Ato inter-religioso relembra 50 anos da morte de Herzog; veja fotos

Assassinato de jornalista expôs violência ocorrida nos porões da ditadura militar-empresarial Por Guilherme Correia (texto e fotografia) A Catedral da Sé, em São Paulo (SP), foi palco neste sábado (25) de ato inter-religioso que marcou 50 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, morto durante a ditadura militar e símbolo da resistência e luta pela democracia. O evento reuniu familiares, líderes religiosos, estudantes e políticos, incluindo o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB). O filho de Vlado, Ivo Herzog, afirmou que o ato representa “mais um capítulo histórico” na luta pela memória e pela justiça. “Há 50 anos, quando mais de oito mil pessoas vieram a essa catedral demonstrar sua indignação contra a barbárie que foi cometida contra o meu pai, havia muito medo, medo do Estado. Havia dezenas de atiradores de plantão aguardando que qualquer manifestação justificasse um massacre”, narrou. “Hoje, na pessoa do presidente Geraldo Alckmin, nós temos o Estado de mãos dadas com a gente para reafirmar o compromisso com a democracia, com a justiça, com os direitos humanos e com a verdade.” Ivo criticou o uso político do termo “anistia” por setores da extrema-direita e defendeu a retomada do debate no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a revisão da Lei da Anistia de 1979. “A anistia de 79, ela por si só é uma aberração porque o regime autoritário da época nunca reconheceu que cometeu nenhum crime. Então, como há perdão de quem não cometeu crime?” Ele lembrou que a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 320, que trata do tema, está parada há mais de oito anos sob relatoria do ministro Dias Toffoli, e afirmou que “esse atraso é uma cumplicidade com a cultura de impunidade”. O filho de Herzog também disse esperar que a mobilização deste sábado pressione o Supremo a pautar o debate. “A gente não está exigindo que a lei da anistia diga isso ou aquilo. A gente está só pedindo para que o debate seja levado ao plenário, e isso tem sido negado para nós.” “O que falta para nós e para todos os familiares é o devido processo legal. É a investigação das circunstâncias dos crimes, o indiciamento dos autores, o julgamento e a decisão do nosso poder judiciário. Falta que seja feito o devido processo legal.” O jornalista José Trajano, também presente ao ato, descreveu à Revista Badaró o retorno ao local como um momento de lembrança. “Eu estava aqui há 50 anos atrás. E era um momento terrível, bota terrível nisso, assassinato do querido Vlado. Hoje nós voltamos, 50 anos depois, para homenagear, para lembrar do assassinato dele, lutando, agregando a pedido de anistia não, lutando pela democracia.”    Para ele, Herzog se tornou “símbolo desses que sofreram e foram assassinados pela ditadura”, e que a cerimônia serve para lembrar não só ele, mas todas as vítimas da repressão.    “Eu acho ridículo, as pessoas não entenderam o que foi uma ditadura. Eles têm liberdade para falar, para agir, para propor. Não tem isso de anistia não.”   Ele ressaltou que a anistia de 1979 concedida a vítimas do regime militar foi dada a “pessoas que lutaram a favor da democracia, contra uma ditadura”, o que seria “completamente diferente” da pedida agora por bolsonaristas.   Questionado sobre a sensação de estar presente no evento, ele destacou que viu uma mobilização muito grande por parte da população. “É surpreendente. As pessoas estão querendo se unir, as pessoas estão querendo se dar as mãos, as pessoas estão impressionadas com o avanço da extrema‑direita.”   “Nós estamos unidos e não queremos que esse pessoal que pede a ditadura, que pede a anistia, eles tenham que aprender e eles vão apanhar da gente. Vão apanhar da gente.” Participação popular A Escola Municipal Vladimir Herzog, localizada na zona leste de São Paulo, em Cidade Tiradentes, levou um grupo de dezenas de estudantes para acompanhar o ato. A diretora da unidade, Keila Barreto Giroto, explicou que a proposta faz parte do trabalho pedagógico da escola, que há anos integra a biografia de Herzog às atividades cotidianas. “Na escola, a gente trabalha muito a questão do legado e da biografia do Vladimir Herzog. Procuramos estar em espaços onde a presença em vida dele seja percebida. Às vezes, sair da sala de aula e ir para um lugar onde a biografia é lembrada é maior do que uma aula ou um vídeo, porque temos a conexão da vivência, do corpo, do estar presente.” Segundo ela, houve muito engajamento por parte dos alunos. A escola fica a cerca de 30 quilômetros do Centro paulistano, onde a Catedral da Sé está localizada, e mesmo assim as 40 vagas disponibilizadas foram rapidamente preenchidas. “A gente abriu e falou: quem gostaria de ir? E não tinha mais lugar. É uma vontade deles também. Nosso ímpeto é que a gente tenha uma escola que forme gente.” Em discurso na catedral, Alckmin também defendeu que a manifestação reforça a necessidade que crimes de Estado “jamais se repitam”. Fotos: Guilherme Correia “Há 50 anos, ao fim de um ato inter-religioso, realizado nesta mesma catedral, uma multidão saiu às ruas em silêncio. O silêncio não foi derivado do medo nem da omissão. Pelo contrário, representou o mais eloquente protesto, o mais retumbante grito de basta, que merecia ser ouvido pela cruel ditadura.” Ele afirmou que, a partir daquele momento, “fluiu pelas ruas e avenidas o espírito de liberdade que voltava a animar o povo brasileiro”. O presidente em exercício também fez referência à morte de Herzog nas dependências do DOI-Codi da Vila Mariana, destacando que “nem a mais covarde das mentiras, forjada pelas mais vil das tiranias, foi capaz de apagar a verdade truculenta que se abatera sobre o país”. “Por amor à liberdade, jamais haverá lugar para o nosso esquecimento. A memória de Vladimir Herzog segue viva e evoca em cada um de nós a promessa de defender os valores sagrados da vida, da liberdade e dos direitos humanos.” Alckmin encerrou sua fala dizendo que o governo Lula está alinhado com “ideais democráticos”.

“Ainda Estou Aqui”: a preservação da memória

Filme de Walter Salles aborda com sutileza e sem sensacionalismos a dor da busca por familiares mortos pela ditadura militar Por Vitória Regina e Maria Fernanda Figueiró O aguardado “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, corresponde às expectativas. A narrativa tem início em 1970, em meio à repressão e perseguição da ditadura militar brasileira, e é baseada nas memórias de Marcelo Rubens Paiva sobre sua mãe, Eunice Paiva (Fernanda Torres). Eunice, mãe de cinco filhos, vê-se desafiada a se reinventar como mulher e ativista após o desaparecimento de seu marido, Rubens Paiva (Selton Mello), sequestrado e assassinado pelas mãos do aparato repressivo do Estado. Rubens Paiva, que era deputado federal quando ocorreu o golpe de 1º de abril de 1964, convocou o povo a não ceder ao autoritarismo imposto. Sua cassação, rápida e implacável, marcou o início de uma perseguição brutal a dezenas de parlamentares opositores. O filme escapa, contudo, das narrativas tradicionais ao evitar heróis romantizados ou cenas escancaradas de tortura física. Em vez disso, explora a silenciosa e dilacerante tortura psicológica do desaparecimento, conduzindo o espectador por uma cerimônia fúnebre e angustiante, onde a dor se constrói no vazio, na ausência e na incerteza. É uma experiência de luto compartilhado e uma crítica ao desamparo que deixou a memória desses desaparecidos sem a reparação do Estado. O filme se desenha pelo olhar de Fernanda Torres, que encarna as dores de uma família marcada pela violência do Estado e pela ausência do marido. A falta de Rubens se faz uma presença constante, seja nas perguntas inocentes dos filhos sobre quando o pai voltará, ou nos momentos silenciosos em que a família se reúne para folhear os álbuns de fotos. Uma das cenas mais emblemáticas do filme é o instante em que a família decide deixar o Rio de Janeiro. Antes da partida, Eunice e os filhos recebem a visita de um jornalista para uma matéria sobre o desaparecimento de Rubens. O fotógrafo, atento ao desejo do editor, sugere que se posicionem de forma séria, sem sorrisos. Eunice, porém, se recusa. Ela entende que aquela imagem poderia ser manipulada pelos militares e pela mídia, transformando os Paiva em símbolos de derrota. Assim, guiada por um sentimento de esperança, Eunice se volta para seus filhos e diz: “vamos sorrir.” No ato final, Fernanda Montenegro entrega uma atuação avassaladora e silenciosa. Como Eunice, já tomada pelo Alzheimer, Montenegro emociona-se ao ouvir o nome de Rubens na Comissão Nacional da Verdade de 2014. A morte de Rubens só foi oficialmente reconhecida em 1996, mais de duas décadas após seu assassinato.  