Em entrevista exclusiva, candidato à presidência nacional do PT defendeu maior mobilização e retomada da luta anticapitalista
Condução e roteiro: Norberto Liberator
É hoje o homem forte do partido. Nenhuma decisão é tomada sem sua aprovação. Representante da corrente ortodoxa, luta para que na campanha Lula não ceda ao “pragmatismo”. É considerado um dos mais duros negociadores nas disputas internas, mas sabe a hora de recuar.
Foi assim que a Folha de S. Paulo definiu, no dia 11 de abril de 1994, o jornalista e atualmente deputado federal Rui Falcão. Se sua influência já não seria abordada da mesma forma, outros pontos certamente se mantêm. Rui segue fiel aos princípios que o levaram à atuação política, seja no PT, seja quando, durante a ditadura militar, integrou a luta armada como membro do grupo guerrilheiro VAR-Palmares.
Aos 81 anos, o mineiro de Pitangui, cuja trajetória política se fez em São Paulo, segue com disposição para enfrentar mais uma batalha: a disputa das eleições internas do Partido dos Trabalhadores. Visto como parte da chamada esquerda do PT, o ex-presidente da legenda quer retomar o posto para reconectar a direção petista com a busca pelo socialismo e com a mobilização popular.
No saguão do hotel em que se hospedou durante agenda para compromissos de campanha, em Campo Grande, Rui concedeu uma entrevista à Badaró. Entre uma xícara de café e algumas espreitas na goleada do Manchester City por 5×2 contra a Juventus, pela Copa do Mundo de Clubes, o parlamentar conversou sobre os rumos do partido, o genocídio contra a população palestina, comunicação do governo federal e outros temas.
Em Mato Grosso do Sul, o PT ainda integra a base do governo do tucano Eduardo Riedel. Uma figura do agronegócio, que recentemente colocou sua polícia para agredir companheiros sem-terra e que defende a anistia aos golpistas do 8 de janeiro. Como o senhor vê essa aliança e a possibilidade do rompimento do PT com esse governo?
Eu não vou me intrometer nas decisões do partido aqui no Mato Grosso do Sul. Imagino que essa participação deve ter sido aprovada pela direção. Dito isso, eu particularmente acho que nós não deveríamos integrar governos que reprimem os movimentos sociais, movimentos de trabalhadores e que apoiam o inominável, que inclusive não condenam publicamente o golpe de 8 de janeiro.
Mas essa é a minha opinião pessoal, sem conhecer os detalhes que teriam levado o nosso partido a integrar esse governo, se é que o PT autorizou a participação no governo de Eduardo Riedel, que eu não tenha essa informação.
O senhor é visto como um dos candidatos que buscam uma retomada de um programa mais à esquerda no Partido dos Trabalhadores, enquanto outros setores buscam uma caminhada ao centro. Diante do cenário atual, que rumos o senhor acha que o PT deve tomar internamente para fazer frente ao crescimento da extrema direita e ao sufocamento feito pelo centrão?
Então, essa pergunta já embute uma resposta. O sufocamento feito pelo centrão é resultado de uma política, de uma tática que não faz o enfrentamento da direita.
Todo o crescimento da extrema direita no mundo e aqui no Brasil, inclusive, tem como uma das razões o encolhimento da esquerda. O esquecimento de bandeiras históricas que nós sempre sustentamos, como, por exemplo, a luta anticapitalista, a luta antiimperialista, a presença nos territórios organizando a classe trabalhadora em defesa de seus interesses.
Esse é o papel, inclusive, principal dos parlamentares. Quando nós definimos a nossa participação em eleição, nós dizemos o seguinte: eleição é um meio, não é um fim. E o papel dos parlamentares, um deles, além de legislar, além de fiscalizar, é ajudar a organização das lutas da classe trabalhadora.
Então, eu acho que sair do cerco do centrão… que hoje o nosso governo está cercado por fora e minado por dentro. A maneira de fazer isso é buscar a nossa religação com os setores populares e a defesa de bandeiras como, por exemplo, o plebiscito de 7 de setembro… que propõe isenção do imposto de renda quem ganha de cinco a sete [mil reais], taxação de quem ganha acima de 50, redução da jornada sem redução de salário e o fim da escala seis por um.
