10 de outubro de 2025

Grupo reivindica ligação com guerrilha peruana do Sendero Luminoso e é suspeito de implantar materiais explosivos em SP, PR e MS

Arte: Norberto Liberator

“Viva o maoísmo”; “Viva a guerra popular”; “Viva a revolução democrática”; “Morte aos fascistas”; “Morte aos generais golpistas”. Estas são frases presentes em panfletos encontrados junto a materiais explosivos em algumas cidades do Brasil, em diferentes datas.

No dia 8 de outubro de 2025, foi a vez de Campo Grande. O esquadrão antibombas do Bope local desarmou um artefato no terminal de ônibus Morenão, que liga o centro da capital sul-mato-grossense à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Junto ao explosivo, havia panfletos com as frases citadas no parágrafo anterior.

De acordo com testemunhas, os materiais foram deixados por um homem com roupas pretas, óculos escuros e máscara cirúrgica, que teria passado mais de três horas de pé no terminal. Organizações comunistas rechaçaram a ação e negaram envolvimento.

Os materiais fazem referência a uma organização autointitulada Partido Comunista do Brasil, que utiliza a sigla P.C.B., com pontos, diferentemente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Apesar da confusão gerada pelo nome, o P.C.B., anteriormente conhecido como PCB Fração Vermelha (PCB-FV), não guarda relação com as duas legendas, nem é um partido legalmente constituído. O grupo reivindica o maoísmo, ou seja, o pensamento de Mao Zedong (ou Tsé-Tung), que governou a China entre 1949 e 1976.

Não é a primeira vez que materiais atribuídos ao grupo são encontrados junto a artefatos explosivos. E nem sempre foram desarmados. Em Londrina, em outubro de 2024, uma bomba caseira explodiu em uma feira, espalhando panfletos assinados com o nome e a sigla da organização. O material, intitulado “Eleição não, revolução sim”, pregava o voto nulo e a não participação na “farsa eleitoral”. Não houve feridos. Os artefatos, até o momento, têm sido de baixo potencial explosivo.

Já em março de 2025, ocorreu uma explosão no Terminal Pinheiros, em São Paulo. À época, postagens e comentários em redes sociais atribuíam o ato a uma falsificação, supostamente feita por pessoas de direita, para difamar grupos comunistas. O jornalista William De Lucca, por exemplo, afirmou em sua conta no X que a referida organização não existe, e apontou que existem o PCB e o PCdoB.

A vereadora Luna Zarattini, do PT de São Paulo, usou a mesma rede para dizer que se tratava de uma “armação grotesca” com “cheiro de armação da extrema-direita para criminalizar a esquerda”. Luna chamou os panfletos de “falsificados” e postou uma imagem, cuja legenda afirma que a sigla estaria errada. As posturas de Zarattini e De Lucca demonstram que as informações sobre o P.C.B. com pontos, inclusive o conhecimento sobre sua existência, são bastante obscuras mesmo em meios de esquerda.

Já em maio do mesmo ano, outra bomba que acompanhava panfletos de mesmo teor foi desarmada no Terminal do Boqueirão, em Curitiba. O advogado Luiz David Alessi foi preso, suspeito de ter deixado o artefato no local. As câmeras de segurança mostram um homem com o material em uma sacola. Na casa de Alessi, foram encontrados panfletos com o mesmo conteúdo do que acompanhava o explosivo.

Afinal, o que é o P.C.B. com pontos?

Anteriormente autorreferido como Partido Comunista do Brasil – Fração Vermelha (PCB-FV), o P.C.B. com pontos é um grupo gonzalista, ou seja, de uma linha maoísta que segue a doutrina do peruano Abimael Guzmán, conhecido como ‘Presidente Gonzalo’. Guzmán, ou Gonzalo, foi o líder da organização guerrilheira Sendero Luminoso, que por décadas guerreou contra o Estado peruano até ser praticamente dizimada pelo ditador Alberto Fujimori, entre o final da década de 1990 e início do século XX.

O P.C.B. com pontos possui um portal por onde publica seus comunicados oficiais, intitulado “Servir ao povo de todo coração”. O site é constantemente atualizado e os textos são escritos no léxico gonzalista: repletos de adjetivações elogiosas à linha e figuras de referência do grupo (“Todo-poderoso pensamento Gonzalo”, entre outros), bem como ofensas específicas (como “revisionista”) e termos próprios, como “guerra popular” e “revolução democrática”. Há menções frequentes à Liga dos Camponeses Pobres (LCP), grupo de luta no campo que possui orientação maoísta.

Frequentemente, os gonzalistas são acusados por outras organizações de esquerda de ser uma seita. Um exemplo é o portal Esquerda Diário, ligado ao Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), que já chamou Gonzalo de “líder messiânico” e apontou que seus seguidores o consideram “infalível”.

A expressão “guerra popular”, recorrente nos panfletos e comunicados do P.C.B. com pontos, é central no pensamento maoísta. Refere-se à ideia de uma insurreição prolongada conduzida pelas massas camponesas contra o Estado e o capitalismo. No contexto contemporâneo, o uso do termo é mais simbólico do que estratégico, funcionando como marcador ideológico e forma de distinção frente a outras correntes da esquerda.

A escolha de uma sigla quase idêntica às do PCB e do PCdoB poderia indicar uma tentativa de inserção na disputa ideológica e política que atravessa o campo comunista. Ao acrescentar pontos entre as letras, o grupo aparenta buscar afirmar uma suposta ortodoxia marxista-leninista, apresentando-se como guardião da “linha correta” da revolução, ao mesmo tempo em que parece se beneficiar da confusão pública em torno das siglas históricas da esquerda brasileira.