E foi por meio dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade – composta por sete membros nomeados pela presidente Dilma Rousseff e assistida por uma equipe de pesquisadores e consultores – que vieram à tona as circunstâncias de suas torturas e a identidade dos responsáveis. Mesmo assim, nenhum dos agentes envolvidos em crimes de Estado foi julgado ou responsabilizado. A obra traz elementos estéticos que reforçam a singularidade da narrativa. Desde o enfoque dado a objetos que capturam o presente de cada época até a trilha sonora cuidadosamente selecionada, a direção constrói uma atmosfera onde a memória ocupa lugar central em cada cena. O filme também brinca com a temporalidade, atravessando a década de 1970, os anos 2000 e o ano de 2014. Entre esses lapsos temporais, os objetos que capturam a memória atuam como signos que costuram a narrativa. Da filmadora e câmera analógica aos modernos iPhones, o diretor utiliza esses elementos de maneira sensível para evidenciar a urgência de capturar o presente, em um recado que diz: “não esquecemos, ainda estamos aqui. A trilha sonora do filme é composta por clássicos brasileiros das décadas de 1960 e 1970, período em que muitos artistas foram perseguidos e suas produções censuradas pela ditadura militar. A música-tema, “É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo”, de Erasmo Carlos em parceria com Roberto Carlos, reflete o tom da narrativa. Lançada no álbum “Carlos, Erasmo” (1971), onde aparece como terceira faixa, a canção carrega uma melodia robusta e oferece uma metáfora para o ambiente opressivo e hostil da época.  A letra dialoga com a narrativa proposta pelo diretor, onde o espaço para o não dito se manifesta em olhares e gestos — como o olhar agônico da protagonista no pôster do filme. Em meio aos obstáculos e dores de uma longa jornada, a história lembra da importância de dizer e de não se esquecer o que foi vivido, cumprindo, nas palavras de Castoriadis, nossa obrigação com as gerações futuras e com a memória daqueles que vieram antes de nós. “Ainda Estou Aqui” demonstra que não se constrói um futuro ignorando o passado. É, sobretudo, uma obra dedicada à preservação da memória e um convite a nunca esquecer, tampouco perdoar.     Vitória Regina Marxista e psicóloga. Debate política, psicologia e cultura. Maria Fernanda Figueiró Acadêmica de Psicologia pela UFMS, atua há mais de 16 anos na área da dança e atualmente é intérprete criadora das companhias de dança Cia do Mato e Ginga. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Henfil: 80 anos do rebelde do traço 

Trajetória de cartunista mineiro foi marcada pela luta política Arte: Paloma Silva Roteiro: Norberto Liberator     Paloma Silva Estudante de Ciências Sociais, Ilustradora e Quadrinista. Interessada em questões raciais, sociais e políticas Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Carismáticos vs. libertadores: a Igreja Católica em disputa

