Deputado conversou com a Badaró sobre o processo de cassação de seu mandato, conjuntura nacional e perspectivas para o futuro
Entrevista: Vitória Regina Correia e Norberto Liberator
Glauber Braga é um dos principais quadros da esquerda brasileira emergidos após a primeira “era Lula”. O friburguense tinha 20 anos quando o operário se tornou presidente da República pela primeira vez. Aos 26, assumiu o cargo de deputado federal pelo Rio de Janeiro.
Filho de pais brizolistas, cresceu em um lar de esquerda. Aprendeu com sua mãe, Maria da Saudade Braga, a não baixar a cabeça para os interesses da burguesia e de seus representantes na política institucional (Saudade foi prefeita de Nova Friburgo entre 2001 e 2008.
Hoje, Glauber enfrenta mais um desafio contra a direita oligárquica: um processo de cassação que, se consumado, seria a maior pena já imposta pelo Conselho de Ética da Câmara. Isso porque expulsou, a empurrões e pontapés, um militante de extrema direita que o ameaçou e ofendeu a honra de sua mãe. Para que o drama tome ares de comédia, como é comum no Brasil, o próprio relator do caso já agrediu fisicamente um jornalista dentro da Câmara e nunca foi punido.
O parlamentar do Psol tem percorrido o Brasil, em caravana, para defender seu mandato e explicar que não se trata de uma luta pessoal, mas do enfrentamento aos que pensam ser donos do país. Em Campo Grande, encontrou-se com militantes no sindicato dos professores, a ACP, e falou com exclusividade à Badaró sobre o processo, governo Lula, conjuntura nacional e perspectivas para a esquerda no Brasil e no mundo. Confira:
Badaró: Você tem afirmado que a sua condenação no Conselho de Ética está ligada a interesses do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira. Inclusive chegou a ser dito que seu mandato seria mantido desde que pedisse desculpas ao Lira. No entanto, você diz que pedir desculpas pra ele seria o pior que perder o mandato. Ao optar por esse embate direto e não pela negociação, você acredita que pode inspirar novas lideranças a não se acomodarem e aceitarem esse “toma lá dá cá” como regra?
Glauber Braga: Quando se estabelece, você não consegue mais parar. A briga que nós vamos fazer para além da salvação do mandato, é uma briga contra o poder ilegal. Lira é a representação mais gritante do que é o poder oligárquico no Brasil. É gente com muita grana, um poder incontrolável, e para além disso, que utiliza de todas as ferramentas para subjugar o seu oponente, o seu inimigo.
Ou a gente reage a isso, ou o que vai acontecer é a amplificação, a ampliação e a manutenção de poder permanente do poder oligárquico. Eu considero sim, respondendo a tua pergunta, espero que essa ação, como a minha foi inspirada por outros, outras pessoas, outros mandatos, a fazerem essa luta contra o poder oligárquico. Mas isso não nasce de mim. Eu sou inspirado pelos movimentos de luta, pelas organizações de luta que já fazem isso.
O militante do MBL envolvido na confusão do vídeo fez insinuações sobre sua mãe, Maria da Saudade Braga, que morreria pouco tempo depois. Você poderia explicar melhor sobre a trajetória política da sua mãe e, na sua avaliação, qual é a motivação de ter um nível tão baixo de provocação?
Minha mãe é uma mulher que cavou o chão com as unhas, nordestina de Natal, no Rio Grande do Norte. Que começa, no município de Nova Friburgo, a trabalhar como médica de família, quando na época o programa nem existia, mas ela já atuava na zona rural do município e trabalhava também discutindo prevenção à gravidez na adolescência nas escolas do município. Sou filho de um casal de brizolistas: Saudade, minha mãe e Roberto, meu pai.
Minha mãe, então, por conta desse trabalho de base que ela já realizava, é convidada a ingressar na época no PDT e ser candidata a vice-prefeita. Vem daí a trajetória dela. Ela é eleita prefeita rompendo uma polarização histórica de dois grupos políticos de direita. Então, ela é a primeira candidatura de força popular que se elege, de fato, na cidade com um programa à esquerda. De uma câmara de 19 vereadoras, em um determinado momento só uma vereadora apoiava o governo dela, e eles fizeram de tudo para derrubá-la.
