Muros de Maceió retratam memórias destruídas pela Braskem

Atuação de empresa petroquímica foi apontada por relatório como responsável por destruição em bairros de Maceió; vítimas relatam falta de responsabilização sobre atuação da multinacional Por Carolina de Mendonça Há cerca de cinco anos, Maceió (AL), cidade litorânea que está aproximadamente a nível do mar, sofre um desastre ambiental por conta da empresa petroquímica Braskem. Em 2018, houve um tremor de terra sentido em alguns bairros por conta da ação da multinacional. Após isso, os bairros atingidos, aproximadamente cinco, começaram a ser evacuados, pois estavam “afundando”. As problemáticas ambientais não são novidade no Brasil e carregam diversas características em comuns. Nos casos mais latentes, são provocadas pela ação predatória do capitalismo — grandes empresas são os principais agentes causadores da destruição — e quase sempre acabam sem a responsabilização dos culpados. Há oito anos, por exemplo, em novembro de 2015, Mariana (MG) sofria um dos maiores crimes ambientais do mundo, com o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, controlada pelas empresas Vale e BHP Billiton. O episódio resultou em 19 mortes, um aborto, deixou 350 famílias sem casas e atingiu mais de um milhão de pessoas em 46 municípios de Minas Gerais e Espírito Santo. Em 2020, o bioma do Pantanal sofria com o maior índice de queimadas já registrados por diferentes órgãos, incluindo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), provocados comprovadamente pelo agronegócio, conforme relatório do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). O mesmo setor agropecuário é apontado como o causador da seca histórica e queimadas que têm afetado a qualidade do ar no bioma da Amazônia — com a culpa sendo jogada lado a lado pelos governos do Pará e Amazonas. Em todos os casos, é sabido quem são os responsáveis, mas a justiça nunca é feita. Em Mariana, por exemplo, mais de 250 reuniões foram feitas com as famílias, conforme o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), mas as negociações entre governos de Minas Gerais e Espírito Santo, além do Ministério Público, foram encerradas ano passado indenização, já que Samarco, Vale e a BHP Billiton se recusaram a pagar valores requeridos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). No caso de Maceió, mais de quatro anos depois de relatório que atribui de forma conclusiva a determinação da mineração da Braskem sobre os danos nos bairros, a responsabilização criminal é uma lacuna que ainda permanece. Investigações da Polícia Federal (PF), iniciadas ainda em 2019 , após requisição do Ministério Público Federal (MPF), ainda não foram finalizadas e seguem sob sigilo. A tragédia ambiental que abalou o bairro Pinheiro, um dos mais tradicionais da capital alagoana, ganhou destaque após tremores de terra e danos estruturais devastadores, sentidos por moradores em março de 2018. A região deparou-se com rachaduras em edifícios, ruas esburacadas, afundamento do solo e crateras. Inicialmente, forte temporal em fevereiro de 2018 reforçou danos estruturais já existentes. Nas semanas seguintes, os residentes sentiram os tremores, com suspeita de afundamento de solo ou até mesmo a antiga infraestrutura de esgotamento sanitário como possíveis causas subjacentes. Os efeitos não se limitaram ao Pinheiro, já que bairros vizinhos, como Mutange e Bebedouro, também começaram a sofrer efeitos similares. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) liderou estudos para descobrir as origens do episódio e, à medida que as pesquisas avançavam, o caso ficou cada vez mais complexo e evidente que não se tratava de um fenômeno geológico natural. Um ano após o primeiro tremor, após análises minuciosas e envolvimento de 52 pesquisadores, o órgão concluiu que a extração mineral de sal-gema pela petroquímica Braskem era a principal culpada pelos danos. O fenômeno foi identificado como “subsidência”, um afundamento da superfície devido a mudanças no suporte subterrâneo. O processo contou com a participação da Defesa Civil Municipal e, posteriormente, da Defesa Civil Nacional em cooperação com o SGB. Juntos, identificaram edifícios com danos graves, exigindo evacuação imediata, começando pelo bairro