Ferrante e Almodóvar: ruptura e romantização nos padrões impostos às mulheres

Simone de Beauvoir

Narrativas elaboradas por mulheres ampliam representações e permitem ir além de papéis historicamente atribuídos a nós Por Tainá JaraArte por Marina Duarte Pode ser que faltem formas de expressão para externalizar séculos de padrões impostos a nós, mulheres. Na escrita, na fala, na arte, no megafone, ou no empenho diário para fazer um bom trabalho, seja no mercado ou em casa, a gente tenta contar a história sob a nova perspectiva ao mesmo tempo que ainda tenta se libertar de tanta opressão.  É nesse movimento constante, e algumas vezes desarticulado, que ganhamos espaço, nos impomos e também descobrimos nossas contradições, individuais e coletivas, o que torna tudo mais emocionante e também dolorido. Quanto mais nos aprofundamos, mais sentimentos, dilemas e incômodos descobrimos.  Muitas dessas narrativas, mesmo as feitas sob novas perspectivas, inevitavelmente esbarram na representação de padrões impostos às mulheres. Eles permeiam todas as fases da vida. Estão com a gente da juventude a maturidade.   Quando se é jovem é preciso procurar um pretendente, casar, ter filhos, ser a dona de casa exemplar. Na maturidade, o papel de esposa que cuida do marido e filhos parece apenas um estágio para ainda desempenhar  com os idosos. Parece nunca faltar emprego e função para as mulheres na instituição família, cuja remuneração muitos dizem ser paga em afeto e realização pessoal.  As que fogem a esses padrões são julgadas. Mesmo aqueles que dizem nos amar, se beneficiam dessa estrutura. Sejam jovens ou velhos. Homens ou mulheres. Se acomodam ao roteiro que lhes foi passado pela sociedade patriarcal. E causam à outra uma culpa profunda por escolhas que não infringem nenhuma lei palpável. No livro “O Segundo Sexo – Fatos e Mitos”, Simone de Beauvoir utiliza a dicotomia imaculada/profana para exemplificar o caráter mutilador de tais padrões. Papéis historicamente atribuídos a nós: a imaculada, associada à imagem da mãe; enquanto a profana remete às bruxas. “Na realidade concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-la inteiramente” (BEAUVOIR, 2016, p. 330)¹. Os aspectos diversos aos quais Beauvoir se refere ganham espaço em produções cinematográficas como a Filha Perdida (2021), dirigida por Maggie Gyllenhaal, inspirado no livro da escritora italiana Elena Ferrante. Com voz predominantemente feminina, algo ainda pouco corriqueiro na sétima arte, a produção fala da ruptura de Leda (Olivia Colman) com um destes padrões: o papel de mãe.  A protagonista deixa as filhas com o marido por três anos para ter outra vida. Mesmo passado décadas, a culpa a persegue e dias de descanso se convertem em aflição. Reações, sentimentos e reflexões profundas da personagem demonstram como pode ser cruel seguir o próprio desejo e fracassar, mesmo que por algum momento, no equilíbrio de papéis. Abrir mão do padrão socialmente imposto pode causar traumas quando o mundo diz que o contrário é o certo. Almodóvar é um exemplo de cineasta bem-sucedido ao colocar a voz feminina em primeiro plano. Calcou sua carreira nisso. Mesmo ele foi impactado pela fidelidade das produções feitas por mulheres. É impossível não perceber a insuficiência da sua narrativa, frente às elaboradas por nós, em seu último filme: Mães Paralelas (2021). Ao abordar a história de duas mães solos, o diretor tenta fugir dos padrões de protagonistas, porém, acaba por romantizar tal papel ao trazer para telas uma Janis  (Penélope Cruz) impecavelmente linda, arrumada e incansável, mesmo com um bebê de poucos meses em casa e outros inúmeros dilemas femininos. Talvez a gente tenha mudado nossa percepção sobre essas questões e não necessariamente ele.    ¹ BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. Tainá Jara Jornalista e pesquisadora em Comunicação. Interessada em mídia, estudos de gênero e direitos humanos. Na horas vagas vai de cinema, música e, sim, política. MARINA DUARTE Ilustradora e quadrinista pantaneira. Feminista antiproibicionista interessada pela profunda mudança social.