Em meio a cobranças por solidariedade a colega perseguido pela extrema-direita, padres midiáticos se omitem e expõem antiga tensão entre Teologia da Libertação e Renovação Carismática Por Norberto Liberator A tentativa do vereador paulistano de extrema-direita Rubinho Nunes (União), um dos fundadores do MBL, de instaurar uma CPI que mire o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo na Rua, tem causado comoção nas redes sociais e obrigado algumas figuras como o vereador Thammy Miranda (PL) a voltar atrás em suas posições. Para além das mobilizações nas ruas e nas redes sociais, ela evidencia também uma divisão histórica na Igreja Católica. A perseguição do MBL ao sacerdote, que coordena ações junto à população em situação de rua, não é nova. Em 2020, o agora ex-deputado estadual Arthur do Val – cassado em 2022 após áudio em que sugeria tirar proveito sexual de mulheres em zona de guerra –  foi condenado pela Justiça Eleitoral a apagar conteúdos em que atacava o padre Júlio, além de ser impedido de produzir novas postagens com o mesmo cunho. No entanto, o que também chama atenção é o fato de padres de grande alcance midiático, como Fábio de Melo e Marcelo Rossi, se absterem de manifestar apoio público a seu colega perseguido pela extrema-direita. No caso de Fábio, após intensa pressão nas redes sociais, foi publicada uma postagem com print da nota da Arquidiocese de São Paulo. No texto, bastante discreto para os padrões do influencer católico, o sacerdote-galã afirma esperar “que tudo se esclareça”. A postagem de Melo não menciona o fato de Lancellotti sofrer perseguição por pôr em prática justamente os ensinamentos dos Evangelhos. Ao esperar que “tudo se esclareça”, Fábio de Melo valida as acusações sobre Júlio “lucrar com a miséria”, o que implica em acusar a Arquidiocese de São Paulo, à qual ele mesmo está submetido. Em relação a Marcelo Rossi, até o momento da publicação deste artigo, não houve qualquer posicionamento. O mesmo se aplica a Reginaldo Manzotti, João Carlos, Alessandro Campos e Antônio Maria. Há um motivo para a apatia dos padres ‘popstars’ em relação à perseguição sofrida por Júlio Lancellotti. Todos os sacerdotes aqui citados (menos Júlio) pertencem ao movimento autodenominado “Renovação Carismática Católica” (RCC). A origem da RCC é atribuída a um retiro espiritual realizado em 1967 em Pittsburgh, no estado estadunidense da Pensilvânia, como reação à perda de fiéis da Igreja Católica para o pentecostalismo. Por isso, ela incorpora à Igreja de Roma características pentecostais como a oração em “línguas estranhas”. Na prática, a RCC se consolidou como reação à Teologia da Libertação (TL), que traz uma interpretação à esquerda em relação às Escrituras, sobretudo ao Novo Testamento. A TL teve destaque sobretudo na América Latina, onde muitos de seus adeptos apoiaram e até participaram de revoluções, como em Cuba e na Nicarágua, ou prestaram suporte à resistência armada contra ditaduras militares-empresariais. Um dos casos mais famosos mundialmente foi a atuação do padre Óscar Romero (canonizado como São Romero durante o pontificado de Francisco I) na defesa dos camponeses durante a Guerra Civil de El Salvador, eternizada nos cinemas pelo filme “Romero” (1989, direção de John Duigan). A interpretação de Raúl Julia no papel do sacerdote que dá nome à obra é aclamada pela crítica. Embora Romero relutasse em fazer uma relação direta entre o marxismo e o cristianismo, afirmava ser adepto da TL “por Cristo, não por Marx”. Romero foi assassinado em março de 1980 enquanto celebrava uma missa. Tanto a TL quanto a RCC são expressões possibilitadas pelo Concílio Vaticano II, ocorrido durante o pontificado de João XXIII e que tornou a Igreja mais flexível permitindo, entre outras coisas, que as missas não fossem realizadas em latim. No entanto, ambas seguiram caminhos opostos entre si. A Teologia da Libertação no Brasil No Brasil, a TL teve forte influência sobre as pastorais católicas e as comunidades eclesiais de base, setores que viriam a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) junto às alas acadêmica, artística, camponesa e sindical. Dom Paulo Evaristo Arns (ex-arcebispo de São Paulo) e sua irmã Zilda Arns (fundadora da Pastoral da Criança), embora não tenham sido adeptos diretos da TL, orbitaram o universo dos “católicos vermelhos” em sua atuação religiosa e política. Das formações da TL surgiram alguns dos principais intelectuais e militantes brasileiros, como o sociólogo Betinho, o líder sindical e ambientalista Chico Mendes, a ambientalista e atual ministra Marina Silva, a deputada federal Luíza Erundina e o pedagogo Paulo Freire. Após a morte do