16 de agosto de 2025

País sul-americano define seu rumo em meio a racha na esquerda e reascensão da direita

As duas figuras de maior destaque na esquerda boliviana, o ex-presidente Evo Morales e o atual, Luis “Lucho” Arce, estão de fora da disputa eleitoral deste ano, que ocorre no domingo (17 de agosto).

Morales e Arce têm protagonizado uma disputa cheia de acusações mútuas, sendo que nenhum dos dois segue no Movimento ao Socialismo (MAS), partido pelo qual foram eleitos. Evo Morales foi impedido de se candidatar pela justiça eleitoral.

O Tribunal Constitucional Plurinacional da Bolívia (TCP) determinou, em 2023, que Evo não pode concorrer a um quarto mandato, pois a Constituição boliviana agora limita os mandatos presidenciais a dois, consecutivos ou não. 

Além disso, o ex-cocaleiro tentou registrar sua candidatura pelo Partido de Ação Nacional Boliviano (PAN- Bol), mas o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) anulou a personalidade jurídica do partido em maio deste ano. Já Luis Arce decidiu não se candidatar e anunciou a desistência em maio.

Segundo o presidente, seu objetivo era evitar a “divisão do voto popular” diante da possibilidade de disputar com Evo ou um candidato apoiado pelo ex-presidente. Arce afirmou que dividir os votos da esquerda beneficiaria o fascismo.

No entanto, sua popularidade baixa pode ser um fator de peso na decisão. Nas pesquisas, o presidente não empolgou e não passou 1% das intenções de voto.

Andrónico Rodríguez é candidato pela Aliança Popular, uma coligação que reúne três partidos de esquerda. O presidente do Senado boliviano deixou o MAS no ano passado, devido a disputas internas. No entanto, não tem passado de terceiro colocado nas pesquisas eleitorais, somando entre 9% e 11% dos votos. Favorito entre o campo de esquerda, Rodríguez e seus apoiadores esperam uma surpresa nas urnas.

Desde o primeiro mandato de Evo Morales em 2006, a esquerda boliviana — especificamente representada pelo MAS — exerceu um papel de hegemonia nos pleitos eleitorais. Reeleito em 2009, 2014 e 2019, Morales foi obrigado a renunciar após um golpe de Estado, que retirou toda a cúpula do MAS e apoiadores do poder, sendo substituído por Jeanine Áñez, apontada como uma das líderes do movimento golpista e posteriormente presa.

Impedido de se candidatar, Evo apoiou em 2020 o seu ex-ministro Luis Arce, com quem romperia mais tarde. Em 2025, com baixa popularidade e diante de uma crise política e econômica, com embates públicos contra Morales, Arce não teve força política para se candidatar novamente ou fazer um sucessor. Assim, os dois candidatos com mais intenções de voto são o milionário Jorge Doria Medina e o ex-presidente Jorge ‘Tuto’ Quiroga, ambos de direita.

Com a desistência de Arce, o MAS indicou o ex-ministro de Governo (correspondente ao chefe da Casa Civil) Carlos Eduardo del Castillo para disputar a presidência. No entanto, o advogado de 36 anos não tem empolgado nas pesquisas, apontando a crise de popularidade do partido. Del Castillo tem atingido no máximo 2% das intenções de voto.

O segundo colocado nas pesquisas eleitorais e apontado como um dos presentes no segundo turno, Jorge ‘Tuto’ Quiroga, foi vice-presidente durante o mandato eleito do ex-ditador de extrema direita Hugo Banzer.

O general Banzer governou a Bolívia após dar um golpe de Estado em 1971 e se manteve no poder até 1978, quando foi derrubado por outro general golpista, Juan Pereda Asbún. Durante seu governo, Banzer se alinhou aos Estados Unidos e, posteriormente, ao Chile de Augusto Pinochet. Proibiu partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais; censurou a imprensa e afundou a Bolívia em uma de suas maiores crises econômicas, devido a uma série de empréstimos que, a curto prazo, trouxeram melhoras na economia do país.

Devido a esta falsa noção de prosperidade, se elegeu presidente em 1997, desta vez pelo voto popular. Sua chapa tinha Quiroga como vice. Banzer governou até 2001, quando se afastou por problemas de saúde e foi substituído por Quiroga.

Já o líder nas pesquisas eleitorais, Samuel Doria Medina, foi candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Jeanine Áñez, então presidenta que assumiu após o golpe de Estado de 2019. O empresário, que foi presidente da maior empresa de cimento da Bolívia e é considerado um dos homens mais ricos do país, disputou a eleição de 2020 como segundo nome da situação, representando a ala golpista da burguesia boliviana.

No entanto, a chapa teve seu registro retirado após a desistência de Jeanine Áñez em disputar a presidência, sob argumento de dividir os votos da direita. A manobra não foi suficiente e Luis Arce foi eleito naquele ano ainda no primeiro turno.

Uma eventual vitória da direita boliviana pode pôr em prática o plano de privatização do gás natural, o que impactaria o Brasil de forma direta e de maneiras diversas.

Parte considerável do gás distribuído no Brasil vem da Bolívia. A privatização, além de mudar a política de preços e colocar em risco a prioridade dada às exportações para o Brasil, levaria a uma intensa desestabilização política, com fechamentos de estradas (os famosos paros) e paralisações organizadas pelos poderosos sindicatos bolivianos. 

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