Drama fora dos palcos

Falta de remuneração e apresentações “por divulgação” são comuns entre meio artístico e demonstram falta de seriedade com que setor é tratado Por Jorge AluvaiáArte: Norberto Liberator Se perguntarmos a qualquer pessoa o que um artista faz, garanto que as definições serão as mais diversas, dado o fato de que a alcunha “artista” por si só já é bem abrangente. Mas também é certo que a imagem mental gerada por esse exercício de adivinhação será a de algum famoso, ator ou atriz de TV e cinema, ou uma diva da música pop – como Pabllo Vittar, Iza ou Anitta –, figurinos sensuais, looks extravagantes, públicos extremamente numerosos. No entanto, há outro fato: essas figuras são raras exceções, resultadas de uma equação complexa que envolve bons contatos, muito dinheiro investido, demanda do público e talento. Por que a primeira menção que nos vem à mente são os nomes supracitados e outros do mesmo patamar, mas não o cantor que toca enquanto você está naquele restaurante legal, a professora de teatro da sua filha, o b.boy, o DJ, o grafiteiro, a escritora, os malabaristas de semáforo, o hippie que vende seu artesanato mundo afora? Porque eles não alcançaram fama. Por óbvio, nós nos lembraremos da figura de destaque de uma determinada categoria, assim como, quando pensamos num político, lembramos eventualmente do presidente em exercício. Um atleta? Esse pode ser o atual craque do seu time. Um arquiteto? Claro, o gênio Oscar Niemeyer. As opções nunca tendem a ser seu presidente de bairro ou a senhora que corre todos os dias de manhã se preparando para a meia-maratona estadual, seu primo que é arquiteto e urbanista – mas você não tem ideia de quais edificações ele já assinou.  É compreensível que pensemos assim, fama é sinônimo de exposição e exposição é sinônimo de reconhecimento. Mas para quem aspira viver de arte, ter referências tão distantes da realidade do trabalhador comum (sim, arte é trabalho) afeta diretamente o processo formativo do artista. É senso comum, nós não conseguimos reconhecer o labor da arte como profissão com valor monetário. O próprio artista não se enxerga como tal, tem enorme dificuldade de gerir a própria carreira, não sabe quais caminhos seguir, o que fazer para melhorar sua condição profissional. Tudo isso não é culpa somente do indivíduo. Como disse anteriormente, faz parte do senso comum não entendermos o valor do trabalhador da arte. Parte desse problema está na fraca (ou nenhuma) difusão do seu processo de formação e do seu processo criativo, seja do artista para o público ou até mesmo de colega para colega de trabalho. Desta maneira, em inúmeros casos o próprio artífice não sabe mensurar o devido valor do ofício, colocando-se assim inúmeras vezes em situações de trabalho sem qualidade e baixa ou nenhuma remuneração. Presenciei um acontecimento em especial que me chocou e ajuda a ilustrar bem como as coisas funcionam por aqui. Dividi palco, certa vez, com uma cantora que precisou dividir sua performance entre segurar o filho ainda bebê no colo e cantar, pois a criança não parava de chorar por estar longe da mãe. Nem ela, nem os colegas de banda viram aquilo como um fardo a carregar – talvez tenham consciência do impacto que a cena de uma mãe jovem, cantando com o filho no colo, possa causar. Mas não romantizemos tais episódios: nem ela e nem ninguém da banda recebeu nada por aquela apresentação, além da promessa de se agendar uma próxima -cujo cachê seria pago com a bilheteria do evento, administrada pela casa, que ficaria com 30% desse lucro. Para essa cantora, isso não seria problema, pois ela já divide o seu tempo entre cuidar do filho, trabalhar durante o dia, produzir, ensaiar e cantar sua arte quando tem tempo. Compreende-se que a vida do artista se resume em ter jornada dupla, tendo qualquer outro trabalho para manter seus meios de existência e o ofício da arte como mero lazer laborioso. A dupla jornada de trabalho é comum na vida do trabalhador brasileiro.No caso do artista, isso se torna artifício ainda maior de exploração dos contratantes, pois sabem que o artista tende a aceitar algum tipo de sacrifício pela sua arte. Seja pela promessa de um futuro promissor, pelo sonho do tão desejado reconhecimento, pela representatividade – que nesses casos se esvazia – ou pelo prazer de fazer o que ama independentemente das circunstâncias. Jorge Aluvaiá Músico, ator, roteirista, produtor, agente cultural, karateca e Doutor Honoris Causa. Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Diário poético sobre vazios abundantes na vida e obra de José Leonilson