Sofrimento e glória de um artista maldito

Um dos principais artistas visuais da história da humanidade, Vincent Van Gogh foi desumanizado tanto em vida, quanto em morte Por Carolina de MendonçaArte por Adrian Albuquerque De que vale um poeta? – Um pobre louco  Que leva os dias a sonhar? – Insano Amante de utopias e virtudes E n’um tempo sem Deus ainda crente (Cadáver de um Poeta – Álvares de Azevedo) O trecho da poesia de Álvares de Azevedo (1831 – 1852), considerado um dos poetas malditos do romantismo brasileiro, descreve uma visão do senso comum do artista: insano e utópico. Ter uma vida breve, infeliz, comportamentos excêntricos, dificuldades financeiras e com dom divino, é tido comum entre os trabalhadores da arte. Histórias de tragédias e reforço de uma “genialidade inata” levam muitos a se afastar da arte, que se mantém como área restrita a uma elite. Aqueles que permanecem, encontram contextos majoritariamente hostis e deixam seu sofrimento fetichizado à venda. O caso emblemático e mais popular desta situação é do pintor neerlandês Vincent Van Gogh (1853 – 1890). Nascido em Zundert, pequena cidade no sul dos Países Baixos, o segundo filho tem mesmo nome do avô e irmão mais velho (natimorto), em uma família com tradição de atividades voltadas para a vendas de arte e trabalhos religiosos. Vincent tenta um dos ramos, mas não é bom comerciante. Seu irmão caçula, Theo Van Gogh (1857 – 1891), se destacou na área, sendo, inclusive, importante para a popularização de artistas impressionistas, como Claude Monet (1840 – 1926). O pintor também arrisca atuar como pastor calvinista, como seu pai, mas não é bem aceito no ofício – seus superiores consideravam exagerado seu envolvimento com os grupos com os quais trabalhava. Considerava absurda a miséria vivida pelos trabalhadores com quem convivia. Em seus trabalhos artísticos, passa a usar de sua criação para denunciar o horror causado pelo capitalismo. Resolve então se dedicar exclusivamente à pintura como atividade laboral, mesmo sem ter retorno comercial e artístico,  também como forma de denúncia da realidade que testemunhava. Os Comedores de Batata (1885) – Acervo: Museu Van Gogh Morando a maior parte de sua vida adulta na França, ao começar a pintar resolve assinar apenas com seu primeiro nome, pois se aborrecia com o erro na pronúncia de seu sobrenome – algo frequente, sobretudo após sua morte.  O pintor confessa, ao irmão caçula e mecenas, angústias e sonhos fantásticos, de uma lógica social solidária. Ao conhecer a costureira Sien (1850 – 1904), uma jovem mãe, grávida do segundo filho e que foi abandonada pelo companheiro, Vincent oferece a ela a possibilidade de trabalhar como sua modelo. Ambos estabelecem um companheirismo para além do envolvimento romântico, que, como a maior parte das relações do artista, foi fugaz. Outro importante vínculo de Van Gogh foi o pintor francês Paul Gauguin (1848 – 1903), com quem morou junto. O neerlandês desejava construir uma grande comunidade de artistas plásticos – todos morariam juntos e dividiriam ideias e materiais. Além disso, ele planejava a criação de um sindicato para fortalecer a classe, a partir da parceria com Gauguin. Uma tendência socialista forte, muitas vezes apagada em suas representações. Assim como a relação com a costureira Sien, o vínculo entre Vincent e Paul Gauguin foi efêmero e febril. As dificuldades cotidianas, o temperamento complicado de ambos e as diferentes formas como se relacionavam com a arte, causavam brigas gigantescas,  chegando por vezes à agressão física – como comentado por ambos em cartas.  Em um momento, Paul chegou a avisar ao companheiro que se afastaria, por considerar o ambiente hostil e limitante. A Cadeira de Gauguin (1888) – Acervo: Museu Van Gogh Vincent queixava-se ao irmão, Theo, de seu humor instável e intenso – ora não conseguia fazer nada, e levantar da cama era uma tarefa árdua, ora tinha energia para pintar por dias seguidos sem pausa. Percebia influência direta do uso de álcool nessas oscilações, mas não sentia ter controle para dosar o uso da substância. Separado do amigo, que decidiu partir, o neerlandês ficou drasticamente abalado, culminando no trágico episódio em que se automutila, retirando um pedaço da orelha e o entregando em um bordel. As pessoas ao redor não sabem, ao certo, o que houve. A história se espalhou como fofoca, recebendo uma série de outras interpretações e até mentiras. Mesmo após a recuperação, o pintor afirmou ao irmão, em carta, não lembrar daquela noite – era esperado, pois suas emoções eram intensas e havia perdido muito sangue. Não há certeza do que aconteceu, por conta dos poucos registros que permanecem sobre a situação.  Uma das testemunhas foi Paul Gauguin, que após a morte de seu amigo, escreveu de forma dura e dolorosa o mais detalhado relato sobre o episódio. O francês contou que, na noite anterior, Van Gogh atirou um copo com bebida contra o amigo, mas não lembrou do ocorrido ao acordar. À noite, Gauguin decidiu passear e percebeu passos o acompanhando. Ao virar-se, Paul viu o amigo com uma navalha aberta na mão e parecia ameaçar um golpe. A troca de olhares entre ambos foi suficiente para que Vincent retornasse correndo para casa. Na manhã seguinte, os amigos se encontraram pela última vez. Vincent havia se mutilado, seu corpo era inanimado e pela casa estavam espalhadas muitas toalhas com sangue. A Casa Amarela (1888) – Acervo: Museu Van Gogh O artista foi internado após a automutilação. Estava frágil física e psicologicamente, precisava de cuidados profissionais e de uma rede de apoio forte que o ajudasse nesse período. Contudo, seus vizinhos endereçaram um abaixo-assinado, com aproximadamente 80 assinaturas, ao então prefeito de Arles, cidade no sul da França em que morou, descrevendo que o pintor não poderia viver em liberdade e assim tornou o episódio um caso de polícia. Em carta endereçada a Theo Van Gogh, em 19 de março de 1889, comentou sobre o ocorrido:  “Assim você pode imaginar que duro golpe em pleno peito foi saber que havia aqui tantas pessoas covardes o bastante para se unirem em tão grande número contra um