E ela sustentou o governo fazendo mobilizações públicas na rua e com decisões judiciais contra as tentativas de cassação. Eu tenho muito orgulho de ter, inclusive, como militante participado dessa ruptura que ela fez na cidade. Sofreu muito, como as mulheres sofrem quando militam politicamente, quando exercem cargos como ela exerceu. Você tem uma ideia de um candidato, na primeira candidatura em que ela foi eleita prefeita, que no programa de televisão dizia “Aqui, nas minhas veias, corre sangue de friburguense e não caldo de rapadura”.
Era esse o nível da campanha que ela enfrentava. As elites locais nunca aceitaram que ela tenha sido eleita prefeita. E daí veio uma reação muito forte do ponto de vista da misoginia e de todos os ataques que ela sofreu durante aquele período.
Minha mãe não era uma militante de formação feminista, mas ela fazia um governo feminista na prática. A maioria absoluta das secretarias era comandada por mulheres. Quem vem depois dela, um cara da direita, não tinha ninguém, não tinha uma mulher ocupando nenhuma secretaria.
Então, sempre que eles atacam a honra dela, eu me sinto na obrigação, não só porque ela é minha mãe e porque eu amo minha mãe, mas pelo que ela representou na luta de ruptura com as oligarquias de Nova Friburgo.
Uma trajetória parecida com a da Luiza Erundina.
É isso aí. Eram amigas, inclusive, se parecem muito.
Você tem sido uma das vozes mais fortes contra as privatizações. Diante de um Congresso majoritariamente favorável ao mercado e que coloca o governo federal como refém, quais são as estratégias viáveis para reverter ou ao menos barrar esse processo de desmonte do patrimônio público?
A principal tática tem que ser essa aqui. Tem que se mobilizar para além do espaço institucional. Quando eu perguntei se Lira não tinha vergonha, era para amplificar o que estava acontecendo ali dentro com a tentativa dele de privatização da Petrobras. Quando foi que as oligarquias representadas por Lira recuaram? Quando, por exemplo, as mulheres se mobilizaram em todo o Brasil contra o PL do estupro, aí ele foi e recuou.
Então não tem outra alternativa. Se a gente quiser vencer alguma coisa do ponto de vista parlamentar, é a luta na rua que faz a diferença. A luta pela soberania e contra as privatizações tem que se dar prioritariamente nos estados, para que quando chegue à Câmara Federal, quando eles tentem arrasar por completo patrimônio brasileiro, já exista tanta força social mobilizada que eles não tenham coragem de fazê-lo.
E não é só a maioria social, porque qualquer pesquisa de opinião pública, quando você pergunta se as pessoas são favoráveis ou contra privatizações, a maioria absoluta vai dizer que é contra. Mas essa maioria contra as privatizações tem que se transformar em maioria organizada, com capacidade de enfrentar. Aí esses caras não conseguem avançar.
A situação pública tem aberto repercussões dos mais jovens, especialmente nas redes sociais. Como você viu o papel da juventude na reconstrução de um processo popular e anticapitalista no Brasil? Há uma condições concretas dentro da esquerda institucional para abrir espaço a essas novas lideranças?
Primeiro, eu considero que é imprescindível. Segundo, que eu não posso falar do conjunto das organizações. Tem algumas organizações políticas que eu vejo que são completamente permeáveis e trabalham essa construção de maneira séria, planejada. Tem outras que não.
Ou seja, que existe um apelo ao mofo. Eu não estou falando só de idade, eu estou falando de novas práticas políticas que consigam romper com as hierarquias que já estão montadas historicamente. Agora, a alteração significativa das estruturas partidárias para receber e construir essas organizações em conjunto com a juventude é o que pode mudar o panorama da política brasileira.
Porque quando a gente fala com a juventude sobre a ação direta, sobre a ocupação dos espaços, sobre fazer algo que vá para além, do espaço institucional, para a juventude isso não é novidade. Ela já faz isso o tempo todo. Então é com essa moçada que a gente tem que trabalhar. E não levando uma mensagem, mas construindo a mensagem junto com as lutas que a juventude já vem tocando.