Obras de José Leonilson e retratos do artista sobre fundo rosa

Nascido em Fortaleza, José Leonilson Bezerra da Silva produziu milhares de obras que o firmaram com um dos grande nomes da arte contemporânea brasileira Por Carolina de Mendonça Era uma sexta-feira, 1º de março de 1957, na cidade de Fortaleza, capital cearense, onde nasceu José Leonilson Bezerra Dias. Morreu, precocemente, pouco mais de 36 anos depois, na capital paulista. Chamado de Zé ou Leo, pelos íntimos, foi conhecido no meio artístico como Leonilson e produziu milhares de trabalhos que o firmaram como um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. Na infância, experimentou brevemente uma vida quase nômade- após sair de Fortaleza (CE), morou em Manaus (AM), Porto Velho (RO), até se fixar em São Paulo (SP). Anos depois, já adulto, foi à Europa, com uma mala e uma pasta com seus desenhos, onde passou por Milão (Itália), Munique (Alemanha) e Amsterdã (Países Baixos). Depois, retornou a São Paulo e nunca parou de viajar, seu grande prazer. Em solo europeu teve sua primeira exposição individual e conheceu o trabalho no mercado das artes. Repudiou a forma como o ramo comercial se organiza. Afirmou que não se envolveria nisso, não queria ser rico, mas desejava que sua obra tivesse coerência consigo e que estaria feliz se tivesse condições para conhecer outros lugares. Vida pessoal e trabalhos artísticos se misturaram. Suas telas, esculturas e gravações relatavam seu cotidiano, coleções de objetos, páginas de diário e bordados. Tudo faz parte de uma cartografia autobiográfica. Poética, contínua, íntima e melancólica. José – Leonilson (1991) Como vai você, José Leonilson?  Apesar de sua mãe cogitar que se tornaria um engenheiro ou arquiteto, Leonilson sempre teve tendência à pintura. Desenhou desde a adolescência, mas muitos dos primeiros trabalhos foram destruídos pelo próprio artista. Sua família teve certeza de que ele trabalharia apenas como artista visual quando o jovem viaja à Europa e lá tem sua primeira exposição individual, na Galeria Casa do Brasil (Madrid – Espanha), em 1981. O artista já havia exposto de forma coletiva anteriormente, na exposição “Desenho Jovem” no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em 1979.  Apesar da conquista, no ano seguinte abandona o curso de artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Ainda em 1980, participa da exposição Panorama da Arte Atual Brasileira/Desenho e Gravura no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM – SP). Sob o peso dos meus amores – Leonilson (1990) Em 1984, esteve entre os 123 artistas brasileiros (a maioria do eixo Rio-São Paulo) a participar da exposição “Como vai você, Geração 80?” realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Parque Lage), no Rio de Janeiro (RJ). O grupo colocado de forma genérica traz um anseio artístico mais hedonista e presentificado, em jovens que criam pinturas pelo “prazer” em um país que se reabriu politicamente após dura censura.  As obras de Leonilson não se limitam à pintura, mas fazem uso de elementos de coleção pessoal e material de bordado. É uma produção artística aprofundada na dimensão subjetiva que explora os desejos de si e a relação desses desejos com o outro. José também gostava das relações de poder dedicar algo ao outro – muitas de suas obras se tornaram presentes para seus amigos e amantes. Afetos costurados sem acabamento  O pai do artista era vendedor de tecidos e a mãe bordava. Quando criança, aprendeu o ofício em uma escola de freiras que estudou. Tecidos, pedrarias, botões, novelos e outros objetos cotidianos eram guardados por Leonilson e usados em sua obra. No uso de materiais de bordado, o artista é diverso – varia em panos de diversas texturas, tamanhos e cores que dão peculiaridades e interpretações particulares a cada obra e mantém uma síntese