Eu acrescento também nesse plebiscito que a gente consulte a população sobre a história da anistia, sem anistia. Então, outra causa importante que deveria fazer parte aqui do nosso cotidiano é a proposta para que o Brasil, o governo brasileiro, rompa relações diplomáticas e comerciais com o governo genocida de Israel. Até porque o presidente Lula é considerado lá em Israel, pelo governo, persona non grata.
Eu não entendo quais as razões que nos levam a isso. Então são lutas desse tipo que podem conectar o partido com o conjunto da população, setores médios e o próprio governo para recuperar a sua popularidade.
Os quatro candidatos à presidência do PT defendem romper as relações diplomáticas com Israel devido ao genocídio cometido contra o povo palestino. E até o momento, como o senhor frisou, o presidente Lula tem denunciado o caso internacionalmente, mas as relações oficialmente se mantêm. Como o senhor avalia esse posicionamento do governo e essa necessidade?
Então, essa proposta que os quatro candidatos escreveram, que é uma moção ao presidente Lula, fui eu que propus num debate no Rio Grande do Sul. E os outros três concordaram com os termos da moção, e eu fiz com que ela chegasse ao presidente Lula, entreguei lá para o chefe de gabinete dele.
A alegação, pelo menos, do ministro das Relações Exteriores, numa sessão – eu sou membro da comissão – e ele até me cumprimentou, depois agradeceu o meu desempenho na reunião. Mas eu falei duas coisas para ele. Se não querem romper as relações, que diz que não dá e tal, que pelo menos participe do projeto chamado “boicote, sanções e vetos” ao governo de Israel.
Ou seja, ele me esclareceu na ocasião, que eu falei: “por que nós exportamos o petróleo para Israel?”. Ele disse que o Brasil, o governo brasileiro e a Petrobras não exportam petróleo para Israel, mas é possível que algumas das petroleiras que exploram petróleo possam estar fazendo isso. Foi a explicação que ele me deu.
E, também, ele, o Itamaraty, dificultou que o Ministério da Defesa importasse lançadores de foguetes de Israel. Mas há sempre essa demanda de querer que algum tipo, principalmente entre as Forças Armadas, importar equipamentos, coisas desse tipo. Exportar, nem pensar. Isso o governo não está fazendo. Eu achava importante pelo menos um boicote, veto e tal, que o nosso governo fizesse isso.
O senhor citou também a questão dos plebiscitos. Se o governo convocasse plebiscitos para consultar a população, seria uma forma também de expor que o Congresso não representa as vontades do povo?
Veja bem, não há contradição em ter o Congresso funcionando e você também praticar a democracia direta, porque é o artigo da Constituição que diz isso. Todo poder emana do povo que o exerce diretamente ou através de representantes eleitos.
O que está funcionando hoje é só a parte dos representantes e a população, cada vez mais, não se sente partícipe das decisões. Então seria importante que aqueles artigos que pudessem facilitar a participação da população fossem regulamentados.
Por exemplo, iniciativa popular legislativa. Hoje, você pode colher assinatura pela internet, não precisa ser por caneta. Então, se faz um projeto de lei popular, manda para o Congresso, só que chega lá, primeiro um número muito grande de assinaturas.
Chega lá, segue o rito comum, ou seja, não vai votar nunca. Então poderia ter, tudo que fosse iniciativa popular ou legislativa, ter um rito especial. Por exemplo, entrar no regime de urgência. Precisa ser apadrinhado por um deputado ou amadrinhado. Tem uma série de dificuldades.
Plebiscito, nós chamamos o plebiscito das armas e o plebiscito da forma de regime do sistema político. Por exemplo, essa questão de explorar petróleo na margem equatorial. Tem uma divisão, não sei se é majoritário, se é minoritário, porque não consulta a população sobre isso.
Porque a cada eleição… nós temos eleição a cada dois anos; por que em cada eleição não seguir, por exemplo, o exemplo dos Estados Unidos, que introduz nas eleições municipais ou nacionais, consultas à população sobre temas variados? Então, isso dá ao cidadão ou à cidadã a ideia de que ele está participando.
