Badaró entrevista José Dirceu

Em entrevista exclusiva, ex-ministro-chefe da Casa Civil falou sobre cenário político da América Latina, Bolsonaro, pandemia, perspectivas para 2022, Lula e erros do PT Por Leopoldo Neto, Norberto Liberator e Vitória ReginaColaborou Marina Duarte “— Mas ô, Dirceu, por que estás tão triste?Mas o que foi que te aconteceu?— Foi a Heloísa, que dedou a turmaFez bilhetinhos e a turma prendeu” Paródia da marchinha “A Jardineira”, de Orlando Silva, em ironia ao então líder estudantil José Dirceu (atribuída a militantes da Ação Popular) O semblante sereno, como de costume, poderia confundir. De barba e cabelos longos, José Dirceu, 22, presidente da União Estadual de Estudantes (UEE) de São Paulo, parecia tranquilo e até sorria dentro do carro que o levava à prisão no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), como mostram as fotos registradas naquele 12 de outubro de 1968. Internamente, é possível que lhe passasse um filme à cabeça. Os últimos meses haviam sido intensos para o jovem, cuja história viria a se confundir com a de pelo menos cinco décadas da esquerda brasileira.  Em sintonia com Paris e outras grandes cidades do mundo, São Paulo vivia uma onda de radicalização do movimento estudantil. Em um período de aproximadamente quatro meses, houve a infiltração de uma informante da ditadura na vida afetiva de Dirceu, a “Batalha da Maria Antônia” e a prisão de mais de mil acadêmicos no congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, interior de São Paulo. A sequência de episódios tensos, enrascadas e reviravoltas fez do ano de 1968 uma tragédia grega para a militância de esquerda nas universidades e escolas. De grego, inclusive, eram as aulas que ocorriam na sala conhecida como “antro do Zé Dirceu”, no curso de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), onde o líder estudantil — que estudava Direito na PUC — costumava dormir para se proteger de possíveis ataques do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Foi naquela sala que Dirceu percebeu pela primeira vez um plano para capturá-lo, ao notar que a jovem Heloísa “Maçã Dourada”, com quem passava uma noite, desarmou com muita habilidade a pistola que ele deixava em sua cabeceira. Não demorou até a garota admitir que foi contratada pelo Dops para conseguir informações do militante, cujo “fraco” por mulheres era conhecido para além do ambiente universitário. Heloísa foi mantida em cárcere, por cinco dias, pelos acadêmicos que ocupavam o prédio do curso de filosofia da USP e liberada no dia 9 de junho, em evento que contou com coletiva de imprensa. A chamada “Batalha da Maria Antônia” ocorreu em outubro daquele ano. Na histórica rua paulistana, estudantes de esquerda e de direita protagonizaram um confronto físico direto. Embora se tenha propagado que a briga era entre acadêmicos da USP e da Mackenzie, Dirceu afirma que, na verdade, ela opôs de um lado militantes de esquerda que estavam na ocupação do prédio de filosofia e, do outro, membros do CCC. A foto do então dirigente estudantil com a camisa ensanguentada do secundarista José Guimarães, morto naquela ocasião, tornou-se emblemática. O famoso Congresso de Ibiúna ocorreu naquele mesmo outubro. O evento clandestino foi desmantelado pela Força Pública e pelo Dops, em cuja sede Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Pereira ficaram detidos. Os demais foram encaminhados para o presídio Tiradentes. Mas a primeira prisão do comandante duraria menos de um ano. Após militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestrarem, em setembro de 1969, o embaixador estadunidense Charles Elbrick e pedirem uma lista de presos políticos em troca, Dirceu embarcou no Hércules 56 rumo ao México. De lá, partiu para o exílio em Cuba. Antes mesmo da anistia, José Dirceu estava de volta ao Brasil, após cirurgias plásticas e usando identidade falsa, em 1975. Cinco anos depois, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que aglutinava setores marxistas, social-democratas, católicos ligados à Teologia da Libertação e lideranças sindicais. “Cérebro” da legenda, articulou a campanha que levou à eleição do primeiro operário brasileiro a ser presidente da República, em cujo governo foi o homem-forte por três anos, à frente da Casa Civil. Condenado em processos contestados, durante julgamentos do Mensalão e da Lava Jato, nunca se retirou da vida política. Na varanda da casa de suas filhas em Vinhedo (SP), Dirceu conversou com a Badaró por videoconferência. Trajando camisa do Corinthians, o ex-ministro falou sobre a política genocida de Jair Bolsonaro, rumos da esquerda na América Latina, frente ampla, estratégias para 2022, erros e acertos do PT, entre outros temas. Badaró: Para começar, gostaríamos de falar sobre o panorama da América Latina. Na sua opinião, a pandemia é o motivo das ruas não estarem tomadas no Brasil? Considerando países como Chile, Bolívia, que tiveram manifestações durante a pandemia e o Brasil não está tendo. O Peru, por exemplo, está tendo uma eleição e bastante mobilização, com máscaras, é claro. Mas você acha que a pandemia é o fator que impede de ter uma grande mobilização no país? [A entrevista foi realizada antes das mobilizações contra Bolsonaro que ocorreram em todo o Brasil] José Dirceu: Sim e não. Veja bem, o que aconteceu na América do Sul é um sinal de que o modelo que estão tentando implantar no Brasil não deu certo e não dará certo. Nós tivemos rebeliões muito noticiadas no Equador e no Chile; e tivemos a revolta popular e derrota dos golpistas em eleições históricas na Bolívia. Perderam na Câmara, no Senado e a Presidência da República, o MAS [Movimento ao Socialismo] fez maioria absoluta e a derrota do Macri na Argentina; e o empate no Uruguai. Agora um segundo turno muito disputado no Equador e esse resultado do Pedro Castillo no Peru. Na verdade, a rebelião na Colômbia foi a maior e mais demorada, mas a mídia escondeu muito pela importância da Colômbia, né?! A Colômbia é hoje praticamente o terceiro país da América Latina, depois do Brasil e do México e se equipara à Argentina. Esses são processos de falência do modelo neoliberal