Pinheiro e se estendendo a outros. A mineração de sal-gema na região da Lagoa Mundaú, em Maceió, remonta à década de 1970. Antes da divulgação do relatório do Serviço Geológico do Brasil, antiga Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), havia 35 poços de extração na área urbana. A instabilidade dessas crateras pressurizadas e seladas resultou nos danos visíveis na superfície. Cientistas envolvidos afirmaram que o tremor de março de 2018 resultou do colapso de uma dessas minas. Além disso, os relatórios destacam a existência de outras minas deformadas e desmoronadas, indicando a possibilidade de mais tremores. Desde o incidente inicial, o MPF em Alagoas assumiu a liderança na investigação, buscando identificar as causas subjacentes e, principalmente, garantir a segurança da população afetada. Uma das diversas consequências do caso foi o aumento de preços do mercado imobiliário em território maceioense, conforme reportagem publicada pela Agência Tatu. Entre de 2019 e 2022, o valor por metro quadrado saltou de R$ 4.992 para R$ 6.494, um aumento superior a 30%, em média. O crescimento colocou Maceió como a segunda capital brasileira, e a primeira no Nordeste, a experienciar o maior aumento imobiliário neste período. Vale destacar que houve deslocamento de mais de 50 mil pessoas dos bairros impactados pela mineração irregular de sal-gema pela Braskem. Em carta aberta, lideranças de movimentos de vítimas da petroquímica – que seguem sem justiça – reivindicam devida responsabilização da empresa, calculando pagamento de, ao menos, R$ 200 mil em indenização para cada morador, trabalhador ou empreendedor dos bairros atingidos diretamente pela atuação da empresa, de acordo com o jornal Mídia Caeté. “Há evidências que comprovam que a deformação nas cavernas da mineração teve papel predominante na origem dos fenômenos que estão causando danos na região estudada”, diz a conclusão do estudo elaborado pelo SGB, que é vinculado ao Ministério de Minas e Energia. A Braskem tem se colocado como “colaboradora” de toda a situação, ao tempo em que coleciona acordos com órgãos públicos que já lhe renderam a compra dos terrenos dos quatro bairros afetados pela mineração que ela mesma proporcionou. Em julho, a petroquímica assinou um acordo com a prefeitura de Maceió
Diário poético sobre vazios abundantes na vida e obra de José Leonilson

Nascido em Fortaleza, José Leonilson Bezerra da Silva produziu milhares de obras que o firmaram com um dos grande nomes da arte contemporânea brasileira Por Carolina de Mendonça Era uma sexta-feira, 1º de março de 1957, na cidade de Fortaleza, capital cearense, onde nasceu José Leonilson Bezerra Dias. Morreu, precocemente, pouco mais de 36 anos depois, na capital paulista. Chamado de Zé ou Leo, pelos íntimos, foi conhecido no meio artístico como Leonilson e produziu milhares de trabalhos que o firmaram como um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. Na infância, experimentou brevemente uma vida quase nômade- após sair de Fortaleza (CE), morou em Manaus (AM), Porto Velho (RO), até se fixar em São Paulo (SP). Anos depois, já adulto, foi à Europa, com uma mala e uma pasta com seus desenhos, onde passou por Milão (Itália), Munique (Alemanha) e Amsterdã (Países Baixos). Depois, retornou a São Paulo e nunca parou de viajar, seu grande prazer. Em solo europeu teve sua primeira exposição individual e conheceu o trabalho no mercado das artes. Repudiou a forma como o ramo comercial se organiza. Afirmou que não se envolveria nisso, não queria ser rico, mas desejava que sua obra tivesse coerência consigo e que estaria feliz se tivesse condições para conhecer outros lugares. Vida pessoal e trabalhos artísticos se misturaram. Suas telas, esculturas e gravações relatavam seu cotidiano, coleções de objetos, páginas de diário e bordados. Tudo faz parte de uma cartografia autobiográfica. Poética, contínua, íntima e melancólica. José – Leonilson (1991) Como vai você, José Leonilson? Apesar de sua mãe cogitar que se tornaria um engenheiro ou arquiteto, Leonilson sempre teve tendência à pintura. Desenhou desde a adolescência, mas muitos dos primeiros trabalhos foram destruídos pelo próprio artista. Sua família teve certeza de que ele trabalharia apenas como artista visual