Por exemplo, as emendas parlamentares. Elas hoje estão quase inviabilizando as prioridades do governo. Então, uma forma de melhorar isso seria, por exemplo, orçamento participativo.
Você consultar a população sobre suas prioridades, sobre as áreas que ela gostaria mais de investir. Não é uma jabuticaba isso. Nós já fizemos isso no Rio Grande do Sul, já fizemos em São Paulo.
Mato Grosso do Sul, no governo Zeca…
Também. Com mais facilidade agora, porque na época do Zeca não tinha internet, não tinha inteligência artificial, hoje é muito mais fácil. Então, essas questões, eu não estou misturando isso com o plebiscito popular, que não é um plebiscito oficial, como não foi oficial o plebiscito contra a Alca.
Lembra da Alca? Era a Associação de Livre Comércio das Américas. Os Estados Unidos queriam, né? O PT e outras entidades fizeram um plebiscito aqui e ajudaram a rejeitar a Alca. Então, você tem plebiscitos que o governo poderia convocar e você tem coisas que são iniciativa da população. Que aí o PT deve estimular como partido.
Aí não é nem tanto quantas pessoas vão votar, que é importante, mas a preparação desse plebiscito. Você vai no bairro, leva um cartaz, explica pra população: “vocês estão a favor da redução do imposto? Sim, não? Procura o seu deputado, fala com o seu vereador”.
Isso vai… Aí vai lá a igreja evangélica, que é tanta preocupação e tal. Eles se interessam, tem gente que paga imposto de renda. Gostariam de pagar menos, então… Gostaria de mais justiça tributária, quem tem mais paga mais. Qualquer um entende e concorda com o argumento que quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Então não é uma coisa revolucionária, é um problema de justiça.
Um dos pontos que é mais criticado tanto no governo quanto na esquerda como um todo, é a questão da comunicação. Que medidas o senhor acha necessárias para nós fazermos frente à extrema direita, tanto no combate às fake news, quanto na regulamentação da mídia e também das redes sociais?
Bom, primeiro, dizer que os problemas do governo que estão na comunicação, já está comprovado que não é só comunicação. Trocou, melhorou um pouquinho, mas para comunicar você precisa ter uma diretriz, precisa ter política, precisa ter conteúdo, precisa ter uma estratégia política.
Quem comanda a comunicação, assim como quem comanda a organização, é a política. São as diretrizes, os princípios. Então, primeiro isso, a gente precisaria ter uma estratégia clara coerente com o programa de governo para fazer o embate da comunicação, informando e debatendo com os adversários, ou até com os inimigos, muitas vezes.
Então, esse é um aspecto. O outro é a necessidade de regulamentar as big techs. E quando eu digo regulamentar, é uma coisa ampla. Começa com a história de evitar as fake news, que foi o que mais incomodou no começo, passa pela questão da taxação, como já existe na Europa, e passa pela questão de soberania e segurança nacional, porque hoje elas têm poder para derrubar governos.
O Elon Musk até recentemente, perguntado se ele estava participando do golpe da Bolívia, Ele pode participar de qualquer golpe. E o secretário de defesa dos Estados Unidos, Peter Hegseth, disse que precisamos retomar o nosso quintal. Ele considera o quintal e os países da América Latina como quintal dos Estados Unidos.
É o velho princípio da doutrina Monroe. Que aqui é território americano, eles é que controlam aqui. Então, com as big techs, você não só tem problema de segurança nacional – como foi o caso, por exemplo, da NSA espionando a Dilma, espionando as questões do petróleo – como você tem o problema de segurança tem problema de soberania nacional.
Os nossos dados, a maior parte dos nossos dados, pesquisa, dados estratégicos, estão todos hospedados nas nuvens da Amazon. Então, como é que nós vamos tolerar isso aí? Como é que você muda isso?
E tem a questão do empoderamento dos dados também. Eu e você somos o produto. Tudo que eles recolhem a seu respeito é monetizado depois. Seus hábitos, seus gostos, o que você consome, o que você lê. Isso, pra eles, essa mineração é ouro puro pra eles. Você é o produto deles duplamente.