de seu estilo. São constantes as aproximações do fazer de José Leonilson com o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário. Apesar de propósitos distintos com suas obras – Bispo produzia por pretensões religiosas, Leonilson como retratos autobiográficos de sua existência – se aproximam na utilização de objetos corriqueiros e uso constante do bordado, que ambos tiveram contato ainda na infância. José Leonilson nutria grande admiração por Bispo do Rosário. Conheceu as obras no final dos anos 1980 e acompanhou até 1993, ano de seu falecimento, em exposições organizadas por Frederico Morais. Tal como o sergipano, Leonilson tinha uma forte influência do catolicismo em sua vida. Voilà mon coeur – Leonilson (1989) Leonilson via a costura como arte perfeita, mas aceitou que não chegaria a tal excelência, o que aproveitou em sua criação. Sua mãe e irmã brincam em entrevista para a série O Mundo das Artes (SESC TV) que ele bordava mal. De fato, sua criação com linha tem um misto de infantilidade e confusão. Para o artista, o conceito da obra se materializou no suporte, a ideia por trás da obra era o mais importante. Nesse caso, seus ideais eram ligados aos sentimentos. Bordar é um ato solitário, íntimo e, majoritariamente, feminino. Uma atividade doméstica feita com destreza e cuidado. Para alguns teóricos, a produção é colocada como uma arte menor, ou algo que não chegaria ao status de arte, apenas um artesanato, pois supõe não existir na criação um aspecto intelectual, mas apenas manual. Um equívoco preconceituoso que busca diminuir arte produzida por povos tradicionais e por mulheres de forma cotidiana. Ninguém – Leonilson (1988) Leonilson era um homem branco. Não era visto em primeiro momento como alguém que pertencia ao universo do bordado, era intruso nesse mundo. Sua transgressão no uso dessa técnica o coloca em uma posição marginal quanto a arte. Não desejava ultrapassar as normas em sua vida pessoal. Mas transpôs. José Leonilson era um homem gay. Em diário comentou não desejar ser uma bicha, uma ideia estereotipada de homem afeminado, até se atraia por algumas mulheres, porém desejava os homens. Queria ser visto como um homem forte, um peixe com o oceano inteiro para nadar. E em paralelo utilizava de técnicas tidas como femininas e delicadas para falar de sentimentos. Cotidiano confessional de mapas internos Em janeiro de 1990, ele

Rolê No Bueiro: qual o lugar da dança em Mato Grosso do Sul?

“No Bueiro” é o lugar da dança sul-mato-grossense? “No Bueiro” é onde querem inserir os trabalhadores da cultura deste estado? Ficam abertas tais perguntas e, enquanto isso, dancemos No Bueiro e façamos ritmos e resistências Por Maria Fernanda Figueiró e Vitória Regina A história da dança em Mato Grosso do Sul envolve inúmeros nomes e experiências que conjuram também com o desenvolvimento histórico do estado, afinal, é pela cultura que se constrói a realidade e a identidade de um povo. Não há dúvidas, então, de que a arte sempre se presentificou como um saber que pode ser instrumentalizado para diferentes fins, dentro das relações complexas envolvidas nos contextos sociais e históricos em que se manifestam, podendo inclusive, através de sua diversidade de linguagens e expressões, ser uma ferramenta de exploração. Pensar especificamente na dança sul mato-grossense é retomar uma outra trama histórica entrecortada por diferentes peças que nos auxiliam a compreender os contextos plurais atuais. As potencialidades expressadas pelas diversas modalidades de dança que surgiram e se desenvolveram em Mato Grosso do Sul indicam uma realidade em que essas buscam por mais reconhecimento, dentro de um estado que talvez ainda subestime as múltiplas e potentes formas que este pode dançar. A luta dos profissionais da dança do estado sempre foi pela garantia dos seus direitos, pelo reconhecimento da importância da categoria para o corpus social, e pela busca da transformação da realidade através da dança e de seu ensino. Por isso, questionarmos sobre quais companhias ou artistas da dança nós conhecemos e acompanhamos no nosso dia a dia, ou, dentro das possibilidades, qual foi a última vez que fomos prestigiar um espetáculo e/ou performance de dança