Superlotação de leitos é genocídio [Badrops #22]

Descaso no combate à pandemia evidencia propósito de negar o direito de sobrevivência às classes populares Por Fábio Faria e Leopoldo Neto Fábio Faria Diretor de arte       Estudante de jornalismo e ilustrador. Interessado em artes, cultura e assuntos do espectro político. leopoldo neto Editor-chefe     Jornalista e mestrando em Comunicação. Possui interesse em jornalismo político, científico e cultural. Busca explorar o formato podcast.

Como funciona a CoronaVac?

Texto por Jean Celso e Guilherme Correia Arte por Norberto Liberator Jean Celso Colunista     Jornalista, podcaster, entusiasta da TV e do Rádio. Interessado em futebol, política e cannabis, dedica-se à pauta antiproibicionista. Guilherme Correia Repórter e Subdiretor de arte       Estudante de jornalismo. Entusiasta de muitas coisas, do futebol ao audiovisual. Interessado em educação, cultura e pautas sociais. Norberto Liberator Editor-chefe       Jornalista, ilustrador e cartunista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”.

“Remédios mágicos” nas farmácias brasileiras

Mesmo ineficazes contra a Covid-19, medicamentos como cloroquina e ivermectina tiveram maior procura em 2020 Por Marcelo Soares e Gabriela Güllich Gabriela Güllich     É matogrossense criada na Paraíba. Formada em Jornalismo pela UFPB, atua como quadrinista, jornalista e os dois ao mesmo tempo. Autora de “Quatro Cantos de um Todo”, HQ publicada pelo Sesc Paraíba em 2018 e “São Francisco” (Gabriela Güllich/João Velozo), livro-reportagem em quadrinhos e fotografia com narrativas do sertão e do Velho Chico, lançado em 2019. Marcelo Soares     Jornalista e consultor em análise de dados na empresa Lagom Data. Mestrando na Unicamp. Ex-professor visitante de pós-graduações em jornalismo digital nas universidades ESPM (SP), PUC-RS (RS) e Positivo (PR), foi o primeiro editor de Audiência e Dados do jornal Folha de S.Paulo.