arcebispo Dom Hélder Câmara em 1999, os dois nomes mais conhecidos da TL no Brasil são os do frei Betto e Leonardo Boff. O primeiro, frade dominicano e ex-assessor especial da Presidência da República para movimentos sociais, cuja atuação no suporte ao guerrilheiro Carlos Marighella resultou no livro “Batismo de Sangue” (primeira edição em 1982) e inspiraria o filme homônimo de Helvécio Ratton em 2006; o segundo, ex-frade franciscano que deixou a carreira eclesiástica para se casar. A freira Ivone Gebara, pioneira na discussão sobre saúde reprodutiva, também é uma figura de destaque na TL brasileira. Ao contrário do que sugerem várias buscas por seu nome na internet, Boff nunca foi excomungado pelo Vaticano. Em 1984, foi condenado a um “silêncio obsequioso” a pedido do então cardeal Joseph Ratzinger (que viria a ser o Papa Bento XVI), posto em prática pelo Papa João Paulo II. Tanto Bento XVI quanto João Paulo II eram adeptos de alas reacionárias da Igreja, tendo atuado para combater a influência da esquerda católica. Processo semelhante ao de Boff também foi imposto, na década de 1980, ao bispo Dom Pedro Casaldáliga. O sacerdote espanhol radicado no Brasil foi um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), respectivamente entidades que atuam na defesa de camponeses e povos indígenas. São a CPT e o Cimi que produzem, anualmente, relatórios utilizados em dados oficiais sobre violência no campo e contra populações originárias. Curiosamente, em Mato Grosso do Sul, deputados ruralistas instauraram a CPI do Cimi em 2016. A Teologia

Os pátios da ditadura – A saúde mental durante o regime militar

Colagem mostra soldado da ditadura em frente ao interior da Casa de Saúde Dr. Eiras.

Durante os anos ditatoriais no Brasil, se firmou a “indústria da loucura”, que tornou lucrativo tortura e assassinato de pessoas nos parques manicomiais do país Por Carolina de Mendonça “Eu vi o inferno! Eu vi o inferno! Eu vi uma cidade viver às custas do Paracambi. Viver às custas de um hospital psiquiátrico. Eu vi a cidade, prefeitos, secretários […] os corpos sendo dilacerados e você sem saber”. Assim o angiologista Laerte Andrade de Vaz Melo descreve a Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi (RJ), o maior hospital psiquiátrico privado do Brasil, durante o século XX. O médico atuou como presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), quando a entidade foi reaberta no período de redemocratização, e também participou do fechamento de manicômios durante a Reforma Psiquiátrica. O horror descrito pelo médico era o padrão da saúde antes da Reforma Sanitária – que levaria à criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Os manicômios tiveram expressivo aumento de investimentos públicos e pessoas internadas durante os 21 anos que sucederam o golpe empresarial-militar ocorrido em 1º de abril de 1964, dia em que as tropas tomaram o Forte de Copacabana e João Goulart deixou Brasília. Um crescimento vertiginoso e hediondo que ficou conhecido como “Indústria da Loucura”. Normalidade aparente A ditadura brasileira buscou demonstrar para o exterior e a uma parte da classe média despolitizada, uma situação política habitual. Os atos institucionais cerceavam algumas das liberdades culturais e políticas da população, ao mesmo tempo em que buscavam manter a aparência democrática. Havia alternância de governantes, mas o voto era direto apenas para deputados e vereadores. Os partidos políticos foram extintos e reduzidos à Aliança Renovadora Nacional (Arena) e ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Sindicatos e entidades políticas profissionais, como conselhos de classe, eram amordaçados e, por vezes, fechados. Agremiações e grupos da esquerda radical eram considerados organizações terroristas e tiveram seus membros perseguidos, exilados, torturados e mortos.  A instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5) inicia o período mais repressivo dos governos militares, chamado de “anos de chumbo” – que durou entre os anos de 1968 a 1974. Artistas e jornalistas, alguns dos setores da sociedade capazes de sistematizar e divulgar denúncias contra o regime ditatorial, foram duramente perseguidos. Órgãos de censura avaliavam detalhadamente tudo que era produzido antes de ser colocado a público, respeitando as morais e os bons costumes. Com isso, diversas obras foram drasticamente modificadas e até perdidas, enquanto jornais amanheciam com receitas de bolo para cobrir o espaço de notícias e reportagens consideradas “subversivas”. Cerceando a possibilidade de acusações públicas, com uma “melhora milagrosa” da economia e o futebol, grande paixão nacional, sendo utilizado para reforçar o patriotismo com a vitória na Copa de 1970, não se percebia que o país passava por enormes problemas, com o acirramento das desigualdades sociais – essas que impactavam diretamente a saúde da população. Na década de 1970, houve uma epidemia de meningite no Brasil e o governo buscou omitir os perigos da doença, evitando medidas de cuidado com a população, além de censurar dados sobre infectados e mortos – números que são incertos até os dias atuais. Espaços disciplinares O psiquiatra Edmar Oliveira, que participou de fechamentos de manicômios no estado do Rio de Janeiro, contou em entrevista que o objetivo desses espaços é “despir o indivíduo de toda sua individualidade”, além de “transformar ele [indivíduo] em um igual aos outros”. O regime militar brasileiro cumpria uma agenda moral; temas como sexo, aborto, homossexualidade, pautas raciais, alcoolismo, uso de substâncias psicoativas e até mesmo palavrões eram tidos como subversivos. Aqueles que buscavam transgredir a hipocrisia da época sofriam retaliação e poderiam ser classificados como loucos, dentro de uma lógica psiquiátrica normativa e moralista. Mulheres que decidiam por abortar, bêbados, pessoas que se relacionavam com outras do mesmo gênero, pessoas que transgrediam o gênero, que feriam a moral monogâmica, que tinham crenças diferentes das cristãs, que se colocavam contra as discriminações raciais – qualquer um, poderia ser internado em hospícios, desde que a lógica sanitária vigente julgasse que o sujeito deveria ser escondido atrás de grandes muros afastados dos centros. Edmar Oliveira analisa que quanto mais autoritário o regime, mais cerceada é a loucura. Os tidos como insanos são menos ouvidos e mais maltratados. No manicômio, não se perde apenas a liberdade, mas também a humanidade e a capacidade de gerir sua própria vida. As pessoas que eram levadas aos manicômios, nem sempre tinham, de fato, alguma patologia, mas naquele espaço, desenvolviam diversos adoecimentos psíquicos. O psiquiatra comenta: “o hospício provoca o que chamamos de iatrogenia [efeito negativo de tratamento mal conduzido] muito grave, porque vários dos sintomas de quem passou 30, 40 anos internado, já não podia atribuir o sintoma à doença, mas ao ‘tratamento’, ao isolamento que aquelas pessoas estavam”. A perda de noção de tempo e espaço, o afastamento brusco da vida em sociedade, a diminuição significativa do contato com a família e até a perda total dessas relações, levam a um sofrimento psíquico, que pode desencadear uma psicopatologia. Levantamento realizado com os internos da Casa de Saúde Dr. Eiras, em 1997, mostrou que mais de 42,7% moravam no hospital e não tinham domicílio fora, enquanto 36,5% estavam lá por mais de uma década e 73,8% não saiam da unidade hospitalar. Para o psiquiatra, o hospício é “absolutamente anti-terapêutico”.  Indústria de torturas Sobre a Casa de Saúde Dr. Eiras, o médico Laerte Melo comenta que “Paracambi foi um escândalo de tal magnitude, porque esse hospital tinha ligações com o passado da ditadura”. Na ocasião, o angiologista se referia ao caso de Leonel Tavares de Miranda, que esteve à frente do Ministério da Saúde entre os anos de 1967 e 1969 e se tornou proprietário do espaço.  O manicômio localizado em Paracambi chegou a ser a maior unidade particular do mundo, chegando a ter dois mil leitos ocupados. O projeto inicial contava com 400 leitos. Apesar de ser um hospital gerido pela iniciativa privada, seu financiamento era estatal. Prática comum durante o período