Busca pelo acesso universal à cultura: experimentos artísticos de Victor Seroque

Por Carolina de Mendonça NOTA: Victor Seroque é uma pessoa não-binária – não correspondendo sua identificação aos gêneros feminino ou masculino. Por isso, ao longo do texto, são utilizados pronomes e adjetivos no feminino e masculino para referir à entrevistada. Fazia muito calor na capital paulista naquele janeiro de 2017. Com gigantescos prédios, por vezes espelhados, que substituem suas áreas verdes por concreto, longos quilômetros de asfalto, maior frota de veículos automotivos do Brasil e altos índices de poluição, a cidade concentra ilhas de calor. Nesse mesmo mês, o então prefeito da cidade, João Dória (PSDB), que teve a seu favor o sentimento “anti-esquerda”, inflamado pelo golpe contra a presidente Dilma Rousseff (PT) meses antes e pela derrota do rival petista pelo executivo municipal, traz como proposta a criação de um “Muro Verde” na avenida 23 de maio – uma das mais movimentadas da cidade; substituindo os grafites na região, para melhorar a poluição e diminuir o impacto desse fenômeno. João Dória vestiu um uniforme laranja dos funcionários da limpeza municipal de São Paulo, com direito à máscara de proteção, junto ao então vice-prefeito (Bruno Covas, também do PSDB). Orgulhosos, os tucanos  pintaram  de cinza as artes ao longo da avenida. A ação era parte do programa “Cidade Linda”, o qual não escondia repúdio às expressões artísticas, majoritariamente periféricas, que rompiam o padrão cinza e quadrado da metrópole. A proposta ambiental de Dória era falha, e falsa, desde a sua criação. A cidade continua quente e poluída, e o projeto se demonstrou caro aos cofres públicos. Obteve êxito apenas em criar uma guerra contra os artistas de rua que foram invalidados, marginalizados e, quase, criminalizados. Além de enlutar os que passam pela avenida, por conta da descaracterização do ambiente. Dentre as viúvas dos muros coloridos ao longo da Avenida 23 de Maio, está Victor Seroque, morador da zona leste de São Paulo. Artista visual, curador e arte-educador, o também apreciador do cachorro-quente com purê de batata conversou com a Revista Badaró sobre acesso à arte, seus processos de criação e, evidentemente, sobre a cidade de São Paulo – suas, gigantescas, contradições e excêntrica beleza. Cultura logo ali, mas não para todos São Paulo concentra grande porcentagem dos estabelecimentos voltados à cultura do país. A arte também se faz presente nas ruas da cidade, com instrumentos, danças e performances. Entre festivais de cinema gratuitos, museus com entradas por menos de R$ 5, peças de teatros, shows ao ar livre, bibliotecas com acervo imenso, há sempre o que fazer na cidade da garoa. Ao menos, em teoria. Os bairros centrais monopolizam tais atividades, e num raio de poucos quilômetros, funcionam dezenas e até centenas de espaços culturais, simultaneamente. Outras regiões, como a de Victor, não têm essa possibilidade. “Moro em um dos únicos bairros de São Paulo, se não me engano são dois ou três, que não tem nenhum órgão cultural. Tem absolutamente nada assim! Uma biblioteca, uma casa de cultura, uma fábrica de cultura. Se alguém não fizer isso antes de mim, eu quero muito fazer um centro cultural e trazer mais pessoas pra cá”, diz a artista. E ir ao centro não é uma tarefa das mais fáceis para o paulistano. Pela sua extensão territorial e a falta de planejamento, aliada ao processo de gentrificação, a mobilidade urbana pode durar horas – em média, três por dia, geralmente percorridas por quem mora nas periferias da cidade. Além do tempo, o deslocamento também pode custar muito dinheiro, seja com gasolina e estacionamento, passagem de transporte público ou tarifa do aplicativo de transporte privado. Esse tipo de passeio costuma ser longo, então é importante se preparar para se alimentar, já no centro de São Paulo, os restaurantes e lanchonetes não costumam ter valor popular.  