região começa no nascimento da equipe. O Casla nasceu no dia 1º de abril de 1908 e teve um papel importantíssimo do padre salesiano Lorenzo Bartolomé Massa. Segundo a história do clube, ele ajudava os jovens em situação de rua e deixava esses meninos jogarem futebol na igreja. A partir daí, veio a ideia da criação de uma associação. Em homenagem ao padre, o nome escolhido foi San Lorenzo. Com a crescente da equipe nos primórdios do futebol platino, foi necessário ter um campo para jogar. Em 1916, o clube através do presidente Pedro Bidegain começou sua história na Avenida La Plata, 1,7 mil no Estádio Gasômetro. O nome se dava por conta da semelhança do formato do estádio aos cilindros de gás localizados na região. O Viejo Gasómetro foi um dos grandes estádios argentinos enquanto esteve de pé. Por sua grandeza de mais de 70 mil lugares, foi até chamado de “Wembley argentino” em referência ao estádio de Londres. Também pela estrutura, foi casa da Seleção Argentina por muito tempo. Mas os ventos começaram a mudar na década de 1970. O bairro de Boedo era uma região de classe média de cunho progressista de Buenos Aires. Assim, o clube se tornou representativo na oposição às ditaduras, especialmente a chamada de “Última Ditadura Argentina” (1976-1983). Tanto que até a associação das Mães da Praça de Maio fez o primeiro evento público no dia 20 de junho de 1977 no estádio do CASLA. Essa associação, formada por mulheres, protestava em busca de seus filhos assassinados ou desaparecidos durante o regime militar, além de pressionar para localizar os cerca de 500 bebês que foram tirados de seus pais e entregues a famílias ligadas ao regime. Com isso, os militares sempre observaram com muita atenção o que acontecia pelas bandas de Boedo. Inclusive, o local chegou a ser classificado como “antro de delinquentes”. Foram propostas algumas ações, como o projeto de construção de uma avenida que passava pelo meio do Gasômetro e um único estádio para Huracán, Veléz e San Lorenzo, mas não passaram adiante. Em 1978, a Argentina sediou a Copa do Mundo, onde levantou seu primeiro título mundial. Seis estádios foram usados como sede e o gigante Gasômetro ficou de fora. Na capital federal, o Monumental, do River, e o José Amalfitani, do Vélez, foram os escolhidos. A prefeitura de Buenos Aires, sob o comando do Brigadeiro Osvaldo Cacciatore, tinha como um dos objetivos acabar com o estádio. Mesmo com tudo isso, o San Lorenzo conseguia se manter. No entanto, uma crise financeira começou a assolar o clube no final dos anos 70. Foi o momento ideal para os militares forçarem o Ciclón a vender o terreno na Avenida La Plata. O valor da venda foi de 900 mil dólares. Assim, o estádio deixava de ser propriedade do San Lorenzo. A despedida da cancha foi no dia 2 de dezembro de 1979 com um empate em 0 a 0 diante do Boca Juniors. Só que o drama não parou por aí. Mergulhado em crise, a equipe caiu para segunda divisão em 1981 com uma derrota para o Argentino Juniors na última rodada. Sem divisão, sem dinheiro e sem estádio. Só que o clube tinha a torcida. O time começou sua peregrinação pelos estádios portenhos, sempre lotados para receber o Casla. A equipe conseguiu voltar à primeira em 1982. Porém, a alegria da volta contrastou com a perda de sua casa. O projeto de demolição do Gasômetro para construção de prédios comerciais havia sido aprovado. Em 1985, a rede Carrefour comprou o terreno e construiu o primeiro hipermercado da cidade. Em seis anos, o San Lorenzo passou de ter um dos melhores estádios do mundo à segunda divisão — e viu sua casa ser demolida. Nuevo Gasómetro e o retorno a Boedo Ao longo da década de 80, a peregrinação seguia pelos estádios. Só que finalmente em 1993, após cerca de um ano de construção com apoio da torcida que nunca abandonou, o Estádio Pedro Bidegain foi inaugurado. O nome é em homenagem a um dos mais importantes presidentes da história do Ciclón. Foi nesta nova casa, localizada
Chile se prepara para enterrar últimos ossos políticos de Pinochet

Aprovada em plebiscito por 78% do eleitorado e prevista para abril de 2021, formulação de nova Constituição chilena simboliza o sepultamento de um projeto político e econômico cruel, falido e impopular Por Mylena Fraiha e Norberto Liberator Colaborou Fábio Faria O resultado do plebiscito ocorrido no último dia 25 trouxe inúmeros significados para a população chilena, que tem ocupado as ruas do país desde 2019. Com o apoio massivo de 78% dos eleitores, o Chile aprovou a formulação de uma nova Constituição, que será formulada a partir de abril por uma assembleia eleita com paridade de gênero (metade de parlamentares homens e metade mulheres) e dará fim à última grande herança da ditadura pinochetista, a Constituição chilena de 1980. Embora tenha passado por algumas alterações, a atual carta constitucional do Chile é a mesma formulada pelo regime militar de Augusto Pinochet, o qual serve de inspiração para o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (sem partido) e seu sidekick da economia, Paulo Guedes. Com seu caráter privatista e neoliberal, a Constituição de 1980 restringe o papel estatal na prestação de serviços básicos, como saúde, educação e previdência — aspecto que impulsionou os protestos conhecidos popularmente como estallido social (ou estouro social, em português), que se iniciaram em 18 de outubro de 2019 e se estenderam até