Você é o produto quando eles tiram de você e você é o produto quando eles devolvem pra você. Então isso, isso requer ter uma legislação que você só pode ter seus dados utilizados se você autorizar. Então teria que mudar. Quando que eu autorizei? Aqui, ó. Quando você entra no “zap”, você tá autorizando a usar esse serviço.
Então, eles usam os seus dados, isso precisaria mudar. Quer usar seus dados? “Eu não autorizo”. Se você autorizar: “você tá ganhando 10, eu quero cinco pra mim, eu quero três pra mim”. Essas coisas precisam ser debatidas e entra aí agora, mais ainda até, a inteligência artificial no mesmo bolo, que também está conectada com eles, com subsidiárias.
Além da comunicação em si, a informação, a divulgação, a formação de opinião, interferência nas eleições, tem todo esse outro lado que é da soberania e da segurança. Eu fiz até um seminário lá na Câmara, na Comissão de Ciências e Tecnologias, sobre soberania digital. Fiz até um caderninho lá sobre isso, que a Câmara… chamando professores, chamando especialistas e tal, que discutiram essa questão da soberania digital.
Como é que você cria um sistema próprio, como tem na China, como tem na Índia, no certo sentido, como tem na Rússia? E essa regulação nada tem a ver com liberdade de expressão. A mudança agora do Marco, do artigo 19 do Marco Fiscal, é para ampliar a responsabilidade das big techs sobre aquilo que elas difundem, inclusive no material que é monetizado, que é impulsionado.
Elas têm que ter controle sobre o que elas estão impulsionando. Elas estão impulsionando sem saber o que é? Quer dizer, vão impulsionar o negócio ensinando a fabricar bomba? E aí eu preciso de uma autorização judicial para tirar isso? Ela está sabendo que isso requer custos. Requer acompanhamento, então não querem gastar, né?
Em 2026 estão marcadas as eleições estaduais e federais. Em muitos estados especulam-se alianças nas quais o PT não necessariamente estaria na cabeça da chapa ou na vice. Como o senhor vê esse cenário e a necessidade ou não do protagonismo do PT nas eleições do ano que vem?
Primeiro, eu acho que você tem que ter clareza sobre o que está em disputa e que programa você leva para as eleições. A partir daí, você vê quem são os parceiros nessa disputa. Não necessariamente você tem que ter candidato em todos os lugares. Nunca foi assim.
Você precisa também, nas eleições, construir o partido. Então, você precisa projetar lideranças. Tem lugares em que o candidato favorito, vamos dizer assim, Não é o caso de você coligar, porque defende posições totalmente diversas da nossa. Então, se lançam liderança para crescer, para projetar.
Quantos não se elegeram assim? O Lula mesmo perdeu várias eleições antes de eleger. E desde já nós temos que começar a mapear e formar chapas. Porque se você deixar correr solto, na situação atual…
Que antes era assim: “ah, eu vou ser candidato para ajudar o PT”. Agora as pessoas falam: “não, eu quero ser candidato se eu tiver a chance de me eleger, se eu tiver a estrutura de campanha”. Então você tem que começar a nos diretórios, tem que começar a mapear o país e dizer o seguinte: “nós vamos democratizar o fundo eleitoral”.
Não que você vai distribuir tudo igual, pulverizado, mas ter uma escala de prioridades, que seja transparente, procurar até lá revogar essa história de que pode reeleger quantas vezes quiser. Porque iria ter uma renovação agora nas câmaras municipais se tivesse vigorado a disposição que ninguém pode ter mais que três mandatos no mesmo nível. Ia ter uma renovação forçada.
Aí o argumento é assim: “mas quem entra não tem o mesmo voto”. Com poucas exceções, quem se elege, se elege com os votos dos outros também. E mesmo quem se elege sozinho, que ultrapassa o coeficiente eleitoral, ele se elege porque ele está sendo candidato por um partido.
É justo que você tenha um escala de prioridades que seja transparente, que você dê mais espaço para jovens, para mulheres, para negros, que são coisas que a gente já estabeleceu como critério, mas não tem levado muito a prática. E fazer análise de viabilidade também, quer dizer, não basta ser jovem, não basta ser negro, não basta ser mulher. Precisa ter algum trabalho social, precisa estar enraizado em alguma comunidade.
