“LGBTfobia está atrelada ao processo de colonização”

Designer, indígena boe-bororo, homossexual e mestrando em Antropologia, Neimar Kiga fala sobre sua trajetória, preconceito, religião, política e até futebol Texto por Aline Correia Antonini (colaboração especial)Arte por Marina Duarte e Norberto Liberator (colaborou também na edição de texto) “Eu era radical, uma revolucionária. Ainda sou uma revolucionária. Estou feliz por ter participado do motim de Stonewall. Lembro-me de quando alguém preparou um coquetel molotov e pensei: Meu Deus, a revolução chegou. A revolução está finalmente aqui! Temos que fazer isso porque não podemos mais ficar invisíveis. Não devemos ter vergonha de quem somos. Temos que mostrar ao mundo que somos numerosos. Existem muitos de nós lá fora”.     Sylvia Rivera, mulher transgênero porto-riquenha que lutou na linha de frente durante a Revolta de Stonewall. Ela participou da fundação da Frente de Libertação Gay, da Aliança de Ativistas Gays e da Ação Revolucionária de Travestis de Rua (STAR).   No dia 15 de maio de 2020, a Meruri, aldeia do povo Boe Bororo na região de Barra do Garças, bem no leste de Mato Grosso, estava em luto. As cerimônias e rituais são fundamentais em sua cultura. Dizem que os Boe Bororo sabem “chorar os seus mortos” nos intensos rituais fúnebres que podem se prolongar por vários dias. Neste dia, o povo Boe chorou pelo suicídio de Brenda – principalmente o grupo de jovens indígenas LGBTQIA+ da aldeia. Dentre eles, um de seus melhores amigos, Neimar Kiga, que utilizou as redes sociais para desabafar seu grito de dor e homenagear a memória de Brenda, por sua força e pela luta que enfrentou durante todos os anos de sua vida. Brenda era uma mulher indígena trans, a primeira de sua comunidade, e por ser a primeira, resistiu ao preconceito, ao ódio, às ofensas e à violência. Segundo Neimar, “sempre de cabeça erguida, de nariz em pé, pisando forte, mesmo com o coração estraçalhado, mantinha a postura de orgulho de si mesma e de todos nós”. Em seu texto, Neimar destacou a necessidade de políticas públicas voltadas para comunidade indígena LGBTQIA+ com urgência. Afirmou que carregam marcadores sociais de diferença que as tornam ainda mais vulneráveis à LGBTfobia, causando problemas de saúde mental gravíssimos, e pediu pela ajuda de que a comunidade precisava: o atendimento profissional. Os marcadores sociais da diferença buscam explicar como as desigualdades sociais foram construídas e mantidas como naturais, a partir da ênfase em raça, classe, gênero e sexualidade; e desnaturalizam essas noções entre as pessoas. Hoje, um ano após o suicídio de Brenda, o antendimento psicológico profissional para saúde mental chegou e se consolidou na aldeia, mas infelizmente não há tempo para ajudá-la. Neimar afirma que, se ela não tivesse morrido, a ajuda não teria chegado. “Só tivemos ajuda após a partida da Brenda, nós devemos muito a ela, inclusive a nossa própria vida”. Na aldeia Meruri existia apenas um registro de suicídio, de um rapaz que sofria com transtornos psiquiátricos, e era primo de Neimar. Não sabem ao certo o que aconteceu. O segundo foi o de Brenda. Há décadas existem missões da Igreja Católica presentes dentro da Aldeia. Inclusive, existe uma igreja católica na Meruri. Além da moralidade e condenação por pecados, fatores presentes nos fundamentos do cristianismo, existem também outros não indígenas que, junto a essas missões, permanecem durante períodos na aldeia. Através dessas pessoas cristãs não indígenas, vieram as cobranças de um comportamento moral que não pertence ao povo Boe. Com o tempo, a aldeia absorveu toda essa imposição moralista, toda essa violência já sofrida por todas as etnias e povos indígenas do Brasil. Ainda hoje, existem missões cristãs que ajudam que auxiliam, e outras, que buscam catequizar e condenar suas formas de viver suas vidas. Neimar relata que os cristãos inserem regras e normas que não pertencem ao seu povo. “Diziam que eu cometo pecado, como que eu cometo pecado se eu nem sou cristão? Eu não pertenço à religião cristã, tenho a religião do meu povo, o nosso Deus, como é que eu vou pecar pelos preceitos de uma outra religião?” e destaca que a violência sofrida por ele e pelos outros indígenas desde jovens, a LGBTfobia, xingamentos, deboches e a criminalização da sua sexualidade se iniciaram após a influência de não indígenas que adentram a aldeia. Será que Brenda teria chegado ao sofrimento tão profundo, após tanta luta, a tirar a própria vida caso não estivessem com os não indígenas e cristãos dentro de sua aldeia? Haveria tanto ódio, tanto preconceito, se estivessem apenas entre eles, entre seu povo? Neimar acredita que não. Ele e seu grupo de amigos indígenas, também LGBTQIA+, do mesmo povo Boe Bororo, na mesma aldeia Meruri, convivem hoje com a depressão, medo, ansiedade e alguns tomam medicamentos para reduzir os sintomas. Recebem atendimento psicológico e psiquiátrico, tudo após o suicídio de Brenda, pois até então, todos eles aguentavam e lutavam sem ajuda, apenas apoiando uns aos outros, mantendo-se de cabeça erguida e unidos. Quando perguntei a Neimar se ele realmente queria falar sobre o suicídio da Brenda e todas as suas consequências, a sua resposta foi: “ela era minha melhor amiga e hoje eu também luto contra a depressão. A Brenda, a minha depressão, e o suicídio dela, fazem parte de quem eu sou, portanto, se eu vou contar minha história, ela será contada completa e isso inclui a Brenda.” A organização dos clãs e linhagem dos Boe Bororo é matrilinear, né? Fale sobre a matrilinearidade do seu povo. Então, já que começaram falando sobre a matrilinearidade do nosso povo, eu vejo que nós temos um certo privilégio enquanto LGBTQIA+ aqui na nossa aldeia, principalmente os homens em maior quantidade, lésbicas e algumas trans. Eu acredito que a matrilinearidade é bastante positiva e a nossa relação com as nossas famílias, as nossas mães, é bem mais tranquila, porque o poder das mulheres é bem grande aqui dentro da aldeia. Entretanto, pelo olhar do feminismo ocidental que vem para constituir essa igualdade de gênero, aqui para nós não tem essa igualdade, a mulher tem