se faz tão preciso quanto sabermos quais músicos, artistas plásticos, atores e cineastas compuseram e compõem nosso discurso enquanto estado, afinal, tais significantes não se desassociam ao refletirmos sobre como e por que, historicamente, chegamos até aqui. Arte: Vitória Regina Foi pensando nestas questões que o Projeto Nonada e InChrise criaram o Rolê No Bueiro, um evento cultural que, instigado em dar uma resposta às provocações citadas, pretende inserir a dança como atração principal nos eventos noturnos de Campo Grande, promovendo a expressão dos pesquisadores e trabalhadores da área em contextos distintos de sua costumeira aparição. Portanto, o evento, que possui como intuito sua circulação em diferentes bares da cidade conforme cada edição, é caracterizado por seu anseio de focalizar maior visibilidade nas diferentes modalidades e vertentes de dança que seus representantes executam, de forma a incentivar a criação de um público de dança mais diversificado e plural. A escolha do nome do evento se estabelece, então, como uma provocação a este recorte que os artistas proponentes observam acerca da forma marginalizada com que a dança é tratada, se comparada com outras vertentes artísticas no estado, um paradoxo manifesto ao se lembrar da força que a categoria da dança tem no mesmo local, e da importância histórica desempenhada pela mesma na consolidação de uma identidade cultural. A primeira edição do evento aconteceu no Aporé Espaço Cultural, no dia 11 de setembro de 2022 e, com a casa cheia, contou com oito apresentações de dança de artistas de diferentes vertentes e mais dois DJs convidados, que aqueceram a pista entre cada apresentação. Visando a rotatividade, a segunda edição ocorrerá no próximo domingo, 11 de dezembro, no Capivas Cervejaria – e todo valor arrecadado na entrada será destinado aos artistas participantes. “No Bueiro” é o lugar concernente para um prisma de potencialidades artísticas que, cotidianamente, resistem a todo esforço histórico para desmobilização de seus trabalhos? “No Bueiro” é o lugar da dança sul-mato-grossense? “No Bueiro” é onde querem inserir os trabalhadores da cultura deste estado? Ficam abertas tais perguntas e, enquanto isso, dancemos No Bueiro e façamos ritmos e resistências compartilhando do poder da arte em busca de emancipação. Maria Fernanda Figueiró     Acadêmica de Psicologia pela UFMS, atua há mais de 16 anos na área da dança e atualmente é intérprete criadora das companhias de dança Cia do Mato e Ginga. Vitória Regina     Marxista e psicóloga. Debate política, psicologia e cultura. Twitter Youtube Facebook Instagram

Com pesquisa pioneira, Rafa quer estudar em Portugal – e você pode ajudar

Artista negro, Rafael Dantas pesquisa sobre a branquitude na arte brasileira e conseguiu ser aprovado em mestrado na Universidade do Porto, porém precisa de ajuda no custeio da viagem Texto por Ana Laura MenegatArte por Norberto Liberator Rafael tem um sonho: Estudar em Portugal. Na verdade, tem muitos: viver de sua arte, ser pesquisador, completar o mestrado, mudar o sistema de ensino brasileiro e, principalmente, colaborar para uma educação antirracista. Rafael Dantas é um artista visual negro e sul-mato-grossense. É filho de mãe costureira e acadêmica de Letras; e de pai funcionário público, ex-marceneiro e formado em História. Na família dele, o mestrado sempre foi algo muito distante, uma meta sem a certeza de que se tornaria realidade. Virou. Atualmente, Rafael faz mestrado em estudos culturais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), instituição em que também se graduou. Apesar de o sonho estar em curso, ele ainda não assumiu sua rota ideal, que é a de fazer parte do mestrado em Portugal. Rafael recebeu a carta de aceite da Universidade do Porto (UP) para seguir os seus estudos no Programa de História da Arte, Patrimônio e Cultural Visual. Essa oportunidade foi proporcionada a partir de um convênio entre a UFMS e a instituição portuguesa, mas o acordo apenas oferece a isenção da propina, que, no português lusitano, é a taxa paga para estudar na UP — o que significa que todos os outros gastos ficam para o estudante. Com intuito de conseguir fundos para essa nova etapa, o artista