Não vai falar: “eu sou jovem, quero ser candidato agora”. Só se tem uma trajetória de compromisso, de serviço prestado, digamos assim. Antes, como é que uma pessoa saía candidata? Ela tinha que passar por um número xis de diretórios. Hoje eu resolvo ser candidato à reeleição, não preciso prestar contas pra ninguém. Vou lá e me inscrevo e ponto.
Antes tinha essa disputa, você ia nos diretórios, se apresentava, aí um diretório indicava duas, três lideranças, você passava por esse crivo. Então não tinha muito aventureiro que aparecia de última hora para ser candidato. E tinha também prestação de contas. De contas do mandato, fazia plenário e tal. Não que alguém proibisse a sua reeleição, digamos assim. Mas o cara que ficasse ausente e tal, dificilmente ele se reelegia depois.
O senhor acha que hoje o partido foi tomando outra forma e ficando mais voltado aos mandatos?
Sim, exatamente. Hoje… As próprias filiações que foram feitas agora, muitas exageradamente, filiações em massa, irregulares na minha opinião, elas são feitas pelos parlamentares, não são feitas pelos diretórios, digamos assim.
Então, tem um grupo no Piauí que me apoia, até esqueci de mencionar, chama PT de Base e PT de Luta. Eles criaram uma tendência no Piauí em protesto, porque tem várias cidades do Piauí em que quem dirige o diretório é um prefeito, e às vezes não é prefeito nem do PT.
Então é uma deformação em andamento que vai inclusive apagando as nossas distinções. E o PT sempre apareceu como um partido diferente nos seus métodos, nas suas propostas, tem paridade de gênero nas direções. Entretanto, nós estamos ficando parecidos. Essa institucionalização excessiva leva à perda de identidade e leva à burocratização também.
E leva, portanto, ao afastamento das bases, que não se sentem participantes de nada, só votam. O cara é chamado a cada dois anos para distribuir panfleto. É por isso que meu slogan é “Com a base, construir a esperança”.
Mesmo com uma retomada de indicadores positivos na economia, o governo Lula III tem níveis de popularidade mais baixos do que os dos dois mandatos anteriores do presidente e os números não se refletem na percepção de uma parte da população. A que elementos o senhor atribui esse fenômeno e de que forma o governo poderia superá-lo?
Primeiro, debate de ideias na sociedade. O presidente, os ministros têm que fazer disputa de ideias na sociedade. E o partido também. Para o partido fazer isso, ele tem que estar presente onde o povo vive. Tem que estar presente nas lutas sociais, o plebiscito, a questão da Palestina e tal. E combater o senso comum.
O senso comum o que é? “Bandido bom é bandido morto”. “Imposto, não pode ter imposto”. Esse é o senso comum. Agora, se você vai ver a vida real, até 1988, a alíquota do imposto de renda máxima era 45%. Hoje é 27,5. Tinha várias faixas que permitiam isenção maior, embaixo, do que hoje. Isso foi sendo mudado aos poucos.
Como mudaram também em 1995, isentaram lucros e dividendos da taxação. Então, é um movimento de liberação do andar de cima e aumentando a desigualdade e a concentração de renda. Então, você muda isso como? Você muda isso com a valorização do salário mínimo, você muda isso com a distribuição de renda pelos programas sociais, mas a principal via para mudar isso é a política tributária para reduzir desigualdade.
E você vê que é o contrário, o Arminio Fraga propõe congelar o salário mínimo por seis anos para controlar a inflação. Mesmo agora, a nossa política econômica é a seguinte: a economia permanece aquecida, então não há como reduzir a taxa de juros. Olha, qual é a consequência que eu tiro? Para reduzir a taxa de juros, precisa aumentar o desemprego, diminuir o PIB. É um paradoxo, porque esfriar a economia, diminuir o PIB, é, conter o consumo, é arrochar salário.
Esse arcabouço fiscal, por exemplo, o senhor tem uma visão crítica.
É, o arcabouço eu chamo de novo teto de gastos. Porque é um teto, né? É mais suave, digamos assim, que o interior, mas é um teto de gastos. Não deixa de ser, né?