Victor Seroque só entrou no Museu de Arte de São Paulo (MASP) aos 18 anos, após iniciar uma graduação em Artes Visuais em um bairro central. Sempre que tinha tempo livre, e quando a entrada era gratuita (comumente em dias úteis, como terça-feira), ia aos espaços culturais na região da Avenida Paulista. Entretanto, a disponibilidade e a gratuidade não são suficientes para estar nesses lugares. Em certo ponto da entrevista, Victor se posiciona como entrevistador e pergunta: “já teve a experiência de andar por São Paulo de chinelo?”. Após uma resposta negativa, aconselha que em uma eventual visita à cidade, não se faça isso. De forma enfática repetia que “é insalubre”. O primeiro ponto, óbvio, é a (falta de) segurança em expor a pele em calçadas potencialmente contaminadas. O segundo, se dá pela segregação racial, de gênero e de classe. “Se você entra no museu de chinelo é aquele rolê de você ser analisado de cima a baixo o tempo todo. Falo com eufemismo. Se você for uma pessoa racializada e tiver ali dentro você vai ter esses olhares. Se você for uma pessoa que se veste de forma diferente, você vai ser olhado dessa forma.” relata a artista. Victor, no entanto, que usa barba (marcador tido como masculino socialmente) e tem pele clara, conta que pessoalmente nunca passou por situações que recebeu olhares hostis nesses ambientes. “Por ser uma pessoa lida como homem, por ser uma pessoa branca é muito fácil. Ninguém vai presumir que você é pobre e tá vindo da periferia”. Por ter começado a frequentar ambientes considerados voltados a uma elite intelectual, quando já cursava o ensino superior, a sensação de não se adequar a esses locais não durou muito. Victor compreendia a importância desse espaço e seus propósitos em estar nele. O sentimento de não pertencer muitas vezes é provocado, também, pela curadoria das exposições artísticas. Victor, que também trabalha nesse campo, relata que chega a fazer piadas com amigos sobre a complexidade de textos que acompanham as exposições. “Às vezes, aquela exposição é o primeiro contato que a pessoa tem. Aquele texto curatorial, já coloca ela numa posição de desconforto”. Apesar de não ser uma área de interesse em primeiro momento para a artista, ao longo da graduação, percebeu que é

Um cineasta na sala vazia

Responsável por “A Margem”, marco no Cinema de Invenção brasileiro, Ozualdo Candeias buscou retratar, por sua câmera, a condição das populações marginalizadas de seu país através de um estilo visualmente único. Ao fim da vida, seus filmes angariavam cada vez menos público. Hoje, eventos pontualmente lançam luz sobre componentes menos lembrados de sua obra

Da agulha ao pincel, conheça a arte de Letícia Maidana

Campo-grandense trabalha com tatuagem utilizando mescla de estilos, num método experimental e que questiona o espaço para a arte autoral dentro da tatuagem Por Marina Duarte Confira alguns trabalhos da artista: Para conhecer mais, siga o perfil da Letícia no Instagram. MARINA DUARTE Ilustradora e quadrinista pantaneira. Feminista antiproibicionista interessada pela profunda mudança social.