Legalização do aborto na Argentina [Badrops 17]
Com apoio do presidente Alberto Fernández, projeto de lei pode ser aprovado ainda no final deste ano Por Leopoldo Neto e Marina Duarte MARINA DUARTE produtora-executiva Ilustradora, acadêmica de psicopedagogia, estudou jornalismo. Militante feminista interessada na profunda transformação social. leopoldo neto Editor-chefe Jornalista e mestrando em Comunicação. Possui interesse em jornalismo político, científico e cultural. Busca explorar o formato podcast.
Gênio, polêmico, militante: 60 anos de Diego Maradona
Histórico camisa 10 argentino é um dos maiores jogadores da história do futebol, militante de esquerda e tem até religião em sua homenagem Por Gabriel Neri e Norberto Liberator Diego Armando Maradona Franco, ou simplesmente Diego Maradona, completa seis décadas de vida neste 30 de outubro de 2020. Atualmente, é treinador do Gimnasia y Esgrima La Plata. Nascido em Villa Fiorito, em Lanús, na Província de Buenos Aires, na Argentina, o Pibe de Oro (menino de ouro), como é conhecido, fez história enquanto atuava como jogador, depois de se aposentar e até como Dios de uma religião. Para muitos jornalistas, ex-jogadores e treinadores, Diego é um dos maiores nomes da história do futebol. No cenário sul-americano, brasileiros colocam Pelé como o maior e argentinos respondem com Maradona es más grande que Pelé. O argentino nunca escondeu seu lado político, o da esquerda, e isso é visto em seu braço direito com o rosto de Ernesto ‘Che’ Guevara tatuado no braço direito e o de Fidel Castro, na panturrilha esquerda. A mágica perna esquerda de Maradona o rendeu 11 títulos ao longo da carreira como jogador profissional. O principal foi a Copa do Mundo de 1986, no México, com a Seleção Argentina. Diego foi o capitão, eleito o melhor daquela Copa e ainda fez, na histórica partida contra a Inglaterra, o gol do século – título dado pela FIFA. Vida futebolística Filho de Diego Maradona e de Dalma Salvadora ‘Tata’ Franco, Dieguito foi o quinto filho dos oito filhos que o casal teve e o primeiro a jogar futebol. A carreira de Diego começou no Argentinos Juniors. A estreia como profissional foi também no mês de outubro, no dia 20, em 1976. Anos depois, ao falar de sua estreia pelo clube portenho, contou que no dia “tocou o céu com as mãos”. O jovem, dois anos antes da Copa do Mundo de 1978, sediada e vencida pela Argentina, era um dos cotados para fazer parte do plantel. Mas César Luis Menotti acabou por deixar o jogador do Juniors de fora da convocação final. Maradona foi artilheiro por cinco vezes do Campeonato Argentino após a Copa. O destaque chamou atenção de clubes da Colômbia, da Argentina e de vários países da Europa. O River Plate fez proposta, mas ele resolveu ir para o Boca Juniors, que passava por uma crise financeira. Com o clube de La Boca, levou o Campeonato Metropolitano em 1981 antes de ser vendido ao Barcelona. Coincidentemente, também foi na Espanha que, em 1982, jogou sua primeira Copa com a Argentina. A história no Barça terminou em 1984, com a transferência para o italiano Napoli. Em Nápoles, tornou-se ídolo ao conquistar o único título internacional do clube, a Copa da UEFA, e os dois Campeonatos Italianos. Foram seis anos defendendo o clube azul celeste até ir para o Sevilla. Encerrando sua carreira como jogador, defendeu o Newell’s Old Boys e o Boca Juniors. Como treinador, já comandou o Textil Mandiyú, o Racing Club, ambos da Argentina, o Al Wasl, o Al-Fujairah, dos Emirados Árabes Unidos, o Dorados de Sinaloa, do México, e a Seleção Argentina. Atualmente, está no Ginmasia y Esgrima La Plata. La mano de Dios e o gol do século Jogando pelo Napoli, Diego viveu seu melhor momento da carreira e novamente foi à Copa do Mundo. Desta vez, como o camisa 10 e capitão. O Mundial de 86, no