Tem muita coisa, mas vou me ater a duas questões que podem ajudar no que eu considero estrutural e que é fundamental para derrotar a extrema direita, inclusive eleitoralmente. Primeiro, não pode ter uma linha de orientação econômica que flerte ou que coloque em prática prioritariamente medidas de austeridade. Porque há uma tendência de manutenção desse cenário de 30-30-30. 30% votando com a direita ou extrema direita, 30% votando com uma percepção mais à esquerda e 30% no meio do caminho em disputa
Se você toca medidas de austeridade, você está jogando esses 30% do meio do caminho para o colo da extrema direita. Se você faz o contrário, se você dialoga e toca medidas que ampliam o poder de compra, que ampliam a capacidade da classe trabalhadora a colocar comida na mesa, você vai estar fazendo com que esses 30% que estão no meio do caminho venham para o nosso lado.
Mas não basta também tocar medidas que sejam contra a austeridade, de garantia de direitos da classe trabalhadora. Tem que fazer isso numa mobilização aquente. Não basta mandar para o Congresso Nacional e aprovar. Tem que mostrar para as pessoas, tem que chamar as pessoas para construir essa luta conjuntamente. Um exemplo para mim que é bastante evidente é da isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos. Você tem dois caminhos a seguir ali.
A medida é importante, mas se você fica refém exclusivamente do quadrado institucional, o relator é Arthur Lira. Ele vai mantendo alterados todos os direitos dos grandes, para conceder mesmo que seja um mínimo para a classe trabalhadora, para o que tem rendimento menor. Agora, se você faz cadeia nacional de rádio e televisão, se você mobiliza na rua a importância da aprovação daquela matéria, se você forma comitês locais de impulsionamento daquela votação, o senhor Lira fica constrangido de ser o representante do mercado nessa relatoria, como foi na presidência da Câmara.
Eu, num conjunto de tantas coisas que precisam ser realizadas, eu frisaria essas duas. Política econômica, que vai ao encontro dos interesses da classe trabalhadora, rejeitando medidas de austeridade, e política de mobilização ativa e aquente, que não fique refém do quadrado institucional ou só do calendário eleitoral. Agora, o momento de mobilizar é sempre, é já.
Só pra pegar um gancho, esse chamamento tem sido feito, por exemplo, pelo Gustavo Petro na Colômbia. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso.
Dois casos rápidos. Um, o Petro. O Petro começa eleição apertadíssima, como no Brasil, 51 a 49. Passou por momentos dificílimos e tomou a decisão de mobilizar na rua. Teve de 25% a 30% em determinado momento de aprovação popular dura. Eles não tiveram condições de tirar o Petro. Por quê? Porque esses 25% a 30% estavam mobilizados ativamente.
Agora, ele já ampliou, inclusive, essa popularidade que era de 25% a 30% na última pesquisa que saiu, demonstrando que a mobilização é quem te dá resultado. E o Petro faz isso de maneira refletida, pensada. Ele dá o exemplo, inclusive, do Castillo, no Peru. Ele conta a história: “Fui visitar o Castillo, as mobilizações estavam ocorrendo na rua, e ele isolado dentro do palácio”.
O que ele fez? Ele foi para fora do palácio. O Petro foi se mobilizar com o povo. E o outro caso que acho interessante é da França Insubmissa. extrema direita, ganha na França o maior número de cadeiras no Parlamento Europeu. Macron, que é o cara da velha direita, faz o quê? Chama eleições antecipadas, imaginando: “vou vencer e todo mundo da esquerda vai ter que ficar comigo para enfrentar a extrema direita”. França Insubmissa, vai, Mélenchon e companhia, fazem uma campanha de enfrentamento à extrema direita, mas também demonstrando qual era o peso da austeridade nas costas dos trabalhadores.
E que aquela política tocada pelo Macron não podia ser a política prioritária da esquerda, não podia ser a política da esquerda, que ela precisava ser enfrentada. O resultado que ninguém esperava foi qual? A esquerda com radicalidade política elegeu o maior número de congressistas. E aí o Macron, que flertava com essa esquerda para se manter no poder, com a indicação de chefes de governo, ele se aproxima da própria extrema direita e de forças mais daquele lado, porque eles aceitam tudo, menos dá o poder para a gente. Então, são dois exemplos que eu acho que são muito interessantes. Colômbia e também da França.
É isso.
Maravilha. Obrigado.
