Salas fechadas, projetores parados

Em março de 2020, as salas de cinema de todo o Brasil fecharam as portas com o início da pandemia de COVID-19. Mais de um ano depois, uma reflexão sobre o atual estado das coisas no que envolve esse parque exibidor tradicional envolve tentativas de reabertura, lançamentos, plataformas de streaming e um futuro ainda incerto

Na ausência de Mojica

Falecido em fevereiro de 2020, o cineasta José Mojica Marins deixou para o cinema brasileiro um legado que vai muito além do seu mais famoso personagem, o Zé do Caixão. Um ano depois, a trajetória desse mestre do cinema popular segue sendo única, entre seus altos e baixos

O eterno carnaval das chanchadas

Popularmente conhecidas como chanchadas, comédias musicais dominaram a bilheteria do cinema brasileiro entre as décadas de 1930 e 1960. Esses filmes incorporavam elementos das grandes produções hollywoodianas, do teatro de revista e do carnaval carioca, e hoje são lidos como parte fundamental da história do cinema brasileiro

Questão de raça: o negro no cinema brasileiro

Por Igor Nolasco Colaboraram Leopoldo Neto e Norberto Liberatôr Zózimo Bulbul (1937–2013), ator e cineasta, foi (e segue sendo) um dos mais celebrados avatares da representatividade negra no cinema brasileiro. Além da realização de obras magistrais à frente ou por trás das câmeras, Bulbul é responsável pela fundação do Centro AfroCarioca de Cinema, que organiza cursos, palestras e mostras audiovisuais voltadas para um cinema que discuta ativamente a questão racial brasileira e internacional. Enquanto diretor, seus principais trabalho são o curta “Alma no Olho” (1973) – pensado, filmado e montado de maneira experimental e trabalhado em cima da música e da obra de John Coltrane – e o longa “Abolição” (1988), documentário com quase três horas de duração que escova a história do Brasil a contrapelo, discutindo-a a partir da perspectiva racial e tendo como pretexto para tal a data dos 100 anos da abolição oficial da escravatura no país. Dentre os papéis de maior destaque em sua filmografia como ator está o de protagonista em “Compasso de Espera” (1973), de Antunes Filho, um dos mais célebres diretores do teatro brasileiro. O longa estrelado por Bulbul foi único filme que realizou. Tendo trabalhado majoritariamente com teatro ao longo de sua carreira, a contribuição de Antunes Filho, um cineasta branco, para o cinema brasileiro é um filme completamente focado na discussão sobre raça nos estratos sociais mais abastados do país. E é uma obra recorrentemente deixada de fora das retrospectivas oficiais de nossa cinematografia. Cineastas de um só trabalho já foram consagrados no cânone fílmico nacional, sendo o exemplo mais óbvio disso a elevação de Mário Peixoto, realizador do lendário “Limite” (1931), ao status de mito. Status este, aliás, que lhe foi conferido em vida. Para todos os efeitos, Antunes Filho não teve a mesma sorte, ao menos no cinema. Seu longa é pouco comentado, pouco discutido e raramente abordado mesmo dentro da comunidade acadêmica, o que pode alimentar reflexões, visto que toca em assuntos que até então eram raros em nossa cinematografia, e de forma praticamente inexistente. Até os anos de 1960, a questão do negro no cinema brasileiro estava dando seus primeiros passos. Grande Otelo já havia sido uma grande estrela nas chanchadas, contudo, não raros eram os papéis que o reduziam a estereótipos. Um dos exemplos mais gritantes pode ser visto em “Onde Estás, Felicidade?” (1939), dirigido por Mesquitinha. Em sua biografia de Grande Otelo, Sérgio Cabral colhe o depoimento de Alice Gonzaga (filha de Adhemar Gonzaga, que por sua vez era fundador da Cinédia – estúdio que realizou o filme em questão):   “[No filme,] ele é um moleque espantado, preguiçoso, que vai pedir uma terrina emprestada à [personagem de] Luísa Nazaré, que acaba de arrumar um prato de rabanadas ‘lindas e doiradas como o sol nascente’. Quando esta se vira, Otelo não resiste à gula e rouba as rabanadas, colocando-as inteiras na boca. [A personagem de] Nilza Magrassi, vendo Grande Otelo com a boca cheia, pergunta se ele está com dor de dente. […]   Na sequência, Otelo é visto como um moleque infantilizado, a carapinha arrepiada, trajando fraldas, como um bebê gigante – e se comportando como tal. Tony Tornado, ator negro como Otelo, mencionou em algumas ocasiões ter recebido do colega o conselho de que, para os profissionais retintos na dramaturgia, “não tem papel pequeno” – antes de alcançar o estrelato com “Moleque Tião” (1943), Otelo só aparecia no cinema em papéis considerados pequenos. Em seu período áureo na chanchada, o ícone do humor brasileiro só estrelava filmes se formasse uma dupla com outro ator (frequentemente Oscarito, ocasionalmente Ronald Golias ou Ankito), ou era jogado para escanteio como coadjuvante. Depois disso, suas participações no cinema se tornaram esporádicas – apenas cineastas como Rogério Sganzerla e Julio Bressane souberam aproveitar sua genialidade em filmes posteriores – e em poucas oportunidades Otelo pode deixar a comédia de lado e explorar seus dons dramáticos, as mais notórias sendo o clássico “Rio, Zona Norte” (1957) e o tristemente pouco comentado “Também Somos Irmãos” (1949). Ademais, outros atores com enorme aptidão dramática, como Ruth de Souza, eram relegados a papéis de menor expressão – Em “Sinhá Moça” (1953), um dos mais conhecidos longas da efêmera produtora Vera Cruz, Souza é relegada ao papel de uma escrava, em uma trama que deixa a escravidão de pano de fundo para dar protagonismo às desventuras amorosas e sociais de personagens brancos – que, no fim das contas, salvam o dia, de forma benevolente, para os escravos. Em 1963, 24 anos após Grande Otelo aparecer de fraldas com a boca entupida de rabanadas em “Onde Estás, Felicidade?”, Carlos Diegues lança “Ganga Zumba”, cinebiografia do guerreiro que fundou o Quilombo dos Palmares. É considerado um dos primeiros filmes brasileiros com um elenco majoritariamente negro, e Diegues voltaria à questão racial em “Xica da Silva” (1976) e “Quilombo” (1984). Protagonizado por um elenco principal completamente negro, algo revolucionário à época no cinema ocidental como um todo, o longa contava com a presença de atores que marcariam a cinematografia do país, como Antônio Pitanga, Waldir Onofre e Zózimo Bulbul. Em 1969, o mesmo Pitanga interpretaria um playboy casanova arrogante no clássico do Cinema de Invenção “A Mulher de Todos”, de Rogério Sganzerla, sendo esta uma das primeiras representações no nosso cinema do homem negro enquanto uma pessoa de status social elevado no meio urbano – algo que viria a ser tema de algumas outras produções nos anos seguintes. Uma delas é outro longa que tornou-se praticamente esquecido na cinematografia nacional. Trata-se de um filme curioso de Carlos Alberto Prates Correia, chamado “Crioulo Doido” (1971) – como no samba. Apesar do título que hoje soa anacrônico, trata-se de uma produção surpreendentemente progressista, que conta a história de um alfaiate (interpretado brilhantemente por Jorge Coutinho) em uma pequena comunidade interiorana em Minas Gerais que começa a ascender socialmente e logo torna-se objeto de interesse de pessoas brancas que até então o tratavam com desprezo e racismo, o que inclui uma moça que o seduz e desposa –