março deste ano. O fato de a Constituição de Pinochet ter sobrevivido ao fim da ditadura, e se mantido na democracia chilena até hoje, é exemplo da persistência dos moldes ditatoriais na região do Cone Sul. A atual carta constitucional, que não assegura qualquer direito básico à população, não apenas representa o fracasso do modelo neoliberal, como também é o símbolo do sistema desumano e autoritário construído pelo golpe de 1973, que destituiu o governo socialista democrático de Salvador Allende por meio de um bombardeio sangrento ao Palácio La Moneda (residência oficial do presidente chileno). A Constituição de 1980 e a herança ditatorial A atual carta constitucional chilena sacramentou o Chile como laboratório das ideias neoliberais de economistas como Milton Friedman e Friedrich Hayek, que pregavam uma aplicação radical do princípio liberal de liberdade econômica, com a ausência do Estado até mesmo em serviços básicos como educação, saúde, moradia e aposentadoria. A falta de tais garantias fez da Constituição chilena um documento substancialmente neoliberal, nos moldes do que propunham expoentes da Escola de Chicago (os chamados “Chicago Boys”). Em meados da década de 1980, setores da oposição como a Democracia Cristã, o Partido Socialista e o Partido Pela Democracia, fizeram um acordo para criar uma oposição ampla ao regime dentro da institucionalidade e preparar uma campanha pelo “Não” em 1988, ano em que estava previsto um plebiscito pela continuidade ou não do governo Pinochet. Em outras palavras, a Frente Ampla aceitou jogar dentro das regras estabelecidas pela Constituição pinochetista. Por este motivo, a exemplo do Brasil, os militares envolvidos em crimes contra a humanidade não foram julgados, assim como Pinochet passou de presidente a comandante das Forças Armadas e senador vitalício, mantendo seu papel de alto representante do Estado. O historiador Jorge Fernández nos explica que a legislação atual foi aprovada num momento em que setores da classe média e de centro “começaram a se afastar porque o regime evidentemente já se afastava dessas questões, das desculpas de democracia, da liberdade”. De acordo com Fernández, “ficava bem claro que era um projeto autoritário do Pinochet que se consolidava ao lado de alguns de seus aliados mais fiéis. As ilusões de que seria uma direita democrática já estavam praticamente perdidas”. Segundo o professor, o sindicalismo chileno começou a se reestruturar em 1981 e, em 1983, iniciaram-se as grandes manifestações de massa contra a miséria imposta por Pinochet. “A população estava passando fome, de fato. Então, cada vez mais, os setores mais moderados da direita como a Democracia Cristã, que tinha apoiado o golpe, mas foi alijada do poder e não teve chance de dividir o poder com o Pinochet, começam a articular uma oposição institucional, podemos dizer”. O historiador também afirma que a política de privatizações desenfreadas “significou perda da produção industrial, queda nos padrões de consumo e aumento generalizado do desemprego”. Fernández explica que toda a estrutura do Estado chileno foi sucateada em prol do capital estrangeiro, resultando na desindustrialização de um país que até então possuía nível razoável de desenvolvimento tecnológico. “Qualquer medida protecionista nesse sentido era desautorizada também pelo governo, já que a Escola de Chicago desconsiderava esse tipo de ação, então se passava a reger tudo pela lei de mercado”. Um dos pontos mais contestados da Constituição e que a faz garantir o neoliberalismo como política de Estado, independentemente da orientação ideológica do governo, é o chamado “cadeado” dos dois terços. No Chile, pela legislação atual, são necessários dois terços dos votos para o Congresso aprovar medidas em relação ao papel do Estado em setores como saúde, educação, distribuição de terra, controle de recursos naturais e aposentadoria, o que faz com que setores de esquerda e de centro-esquerda precisem de uma ampla maioria de mais de 66% dos parlamentares para realizar reformas estruturais, o que nunca ocorreu. Sobre este fator, Jorge Fernández reforça que os setores de centro-direita chilenos, embora contrários à brutalidade do regime pinochetista, historicamente tenderam a apoiar suas medidas econômicas e, por isso, jamais se mobilizaram contra o “cadeado” dos dois terços. “Evidentemente, muitos setores liberais, que eram contrários à ditadura, também não se interessaram em fazer mudanças substanciais à Constituição”, explica. Estallido social Existem diferentes interpretações sobre o que aconteceu no Chile nos últimos meses. De acordo com Claudio Fuentes, cientista político e redator do Centro de Investigação Jornalística (CIPER), ao longo dos anos uma desconexão entre as elites políticas e econômicas para com a sociedade chilena agravou o descontentamento da população em geral. “A modernização da sociedade fez-se à custa do esforço individual e implicou em elevados níveis de endividamento das famílias, empregos precários e acesso regular ou deficiente a determinados direitos sociais (pensões, habitação, saúde, educação)”. A eclosão social de 18 de outubro de 2019 começou inicialmente com
Da Central do Brasil aos porões do Dops

O Congresso Nacional, há 56 anos, declarava vacância da presidência da República. Era o início do golpe que instaurou uma ditadura empresarial-militar de 21 anos no Brasil