lançou uma campanha de financiamento coletivo no Catarse: #RafaemPortugal. Rafael participa de projetos sociais e culturais desde os 13 anos, entre eles uma orquestra jovem. Entrou na graduação por meio das cotas para alunos negros oriundos de escolas públicas. Foi presidente do Centro Acadêmico de seu curso e também esteve à frente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMS. Atuou como bolsista de projetos de extensão e iniciação científica, que colaboraram para que ele conseguisse seguir estudando e despertaram o interesse do jovem pesquisador pelo meio acadêmico. Para ele, fazer pesquisa sobre a branquitude na arte brasileira vai além de estudos teóricos, mas também compõe um processo de se reconhecer e encontrar a sua própria identidade, além de ser um ato de resistência. “A ideia de escrever essa dissertação é para que um dia, outras pessoas não precisem sentir o peso do véu [do racismo], apenas o calor do sol em suas peles. Então, para mim, pesquisa é isso: um processo coletivo, não é individual, tem um propósito político e a minha pesquisa tem um propósito de emancipação também”, afirma.  Além disso, ele reforça que esse processo de pesquisa é colaborativo e precisa da troca de ideias. “Eu falo que a minha dissertação é escrita tanto dentro da universidade, quando dentro dos museus, quanto na confecção de costura da minha mãe, no quintal de casa. Minha mãe também é estudiosa, ela estuda sobre teoria feminista negra e ela é custureira na parte da tarde, e é ali que eu fico discutindo as coisas com ela”.  “Pensar em um mestrado em Portugal é expandir os diálogos afro-atlânticos, pensar as questões que eu pesquiso para além. A minha pesquisa é sobre a branquitude dentro da arte brasileira, e aí eu vou discutir sobre colonialidade, o processo de colonização e como isso vai refletir na arte. E pensando isso a partir de Portugal tem um ganho gigantesco, tendo em vista que é o nosso colonizador historicamente”, afirma ele. É possível doar através da página no Catarse e também acessar mais informações no perfil do pesquisador no Instagram. A campanha de financiamento coletivo vai até o dia 17 de agosto e qualquer valor é bem-vindo.  Ana Laura Menegat Estudante de Jornalismo, fotógrafa analógica e poeta. Apaixonada por histórias de vida e interessada em jornalismo com perspectiva de gênero. Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Twitter Youtube Facebook Instagram

Uma conversa sobre K-pop

Quebra de recordes musicais é só um dos diferentes impactos sociais e culturais provocados pelo K-pop Por Carolina de Mendonça Nos últimos 10 anos, foi praticamente impossível não se deparar com a “onda coreana”. Também conhecida pelo termo, não tão lisonjeiro, invasão coreana, surge do neologismo Hallyu, junção das palavras “Han” (Coreia ou coreano) e “Ryu” (corrente ou tendência), e foi criada por jornalistas de Pequim (China) em 1997, buscando explicar a ascensão da importação cultural sul-coreana. Em meio à Crise dos Tigres Asiáticos, a Coreia do Sul, através de iniciativas estatais e privadas, investiu em sua indústria do entretenimento, buscando levar para o exterior commodities que exerceriam influência para que os consumidores tivessem uma determinada visão sobre o país. No primeiro momento, a importação se concentrou em outros territórios do leste asiático como China, Japão e Hong Kong. Quinze anos após a criação do termo “Hallyu”, já era possível afirmar que a cultura pop coreana conquistou o mundo. No final de 2012, o artista PSY atingiu a marca do vídeo mais visto no YouTube, a qual permaneceu por pouco mais de quatro anos, com o videoclipe de Gangnam Style, que faz referência a um distrito de Seul, capital da Coreia do Sul. A música se tornou mania mundial – no Brasil, era comum nos ambientes e na televisão se ver reproduzida a coreografia entre gritos de “êêê sexy lady”. A música  chegou a ser sensação no carnaval soteropolitano em 2013. Mais recentemente, o audiovisual sul-coreano também se mostrou inescapável. O filme “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, venceu a Palma de Ouro, principal prêmio no Festival de Cannes e foi o grande premiado do Oscar de 2020, recebendo quatro estatuetas, entre