quando o jovem viaja à Europa e lá tem sua primeira exposição individual, na Galeria Casa do Brasil (Madrid – Espanha), em 1981. O artista já havia exposto de forma coletiva anteriormente, na exposição “Desenho Jovem” no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em 1979. Apesar da conquista, no ano seguinte abandona o curso de artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Ainda em 1980, participa da exposição Panorama da Arte Atual Brasileira/Desenho e Gravura no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM – SP). Sob o peso dos meus amores – Leonilson (1990) Em 1984, esteve entre os 123 artistas brasileiros (a maioria do eixo Rio-São Paulo) a participar da exposição “Como vai você, Geração 80?” realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Parque Lage), no Rio de Janeiro (RJ). O grupo colocado de forma genérica traz um anseio artístico mais hedonista e presentificado, em jovens que criam pinturas pelo “prazer” em um país que se reabriu politicamente após dura censura. As obras de Leonilson não se limitam à pintura, mas fazem uso de elementos de coleção pessoal e material de bordado. É uma produção artística aprofundada na dimensão subjetiva que explora os desejos de si e a relação desses desejos com o outro. José também gostava das relações de poder dedicar algo ao outro – muitas de suas obras se tornaram presentes para seus amigos e amantes. Afetos costurados sem acabamento O pai do artista era vendedor de tecidos e a mãe bordava. Quando criança, aprendeu o ofício em uma escola de freiras que estudou. Tecidos, pedrarias, botões, novelos e outros objetos cotidianos eram guardados por Leonilson e usados em sua obra. No uso de materiais de bordado, o artista é diverso – varia em panos de diversas texturas, tamanhos e cores que dão peculiaridades e interpretações particulares a cada obra e mantém uma síntese de seu estilo. São constantes as aproximações do fazer de José Leonilson com o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário. Apesar de propósitos distintos com suas obras – Bispo produzia por pretensões religiosas, Leonilson como retratos autobiográficos de sua existência – se aproximam na utilização de objetos corriqueiros e uso constante do bordado, que ambos tiveram contato ainda na infância. José Leonilson nutria grande admiração por Bispo do Rosário. Conheceu as obras no final dos anos 1980 e acompanhou até 1993, ano de seu falecimento, em exposições organizadas por Frederico Morais. Tal como o sergipano, Leonilson tinha uma forte influência do catolicismo em sua vida. Voilà mon coeur – Leonilson (1989) Leonilson via a costura como arte perfeita, mas aceitou que não chegaria a tal excelência, o que aproveitou em sua criação. Sua mãe e irmã brincam em entrevista para a série O Mundo das Artes (SESC TV) que ele bordava mal. De fato, sua criação com linha tem um misto de infantilidade e confusão. Para o artista, o conceito da obra se materializou no suporte, a ideia por trás da obra era o mais importante. Nesse caso, seus ideais eram ligados aos sentimentos. Bordar é um ato solitário, íntimo e, majoritariamente, feminino. Uma atividade doméstica feita com destreza e cuidado. Para alguns teóricos, a produção é colocada como uma arte menor, ou algo que não chegaria ao status de arte, apenas um artesanato, pois supõe não existir na criação um aspecto intelectual, mas apenas manual. Um equívoco preconceituoso que busca diminuir arte produzida por povos tradicionais e por mulheres de forma cotidiana. Ninguém – Leonilson (1988) Leonilson era um homem branco. Não era visto em primeiro momento como alguém que pertencia ao universo do bordado, era intruso nesse mundo. Sua transgressão no uso dessa técnica o coloca em uma posição marginal quanto a arte. Não desejava ultrapassar as normas em sua vida pessoal. Mas transpôs. José Leonilson era um homem gay. Em diário comentou não desejar ser uma bicha, uma ideia estereotipada de homem afeminado, até se atraia por algumas mulheres, porém desejava os homens. Queria ser visto como um homem forte, um peixe com o oceano inteiro para nadar. E em paralelo utilizava de técnicas tidas como femininas e delicadas para falar de sentimentos. Cotidiano confessional de mapas internos Em janeiro de 1990, ele
