30 de outubro de 2025

No dia seguinte à megachacina, amanheceu o Rio de Janeiro menos violento?

Por Fabiana Trad*
Arte: Norberto Liberator

Vinte e oito de outubro de dois mil e vinte e cinco.
O sol ainda hesitava em nascer quando teve início a operação mais letal da história do Rio de Janeiro.
Até o momento, mais de uma centena de corpos tombaram. 

Poderia deter-me nas raízes que gestaram as facções criminosas deste país.
Poderia, sob uma lente político-criminológica, decifrar os equívocos, as omissões e a ausência de planejamento que atravessam ações estatais como esta.


Poderia, ainda, adentrar o labirinto histórico e estrutural que alimenta a perpetuação da barbárie. Permito-me, contudo, a uma pergunta singela:
Vinte e nove de outubro de dois mil e vinte e cinco.
Dia seguinte à megachacina, amanheceu o Rio de Janeiro menos violento? 

Alguns (curiosamente os mesmos que jamais sentiram o estalar dos tiros ecoando ao lado de casa) bradam, com a sordidez própria de quem perdeu a empatia:
“Se está na favela, tem que meter bala”.
E defendem tal atrocidade porque, obviamente, não estão na favela.


Porque jamais experimentaram na carne o peso da violência institucional.
Porque reproduzem, sem pudor, o discurso racista e aporofóbico que sustenta a indiferença nacional. Não são os filhos deles que deixam de ir à escola temendo o projétil.
Os filhos deles estudam protegidos em escolas particulares, com lancheiras intactas e janelas blindadas até da própria realidade.


Não são eles que perderão o dia de trabalho porque o ônibus não ousou subir o morro.
Os deles partem em automóveis climatizados, rumo à empresa na qual mandam. Há, contudo, uma inquietação que os aflige: a empregada não veio.
E, não vindo, restarão por lavar as louças, as cuecas, as calcinhas.


Ela não veio porque se abrigava, encolhida com seus filhos, dos estampidos que trespassavam o ar. Mas isso, dirão, não é problema.
Quem vive na favela é porque “não aproveitou as oportunidades”. Amanhã, o salário será descontado, e tudo voltará à ordem, restabelecida, como sempre, pelas mãos da doméstica. O drama dessa gente é a cegueira moral de quem se julga distinto.
São incapazes de sentir a dor alheia, porque a empatia exige humanidade e esta lhes falta. 

O que poucos percebem é que estão mais próximos do favelado que desprezam do que dos milionários que, do alto de suas coberturas, assistem à carnificina transformada em notícia.
O que deveriam saber é que Cristo, o mesmo Cristo Redentor, que de braços abertos cobre o Rio de Janeiro, observa, do alto, a perversidade dos que não se compadecem. 

E chora, talvez, pelas almas que se habituaram à indiferença.

*Advogada criminalista, redatora do site O Garantista, comprometida em exercer a advocacia com coragem e humanidade.

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