O nome “Partido Comunista do Brasil” com a sigla “P.C.B.” possivelmente faz referência à nomenclatura fundacional do PCB, formado em 1922 como seção brasileira da Internacional Comunista. Em 1960, a agremiação mudou sua nomenclatura para “Partido Comunista Brasileiro”, para reforçar o caráter nacional.

Pouco depois, devido à adesão do partido às críticas da administração de Nikita Kruschev ao antigo líder soviético Joseph Stálin, a organização sofreu uma cisão, com a saída de um grupo dissidente que discordava da linha adotada. Este grupo retomou o nome “Partido Comunista do Brasil”, mas agora com a sigla PCdoB. A adoção, por gonzalistas, da alcunha de “Partido Comunista do Brasil” abreviado como “P.C.B.” é, possivelmente, a reivindicação de que seriam os legítimos representantes do antigo legado.

Os militantes do P.C.B. com pontos não se identificam publicamente. Seu site sugere que leitores, ao entrar em contato por e-mail, utilizem alguns serviços que impeçam o rastreamento de dados. O grupo integra a Liga Comunista Internacional (LCI), entidade que reivindica o que chamam de “marxismo-leninismo-maoísmo, principalmente maoísmo” e atua em diversos países.

O que dizem os partidos comunistas oficiais?

Procuradas pela reportagem, lideranças do PCB e PCdoB manifestaram os posicionamentos dos partidos a respeito do caso. Ambas repudiam ações com explosivos e alertam para que se tome cuidado em relação à confusão com os nomes.

O PCB de Mato Grosso do Sul, por meio de sua direção, afirmou à Badaró que atos desse tipo jamais serão a tática do partido. “Temos um histórico de trabalho de base que envolve entregar panfletos sobre pautas políticas urgentes e conversar diretamente, cara a cara com a classe trabalhadora, e não explodindo esses panfletos de forma performática e perigosa”, pontua um dirigente do partido.

De acordo com a direção partidária, ações como as ocorridas em Campo Grande, São Paulo, Londrina e Curitiba apenas atrapalham a causa. “Uma atitude como essa coloca em risco a classe trabalhadora, por quem quaisquer organizações ou militantes comunistas sérios devem prezar. Em vez de aproximar, afasta nossa classe de seus espaços de luta e reivindicações”.

Já em nome do PCdoB, a presidenta da sigla em Mato Grosso do Sul, Iara Gutierrez Cuellar, também manifesta repúdio ao caso. “Essa prática que virou matéria de jornal, inclusive, é uma prática que não contribui com nada. Que é mais para fazer as coisas contrárias ao que a gente defende. Totalmente contrárias”, declara a professora e dirigente partidária.

“Mais absurdo ainda é usar um símbolo da esquerda, não só do PCdoB ou do PCB”, pontua Iara sobre a utilização do emblema da foice e martelo cruzados, utilizado nos panfletos que acompanhavam o explosivo. “O PCdoB é um partido consequente, que prima pela democracia; que não só defende a democracia, como valoriza muito. Nós fazemos a defesa da institucionalidade. Não fazemos esse tipo de vandalismo”.

Iara, que foi reeleita para a presidência do partido em setembro, destaca que a tática do PCdoB se baseia em um projeto sólido dentro da institucionalidade e no amplo diálogo com a sociedade. “Nós do PCdoB defendemos a democracia, a soberania do país, as instituições; defendemos um projeto para o Brasil com desenvolvimento que olhe para o povo, para o emprego, para a riqueza do país, que leve em consideração a inteligência e o esforço de cada cidadão”.

A dirigente destaca que protestos são legítimos e um direito, mas que devem ser realizados de forma organizada e responsável. “Você tem outras formas de fazer. E quais as outras formas de se fazer? Organizando as pessoas e indo cobrar. Indo cobrar de quem administra. Quem administra Campo Grande? A prefeita Adriane Lopes”.

Na mesma linha, a direção do PCB sul-mato-grossense declara ainda que atentados em terminais de ônibus são contrários à própria atuação do partido. “Afeta justamente estudantes, trabalhadoras e trabalhadores que utilizam o transporte público que já é sucateado em nosso município, uma pauta pela qual lutamos ativamente em parceria com outros coletivos, organizações e mandatos”.

Os dirigentes do PCB apontam a parceria com o Coletivo Linha Popular (CLP), a Unidade Popular pelo Socialismo (UP) e a vereadora Luiza Ribeiro (PT) para denunciar irregularidades do Consórcio Guaicurus, conglomerado privado que detém o transporte público em Campo Grande. Para os militantes do partido, não haveria coerência em construir tal mobilização e, paralelamente, utilizar terminais de ônibus como alvo.

“A tática do PCB, do Poder Popular, entende que a construção de uma nova sociedade e que a disputa por um futuro socialista são indissociáveis disso. Por isso, hoje temos camaradas tocando a luta sindical na Educação e na Saúde”, afirma um dirigente pecebista. O partido ainda cita o apoio à comunidade LGBTIA+, com atividades como o Bozó das Travestis; da criação de uma casa de abrigo para a população LGBTIA+ em situação de rua até a criação de um conselho municipal e estadual de políticas sobre o tema.

Sobre a linha política do P.C.B. com pontos, a direção do PCB ainda destaca que Abimael “Gonzalo” Guzmán “foi responsável por uma série de atrocidades e práticas de terror contra trabalhadores e populações indígenas, que até hoje mancham o nome da tradição comunista na América Latina”.

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