México, foi a melhor apresentação individual de um argentino por sua Seleção na história. Maradona desequilibrou do começo ao final da Copa do Mundo. A Albiceleste passou da fase de grupos com vitória por 3 a 1 sobre a Coreia do Sul, empate contra a Itália com gol de Diego e um 2 a 0 sobre a Bulgária. Nas oitavas, eliminou o Uruguai e enfrentou a Inglaterra nas quartas de final. O dia 22 de junho daquele ano é uma das datas mais lembradas do futebol mundial. O contexto da época com a Guerra das Malvinas entre argentinos e ingleses em 1982 trazia tensão e importância ao jogo. Maradona tomou o jogo para si e em cinco minutos, fez dois gols inesquecíveis em Copas do Mundo. O gol com la mano de Dios (mão de Deus) e o gol do século. O primeiro foi numa disputa de bola com o goleiro Peter Shilton, que Diego ganhou no alto e fez o gol dando um tapa com a mão esquerda. Cinco minutos depois, Maradona recebeu no campo de defesa, passou pela marcação de três ingleses e avançou. Ele passou por mais dois, entrou na área, driblou o goleiro e fez o gol del siglo. Os ingleses diminuíram o placar para 2 a 1, mas a Argentina passou. O simbolismo de eliminar a Inglaterra, pouco depois do massacre na Guerra das Malvinas, foi motor para a arrancada da seleção argentina e aflorou o sentimento nacionalista da população. Contra a Bélgica, repetiu a atuação e fez dois gols. O primeiro com um toque na saída do goleiro e o segundo passando por toda a defesa belga e finalizando forte. A final foi contra a Alemanha Ocidental. O time latinoamericano abriu 2 a 0 e tomou o empate faltando 10 minutos para o fim. Diego, mais uma vez, decidiu. O 10 achou Jorge Luis Burruchaga que fez o gol do título. Argentina foi bicampeã do mundo, desta vez, com Maradona. Quatro anos depois, na Itália, os argentinos enfrentaram os anfitriões no estádio San Paolo, em Nápoles, onde Maradona era idolatrado. Naquela ocasião, o público local se dividiu. Muitos napolitanos torceram para a Itália, mas outros preferiram vibrar pela Argentina. Além da paixão por Diego, havia a rivalidade regional entre o norte, mais desenvolvido, escolarizado e hegemônico no futebol; e o sul, mais pobre, que começava a ter momentos de glória com a ascensão do Napoli. Polêmico desde sempre, Maradona não deixou de opinar: em coletiva antes da partida, pediu apoio da torcida e reiterou que “por 364 dias do ano, os italianos do sul são tratados como estrangeiros dentro de seu próprio país”. Muitos sulistas
Adiós, compañero, adiós

Morte do cartunista argentino Quino é o adeus de um símbolo dos quadrinhos latinoamericanos, cuja trajetória foi marcada pela militância política O dia 30 de setembro de 2020 começou com uma notícia devastadora aos apreciadores dos quadrinhos ou para os que acreditam na arte como forma de se buscar um mundo melhor. Joaquín Lavado Tejón, o Quino, morreu aos 88 anos de idade por consequência de um acidente vascular-cerebral (AVC), ocorrido na semana passada. O argentino de Mendoza ficou mundialmente famoso pela personagem Mafalda, uma menina curiosa e com senso crítico aguçado, inspirada na avó do autor, uma espanhola “comunista, muito simpática e com grande senso de humor”. As tirinhas com a personagem são as mais vendidas da história da América Latina e formam a obra em língua espanhola mais traduzida no mundo, com sua primeira aparição em 29 de setembro de 1964. A militância política esteve presente na vida de Quino desde pequeno. O cartunista era filho de espanhóis e escutava, em casa, comentários sobre a guerra civil que varreu o país de 1936 a 1939, e que terminou com a vitória do general fascista Francisco Franco – o qual governaria a Espanha até 1975. A estreia da Mafalda foi publicada quase dois anos antes do golpe militar liderado por Juan Carlos Onganía, que estabeleceria uma ditadura de