Comportamento geral
Por Igor Nolasco Crônica de mais um ano sem carnaval Pandemia, ano três. Após um recesso não-planejado, estamos de volta com nossa coluna na Badaró. O que mudou desde que estivemos nesse espaço da última vez? Infelizmente, não muito. Bom, vamos às notícias: mais um ano sem carnaval. Pero no mucho, é verdade: o feriado seguirá em vigor; os desfiles das Escolas de Samba no Rio de Janeiro foram adiados para abril; bailes privados e eventos em locais fechados seguem aprovados. O que foi vetado, mesmo, foi o carnaval de rua. Ao menos oficialmente, isso é: a agremiação popular não foi chancelada pelo poder público. Volto ao Rio de Janeiro como exemplo, porque é daqui que escrevo e, por ser de onde vejo o mundo, ocupa uma posição central na minha ótica de cronista: os blocos cariocas precisam necessariamente de uma permissão da prefeitura para estarem na rua. Pelo segundo ano seguido, não a receberão. Há muito o que ser discutido sobre essa questão, que já foi colocado de forma inteligente e em maior ou menor extensão por intelectuais públicos do calibre de Flávia Oliveira e Luiz Antonio Simas. Por aqui, limito-me a matutar sobre questões que já circulam pelo senso comum: festas lotadas de gente sem máscara atolada em salões fechados já estão por aí desde antes da vacinação chegar à maior parte dos brasileiros. Apresentações musicais que contabilizam público de milhares, como a da cantora Anitta no sábado, 12 de fevereiro, na cidade de São Paulo, vêm acontecendo em frequência cada vez maior – isso sem falar nos eventos promovidos pelos artistas expoentes do sertanejo universitário, casta (com suas exceções, que são populares também) intimamente ligada ao bolsonarismo e ao agronegócio que desde o dia um da pandemia jamais deixou de promover as maiores aglomerações possíveis, em um momento no qual a vacinação, num Brasil de Jaíres e Mandettas, sequer era vislumbrada em um futuro próximo. Não precisamos nem falar sobre os estádios de futebol com arquibancadas cheias, ou o transporte público superlotado e lacrado como uma lata de sardinhas que o trabalhador é obrigado a encarar numa base diária à revelia de sua vontade. E aí, pode tudo, menos o carnaval de rua? Por que? Isso é o show de ontem da Anitta. O sustento de inúmeras famílias foram colocados em risco pois acredita-se que não é seguro ter desfile no carnaval. Como se os protocolos estivessem sendo seguidos em algum lugar… Memorizem esse print, é a prova que SIM, existe um projeto! pic.twitter.com/Jy3jH0ftUY — Amy Lee versão PÃO DE QUEIJO LULA DA SILVA (@ThabataRiani) February 13, 2022 Há quem defenda que, em eventos como o supracitado show de Anitta ou os bailes e festivais privados já agendados para o período do carnaval ao redor do Brasil, os frequentadores estariam mais seguros do que em um bloco popular, pois ali seria exigida a apresentação do comprovante de vacinação para entrada. Bom, vamos por partes. Parte um: a partir do momento em que a transmissão e o contágio entre vacinados ainda é possível (ainda mais com as variantes mais contagiosas que não param de surgir, como a ômicron), isso significa de pouco a nada. Parte dois: considerando falsificações de comprovantes e possível leniência por parte das organizações de eventos, não há como garantir que cem por cento dos presentes em meio a grupos de milhares enfurnados em um show, uma casa de festas, boate ou coisa que valha, estejam vacinados. Ademais, muitos desses locais não pedem a apresentação de resultados de testes que detectam a COVID, o que significa que mesmo uma pessoa que apresente um comprovante de vacinação legítimo à entrada não estaria necessariamente impedida de ser uma transmissora em potencial. Parte três: o que parece latente é que o Estado (com “E” maiúsculo, o governo federal) e o estado (em caixa baixa, estadual e municipal) não parecem legitimamente preocupados com os perigos de grandes aglomerações, num geral. O que parece ser a maior questão, para eles, é a de que, ante a aprovação para o carnaval de rua, um possível aumento de taxa de infecções, internações e óbitos venha a ser relacionado ao poder público. O que o poder público não quer, mesmo, é ser responsabilizado. Parte quatro: isso tudo não deixa de parecer uma medida francamente higienista e digna de um Rio de Janeiro do início do século passado, onde prefeitos derrubavam morros, destruíam cortiços e desalojavam centenas de famílias pobres para empreender reformas urbanas e deixar a cidade mais “cosmopolita”. Explico, apesar do que sequer preciso, pois quem está na mesma página já entendeu: aproveitam-se da pandemia para tirar das ruas uma comemoração inalienavelmente popular, aberta e de todos, uma rara ocasião na qual expoentes de classes sociais diversas convivem em nível de igualdade, um momento anual de expurgo da rotina da maior parte dos brasileiros, e ainda assim um momento no qual tantos trabalhadores, do vendedor ambulante ao organizador do bloco, conseguem tirar muitas vezes o que é seu sustento para o ano todo. A quantidade de famílias que dependem do carnaval de rua é imensurável, bem como a felicidade de quem, nele, encontra quatro dias lúdicos e livres que só voltarão a se repetir no ano seguinte. Isso porque não estamos falando do carnaval das Escolas de Samba, que, pelo menos por esse ano, conseguiu a aprovação legal para acontecer, apesar do adiamento. Sabe, isso tudo me lembra um velho samba de Gonzaguinha, que de velho, na verdade, não tem nada; talvez já possa ser chamado de “clássico” – soa mais adequado. É o Comportamento Geral: “Você deve notar que não tem mais tutu E dizer que não está preocupado Você deve lutar pela xepa da feira E dizer que está recompensado Você deve estampar sempre um ar de alegria E dizer, ‘tudo tem melhorado’ Você deve rezar pelo bem do patrão E esquecer que está desempregado Você merece Você merece Tudo vai bem, tudo legal Cerveja, samba E amanhã, seu Zé, Se acabarem com o seu carnaval?” E, décadas depois,
O eterno carnaval das chanchadas
Popularmente conhecidas como chanchadas, comédias musicais dominaram a bilheteria do cinema brasileiro entre as décadas de 1930 e 1960. Esses filmes incorporavam elementos das grandes produções hollywoodianas, do teatro de revista e do carnaval carioca, e hoje são lidos como parte fundamental da história do cinema brasileiro