elas a de “Melhor filme”. Entre séries, Round 6 se tornou a obra original mais vista na Netflix. Como consequência, as subjetividades têm sido constituídas e moldadas com valores advindos dessas indústrias. Aumentou o interesse em aprender coreano, no turismo na península e a busca pelo padrão de beleza sul-coreano, que assim como o estadunidense e europeu, é bastante nocivo. A onda coreana tem  atingido de forma mais intensa meninas e mulheres jovens, e possui  repercussões diretas na política. Grupos de fãs (conhecidos como fandoms), que se organizam para apoiar seus ídolos, têm sistematizado ações e campanhas de caráter progressista em vários países. Para conhecer mais sobre música pop produzida nas últimas décadas na Coreia do Sul, a Revista Badaró convidou o jornalista cultural e repórter no Omelete Caio Coletti, e a funcionária pública e estudante de Publicidade e Propaganda Sâmela Silva. Ambos fazem parte da equipe do podcast K-Pop Top. Descoberta: Você já ouviu K-pop?  O K-pop, em si, não é um gênero, mas um termo que engloba a produção musical mainstream sul-coreana desde meados da década de 1990, passando por influências diversas como Rap, dance music, rock, R&B e muito mais. Por ser tão diverso, se torna quase impossível não gostar de K-pop e mais provável ainda, não conhecer algum grupo ou artista de agrado. Com isso, a forma de ter um primeiro contato com esta cultura até se tornar um fã, tende a ser bastante diversa. Quando perguntei à Sâmela Silva sobre qual foi o primeiro contato, ela lembra que se deu ainda na adolescência, em 2010, quando colegas de escola a apresentaram ao Super Junior. “E realmente era muito legal, eu ouvia as músicas direto. Obviamente, tinha que baixar de formas absurdas”, disse se referindo à dificuldade de acesso a obras culturais antes da ascensão dos streamings. Apesar da paixão em primeiro momento, Sâmela descreve que sua relação com K-pop teve diversos momentos. A partir de 2013, ela passa a conhecer mais a fundo os grupos e discografias. Em 2017, ela começa a escrever uma coluna sobre o tema, que em dois anos se tornou um podcast junto com duas amigas. Já com Caio Coletti, a relação com K-pop se deu de forma bem diferente, apesar de acompanhar e escrever sobre cultura ocidental há mais de dez anos, teve contato mais direto com a música pop coreana em 2021, quando foi encarregado de cobrir, pelo Uol, o lançamento do MTV Unplugged do BTS. “Existia influências nas minhas redes sociais que postavam e falavam sempre para ouvir K-pop. Sâmela era uma delas, talvez a principal. Achei as músicas legais, resolvi ouvir o disco mais recente do BTS e achei bacana. Fui indo atrás de mais coisas, comecei a seguir o podcast, que hoje participo, e daí vinha mais conteúdo para mim na timeline, fui clicando, fui ouvindo. ”  Em meio à pandemia de Covid-19 e o isolamento social como estratégia para contenção das infecções, todos tiveram suas rotinas drasticamente modificadas. Nesse período o entretenimento foi uma forma de olhar para si, lidar com a solidão, escapar da realidade e ter esperança por dias melhores. Com os dias de confinamento, Caio, que trabalhava em uma redação jornalística no centro de São Paulo (SP), passou a trabalhar de forma remota e retornou à cidade natal, no interior do estado. “Na pandemia, a gente tinha muito tempo. E os conteúdos lançados são desenhados para você se envolver cada vez mais, não só com a música, mas com a história de cada grupo, com as personalidades de cada membro. Acho que há um elemento de escapismo, mas uma conexão também.” Já Sâmela, que trabalha com educação, o retorno ao trabalho presencial se deu antes de iniciar seu ciclo vacinal, o que gerou uma série de angústias. “Eu estava com muito medo de andar de ônibus, de ver pessoas de novo. E uma das coisas que me ajudou não a esquecer, mas abstrair, foi o K-pop.” Caio conclui que a música pop tem essa capacidade de mostrar o mundo de forma menos perigosa, algo essencial para manter a sanidade em um momento tão árduo. “Para mim, era muito uma questão de eu querer ouvir música pop, pois eu tinha saudades de música pop. E eles continuam fazendo o tempo inteiro, de forma volumosa. O que é sempre bom e satisfatório.” Onda