direita na Argentina; e já durante a gestão do ditador Humberto Castello Branco no vizinho Brasil. Apesar de sua convicção, o artista também teve seus momentos de relutância. “Depois de 1973, com o golpe no Chile, parei de desenhar a Mafalda por causa da situação na América Latina. Ela ficou muito ensanguentada. A menina não parava de falar sobre o que estava acontecendo. E se eu falasse sobre o que estava acontecendo, eu teria que deixar a Argentina. Não me deixariam ou teriam atirado em mim”, declarou sobre a “aposentadoria” da personagem. Com o passar do tempo e com a piora da situação política argentina, culminando com o novo golpe que, em 1976, estabeleceu um regime ainda mais repressor e sanguinário sob o comando do general Rafael Videla, os temores de Quino se comprovaram. Seu colega Héctor Oesterheld, criador dos personagens Mort Cinder e Eternauta, considerado por muitos o maior roteirista de quadrinhos de todos os tempos, desapareceu junto à esposa e às quatro filhas em 1977. Seus corpos nunca foram encontrados. Somaram-se ao que Videla, cinicamente, chamaria de “nem vivos, nem mortos”. Afinal, “desaparecidos são desaparecidos”, segundo o ditador. Naquele mesmo ano, foi criada a Associação das Avós da Praça de Maio, movimento de mulheres que tiveram seus filhos mortos e netos roubados pela ditadura militar argentina. De cerca de 500 bebês, 130 (já adultos) foram reencontrados pelas famílias biológicas e as buscas continuam. As ditaduras de extrema-direita da América do Sul passaram, Mafalda ficou. A popularidade da garotinha é tão grande que, em 2005, foi criada a Praça Mafalda, em Buenos Aires, onde há estátuas, murais, quadros, jogos e quadrinhos. Foi o primeiro espaço turístico infantil da cidade. A personagem se tornou, ao redor do mundo, um sinônimo de Argentina, como os dribles e gols de Maradona, ou como o tango de Carlos Gardel. Dentro de seu país, a popularidade só é comparável à do Eternauta. A Videla, que morreu na prisão por seus crimes contra a humanidade, sobrou a lata de lixo da história. Quino venceu. Oesterheld venceu. As avós da Praça de Maio venceram. O artista deixa o mundo num momento de poucas perspectivas e de muita angústia, em meio a uma pandemia global e ao recrudescimento do populismo de direita. Por outro lado, a Argentina vive a retomada da hegemonia de esquerda, sob o governo de Alberto Fernández. Ironicamente, é ele quem pretende concretizar um dos últimos objetivos de Quino: em 2018, o quadrinista entrou na Justiça para impedir que movimentos contrários à legalização do aborto usassem a Mafalda como símbolo. “Não as autorizei, não refletem minha posição e peço que sejam removidas. Sempre acompanhei as causas dos direitos humanos em geral, e a dos direitos humanos das mulheres em particular, a quem desejo sucesso em suas reivindicações”, declarou Quino em um comunicado, à época, no qual negava a autoria de tiras cujo conteúdo, com a personagem, era contrário ao direito de mulheres abortarem. Caso o projeto de Fernández seja aprovado, será mais uma vitória de Mafalda, que sempre representou a luta pela liberdade. A Badaró, que tem em Quino uma de suas principais inspirações, presta suas condolências aos familiares, amigos e fãs. Relembramos a frase de Henfil, outro grande cartunista, militante político e representante da imprensa alternativa na América Latina: “morro, mas meu desenho fica”. Como toda obra transcende o autor, a mensagem de Quino continua viva. E continuará, enquanto houver quem sonhe com um mundo mais justo, onde a arte prevaleça sobre a estupidez. Revista Badaró Jornalismo em quadrinhos e outras narrativas híbridas.
O uso político do futebol por ditaduras sul-americanas
Regimes militares da América do Sul usaram o prestígio de clubes e seleções nacionais para se promover politicamente