“Fora, Bolsonaro” de Carol Solberg e a controvérsia da CBV

“Fora Bolsonaro“: jogadora de vôlei, Carol Solberg, foi repreendida pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) ao se manifestar politicamente. Há dois anos, entidade tomou medida mais leve e alegou “liberdade de expressão” Texto Por Gabriel NeriArte por Fábio Faria A jogadora de vôlei de praia, Carol Solberg se manifestou politicamente após a vitória na disputa de 3° lugar no Circuito Brasileiro Open de vôlei de praia 2020/2021 no domingo (20). Na entrevista pós-jogo, Solberg pegcou o microfone da mão da parceira de dupla, Talita, e declarou: “só para não esquecer, fora, Bolsonaro”. O CBVP OPEN é a principal competição do calendário naional. A fala da jogadora ganhou grandes proporções graças às redes sociais. No começo da semana, “fora, Bolsonaro” ficou nos trending topics do Twitter. A reação da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) foi imediata. Em nota, a organização repudiou a ação de Carol Solberg.  “A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), vem, através desta, expressar de forma veemente o seu repúdio sobre a utilização dos eventos organizados pela entidade para realização de quaisquer manifestações de cunho político”. Por fim, afirmou que “tomará todas as medidas cabíveis para que fatos como esse, que denigrem – nas palavras da organização – a imagem do esporte, não voltem a ser praticados”. A CBV teve em 2019, como informado no balanço financeiro, 85% da receita vinda do governo. R$ 76 milhões dos quase R$ 90 milhões da renda vieram direta ou indiretamente dos parceiros públicos. Vale destacar que o vôlei, historicamente, teve apoio do Governo Brasileiro e, nesse sentido, é um dos esportes que mais rendeu medalhas em Jogos Olímpicos e Pan-Americanos.  Nas Olimpíadas, o Brasil no vôlei ‘convencional’ tem 10 medalhas (cinco de ouro, três de prata e duas de bronze); no quadro geral, atrás apenas da extinta União Soviética (URSS). No voleibol de praia, é o país que mais acumula medalhas em quantidade, mas está atrás dos Estados Unidos por ter menos ouros. Foram 13 conquistadas na areia (três de ouro, sete de prata e três de bronze). Nos Jogos Pan-Americanos, o Brasil está empatado com Cuba, com 25 medalhas cada, como os maiores no quadro, porém fica atrás por ter menos ouros. São oito medalhas de ouro, dez de prata e sete de bronze. No vôlei de praia, liderança isolada com 12 medalhas (cinco de ouro, três de prata e quatro de bronze), dobro do segundo colocado, Cuba. Segundo o site da CBV, o vôlei brasileiro tem sete patrocinadores e está ligada à Secretaria de Esporte, do Ministério da Cidadania. O patrocinador oficial, que tem o destaque nos uniformes dos atletas e nas publicidades nas quadras de jogos é o Banco do Brasil.  Depois da manifestação, a atleta de 33 anos deu entrevista ao Blog Olhar Olímpico, do UOL, falando sobre a insatisfação com o atual momento do país. “O ‘fora, Bolsonaro’ está engasgado aqui na garganta. Ver esse desgoverno dessa forma, ver o pantanal queimando, 140 mil mortes e a gente encarando a pandemia desse jeito. É isso. Tá engasgado esse grito. E me sinto, como atleta, na obrigação de me posicionar”.  Carol é filha da ex-jogadora de vôlei Isabel Salgado, que completou 60 anos na última terça-feira (22), e em vídeo postado nas redes sociais, exaltou de seu desejo mais profundo, o “fora, Bolsonaro”. Contradição A manifestação da CBV no caso Carol foi diferente do ocorrido dois anos atrás, quando dois jogadores do time masculino de vôlei do Brasil fizeram gestos de apoio ao então postulante à presidência, Jair Bolsonaro, no Campeonato Mundial. Wallace e Maurício Souza, ao posar para uma foto, fizeram alusão ao número 17, número do  Partido Social Liberal (PSL), antigo partido do presidente. A reação da Confederação foi a de afirmar que “acredita na liberdade de expressão”.  “A CBV repudia qualquer tipo de manifestação discriminatória, seja em qualquer esfera, e também não compactua com manifestação política. Porém, a entidade acredita na liberdade de expressão e, por isso, não se permite controlar as redes sociais pessoais dos atletas, componentes das comissões técnicas e funcionários da casa. Neste momento, a gestão da seleção irá tomar providências para não permitir que aconteçam manifestações coletivas.”, disse em nota à época. Wallace, 33 anos, medalhista pela seleção e campeão da Superliga é eleitor assumido de Bolsonaro Wallace, em entrevista ao Saída de Rede, disse que se arrependeu de fazer o gesto após sua popularidade no vôlei cair. Porém, não mudou sua opinião política e lamentou sobre quem não consegue separar o atleta da pessoa. “Quem gostou, gostou, quem não gostou, eu vou fazer o que? Só não consigo entender como a pessoa não consegue diferenciar: ‘Nossa, você era um ótimo jogador,  mas agora você não joga nada’. Só mostra o quão pequeno a pessoa não consegue separar as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com a outra”. Carol, após a manifestação, ganhou apoio de “todas as pessoas” que admira. “Saber que todas as pessoas que eu admiro e que são importantes pra mim estão do meu lado, me faz ter certeza de que estou do lado certo da história.”, declarou a jogadora em post no Instagram.  Por fim, a jogadora de 33 anos acredita que todos os atletas possam se manifestar e que não esperava que a CBV fosse contra o ato. Também manifestou no Instagram- após uma campanha pedir o cancelamento do patrocínio com o Banco do Brasil- que não recebe bolsa-atleta (benefício do governo) ou tem patrocínio com a instituição financeira. Gabriel Neri Repórter Estudante de jornalismo, amante de futebol sul-americano e da América Latina.